Eu, grávida, me confesso. A primeira coisa que queria comer mal saísse da maternidade era uma travessa inteira de sushi. Há seis meses sem tocar nesta iguaria, por causa da Salmonella, e a eliminar todas as frutas e legumes crus fora de casa, por não ser imune à toxoplasmose, até os meus olhos sorriram perante a possibilidade de comer sushi previamente pensado e preparado para o meu estado.

Parece que os meus desejos são os mesmos de muitas outras grávidas. Pelo menos foi o que aconteceu com a mulher de Hugo Ribeiro, o proprietário do restaurante Sushic, em Almada, que teve dois filhos em apenas três anos. Perante tamanha privação da companheira, Hugo decidiu criar um menu só para mulheres grávidas ou em período de amamentação. E não é que resultou? A boa notícia é que este menu acaba de ser lançado no restaurante para todas as interessadas. Só tem que telefonar e reservar com pelo menos 48 horas de antecedência. As explicações que se seguem respondem-lhe porquê.

“Só se faz com 48 horas de antecedência para que o peixe seja submetido a um processo de frio, que permite estabilizar e controlar microbiologicamente o produto. Por outro lado, produtos como ervas aromáticas, vegetais ou frutas são cuidadosamente e especialmente desinfetados”, explica Hugo Ribeiro, que conta com a ajuda de uma engenheira alimentar na concepção destes menus.

Sentamo-nos à mesa um dia depois de a ASAE ter passado por ali e de ter saído sem um único processo de contra-ordenação, o que deixa Hugo visivelmente orgulhoso. Começamos com um cocktail sem álcool. Confesso que me vinguei do facto de nunca mais ter bebido sumos de fruta fora de casa e experimentei as três possíveis escolhas do “Menu Mamã”: manga, laranja e papaia, maçã verde com morangos (também erradicados da minha dieta há seis meses) e limonada com gengibre. O bebé mexeu-se. Penso que aprovou.

E depois começou o momento pelo qual tanto ansiava. Primeiro prato: um temaki diferente do habitual. Em vez da alga, uma massa crocante. (Aviso de Hugo: todas as claras e gemas de ovos usadas no restaurante são pasteurizadas). Lá dentro, cubos de atum braseados com cebola reduzida em vinho do Porto. Agora que escrevo, ainda me cresce água na boca. Seguiu-se um ceviche de peixe branco com rebentos de coentros, hortelã e maracujá. Hugo faz questão de sublinhar que em vez do habitual saqué que usa para cortar o ácido dos citrinos, usou um pouco de açúcar.

“Foi tudo feito com muita responsabilidade, não posso pôr a vossa saúde em causa”, sublinha. Seguiu-se um combinado com várias peças — salmão, atum, peixe branco e legumes.

Ceviche de peixe branco

Ceviche de peixe branco

Sushic

O combinado incluído no “Menu Mamã”

As sobremesas não estão incluídas no menu, que custa 29,50 euros. Mas se lhe disser que provei um brownie de chá verde ou um crème brûlée, entre uma variedade de outras deliciosas sobremesas, provavelmente não vai hesitar.

“Se a ponte 25 de abril fechasse, teria que fechar o restaurante”

O Sushic já foi considerado, por um blogue japonês, um dos melhores sítios para comer sushi no mundo. Mas o seu proprietário, que é bem português, tem noção de que grande parte dos clientes vem de Lisboa. Aliás, no dia em que houve uma ameaça de bomba na ponte 25 de Abril, e o trânsito no tabuleiro foi cortado, isso refletiu-se na clientela. “Se a ponte 25 de abril fechasse, teria que fechar o restaurante”, assume Hugo. Talvez tenha sido por isso que abriu uma extensão do restaurante no Monte da Caparica onde se pode chegar de helicóptero, como o Observador então noticiou. Ainda assim, há esperança para os mais preguiçosos: vai abrir um espaço em Lisboa. Só não se avança, ainda, uma data concreta.