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Há praias onde banhistas e escavadoras vão ter de conviver no verão

Há 28 praias que estão "em obras" e algumas assim permanecerão durante toda a época balnear. E se há praias em que mal se notam as empreitadas, noutras ouvem-se mais as máquinas que o mar.

Na Praia da Adraga, em Sintra, há máquinas a colocar redes protetoras nas arribas

Michael M. Matias/Observador

O acesso à Praia da Adraga, em Sintra, faz-se por entre curvas e contracurvas, numa descida íngreme e por vezes demorada — que a estrada nem sempre é de vias largas, vai-se estreitando rua abaixo, e a visibilidade pode ser “matreira”. Se um carro sobe e outro desce, quando se cruzam, um deles tem de ceder e, quando não cede, volta e meia lá se ouve um buzinar mais agressivo ou um vernáculo de fazer corar.

Mas nem por isso é uma praia desértica. Longe disso. O pequeno parque de estacionamento, lá em baixo, a poucos metros do areal, está repleto de carros, e nem o sol do meio-dia, que vai alto, faz os banhistas arredar pé. Antes de começarem as obras, muitos deles — apesar dos avisos do nadador-salvador e da sinalética que diziam que as arribas eram instáveis e a o risco de serem atingidos por uma rocha que se soltasse era grande — nem por isso hesitavam na hora de estender a toalha à sombra imensa da arriba, às vezes sozinhos, às vezes famílias inteiras, com crianças de palmo e meio, deitados à sombra do perigo.

Há quem se queixe, quem diga que está mal, que há muito ruído, que o areal não é o suficiente, mas vão ter que compreender que é para seu benefício.” José Ventura, banhista

Hoje, não é possível que se aproximem tão perigosamente das arribas. Há um gradeamento improvisado que os mantém distantes por meia dúzia de metros, enquanto, do lado de dentro, trabalhadores e máquinas pesadas vão fazendo uma demolição controlada de parte das arribas, ou, por alternativa, vão colocando, em toda a extensão da mesma, uma rede protetora que impede a queda de pedaços maiores de rocha.

Michael M. Matias/Observador

José Ventura, 55 anos, aproveitou as férias e a manhã, e veio de Massamá até Sintra, à Adraga, para descansar e gozar do sol quente de julho. Não lhe é estranho o areal, mora a poucos quilómetros, e, por isso, vem cá desde há muitos anos. Confessa que sempre viu nas arribas da Adraga um perigo iminente. “As obras são necessárias e justificam-se. Infelizmente, quem vem à praia não respeita os avisos que os aconselham a afastar-se das arribas. A intervenção o que vem fazer é salvaguardar um qualquer acidente que aconteça por descuido.”

José Ventura não crê que o areal reduzido, que em volta das arribas se transformou num estaleiro de obras, com ruídos de máquinas e picaretas, vá afastar os banhistas da Adraga. “Quem conhece a Praia da Adraga sabe perfeitamente que, de vez em quando, há rochas a cair lá de cima. Só que os banhistas vão à procura da sombra na arriba e ignoram por completo o perigo que é estar lá debaixo. O trabalho que está a ser feito é de salutar. Há sempre quem se queixe, quem diga que está mal, que há muito ruído, que o areal não é o suficiente para todos, mas, a pouco e pouco, vão compreender que é um trabalho para seu benefício e não o contrário. Há muito areal para lá das arribas, completamente livre e sem perigo nenhum de derrocada.”

O restaurante da Susete não se ressentiu com o início das obras na Adraga

Susete Torres recebe-nos no Restaurante da Adraga, o único na praia, sempre de porta aberta, o ano todo, sempre de mesas cheias no verão, quase sempre com turistas. Ainda nem vai a manhã a meio, mas já traz o avental à cintura, pois, não tarda, vai começar o corrupio dos almoços. Não se recorda já de há quanto tempo ali trabalha, mas os cabelos grisalhos e o rosto enrugado quase respondem por ela. “Uiiiii, há tanto tempo. Fui criada aqui, na Adraga. Sempre vivi aqui. O restaurante sempre foi o nosso sustento. A minha avó quando veio para cá, isto não era mais do que uma barraquinha que mal se via. Ela veio para cá no tempo da rainha D. Amélia. Os meus pais foram criados aqui, eu criei os meus filhos aqui e os meus filhos criaram cá os filhos deles.”

Talvez as obras pudessem ter começado mais cedo, no inverno, mas como há tantas praias, por alguma eles tinham de começar primeiro, não é?” Susete Torres, proprietária de restaurante

E quem é nada e criada na Adraga, sabe que as obras, por muito que não goste de ver a “natureza a ser remexida”, como diz, são necessárias. “Não é a primeira vez que cai um pedregulho lá de cima. Um dia vai cair em cima de alguém. Há que pensar na segurança de todos. E também pode acontecer-me a mim – a mim não, que eu não tenho tempo de ir à praia! – ou àquele meu neto, que está lá fora a brincar. Digo-lhe: eu cá gosto é da natureza como ela é, mas também sei que quando as obras terminarem, quando a vegetação voltar a crescer, ninguém se vai recordar das obras.”

Apesar das obras e apesar do areal — que já de si não é extenso — ter o acesso temporariamente reduzido, Susete não se queixa, por ora, da ausência de clientes. “Não estou a sentir uma grande diferença em relação a outros anos. Claro que há turistas que vêm cá, uns acham bem, outros mal, mas, verdade seja dita, se lhes cair uma pedra em cima é bem pior. Talvez as obras pudessem ter começado mais cedo, no inverno, mas olhe, há tantas praias, por alguma eles tinham de começar primeiro, e não se pode fazer tudo ao mesmo tempo, não é?”, conclui a proprietária do restaurante que, terminada a conversa, logo tratou de voltar para a cozinha.

A obra na Praia da Adraga custará mais de 1,6 milhões de euros e é da responsabilidade da Agência Portuguesa do Ambiente (APA). Mas o plano de ordenamento do litoral português da APA não se esgota nesta praia de Sintra. Estendeu-se já a mais de cem locais diferentes, maioritariamente praias, de norte a sul do país. As obras vêm sendo realizadas desde fevereiro de 2014 e, neste momento, com a época balnear já aberta, 28 dessas obras de intervenção ainda estão a decorrer. Algumas vão terminar em julho, outras prolongar-se-ão até setembro, fim da época balnear, ou para lá dela.

O que falta fazer de norte a sul


O inverno de 2014 foi rigoroso. Os temporais que afetaram “severamente” a costa portuguesa, como recorda a APA, obrigaram-na a intervir, analisando os estragos, para depois, com recurso a fundos comunitários, dar início à “rápida reparação” dos mesmos. A intenção, primeiro, foi a de “reduzir os riscos para pessoas e bens”, para, em seguida, “restabelecer as normais condições de acesso e usufruto das zonas mais atingidas”.

Em Lisboa, no Concelho de Cascais, há três praias que se mantêm, durante julho, em obras: Rainha, Carcavelos, Poça e Parede. Também aqui se procede à estabilização e demolição controlada de arribas. Mas, ao contrário da Praia da Adraga, em Sintra, por Carcavelos as arribas mal se veem, não têm a dimensão nem o perigo imediato que se encontra na Adraga, e só a custo se deteta um estaleiro improvisado de obras. Ao lado dos chuveiros, o reboliço das crianças na fila é mais audível que o ruído da pequena retroescavadora que ocupa uma ínfima zona do areal, protegida por gradeamento, no paredão que dá acesso à praia.

A Câmara Municipal de Cascais, contactada pelo Observador, e questionada sobre os transtornos que os prazos escolhidos pela APA para realização das obras (que começaram em junho, no começo da época balnear, e prolongar-se-ão por todo o mês de julho) podem causar aos banhistas, não respondeu.

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A intervenção nas arribas da Praia de Carcavelos, às portas de Lisboa, começou em junho

A norte, é o distrito de Viana do Castelo que mais destoa no mapa das intervenções. E é também aquele no qual as obras se prolongarão bem para lá do pico do verão. Na capital de distrito, por exemplo, a construção de “infraestruturas de apoio ao uso balnear” na Praia do Paçô só ficará concluída em outubro, quando a época balnear se for. Mas há mais obras em Viana do Castelo, como a “requalificação da frente ribeirinha” ou o “reordenamento e qualificação da frente marítima do núcleo da amorosa e reordenamento e qualificação da frente Marítima do Núcleo da Pedra Alta” que vão terminar em setembro. A “recuperação, proteção de sistemas dunares degradados e renaturalização de áreas naturais degradadas” vai durar até dezembro.

Há obras (consulte aqui o calendário das intervenções concluídas e em execução) que visam melhorar as acessibilidades à praia; obras de alimentação artificial do areal, que vêm repor o que a erosão e a subida das marés vieram roubar à costa ao longo dos anos; obras de reforço da estrutura da proteção costeira (como aconteceu na Praia Grande, também em Sintra, uma obra já concluída em junho), para minimizar o risco do areal vir a desaparecer inverno após inverno; ou obras para a criação de infraestruturas de apoio balnear. Mas uma obra como a que está a ser concluída na Praia da Adraga tem uma intenção diferente, maior, a de salvar vidas humanas.

Acidentes como o que aconteceu em 2009, na praia Maria Luísa, em Albufeira, e que vitimou cinco banhistas, soterrados pelo desmoronamento de uma arriba, não podem voltar a acontecer. Essa é a vontade da APA, contactada pelo Observador para explicar as obras. “As empreitadas relativas à proteção costeira têm como fundamento a defesa do litoral, tanto em zonas de arribas como em zonas urbanas mais suscetíveis à erosão, e todas elas têm como fundamento incrementar (no caso de obras novas) ou manter (no caso de obras de reabilitação) a segurança de pessoas e de bens.”

Tem sido possível garantir o normal usufruto da época balnear, em condições de segurança para pessoas e bens, com o mínimo de impacto económico”, garante a Agência Portuguesa do Ambiente.

Sobre a demora das empreitadas, que levaram ao prolongamento dos prazos previstos para o final das obras, a APA explica que não foi possível, por razões orçamentais ou pelo rigor do inverno, começar antes. “As intervenções na orla costeira, como é natural, têm condicionantes muito próprias, que decorrem do facto de não ser possível executá-las em alturas de mar muito alterado. A programação da sua execução tem de ser efetuada de forma a serem realizadas fora dos períodos críticos relativos a grande ondulação e a grandes alturas de maré. Por outro lado, e como em qualquer outro tipo de empreitada de obras públicas, é indispensável o cumprimento estrito dos requisitos legais e administrativos aplicáveis.”

As obras não têm, garante a APA, prejudicado o descanso dos veraneantes. “Através de um planeamento rigoroso, que pressupõe a realização das obras de forma faseada e por troços, tem sido possível garantir o normal usufruto da época balnear, em condições de segurança para pessoas e bens, com o mínimo de impacto económico. As intervenções na orla costeira são absolutamente necessárias e constituem um investimento para um melhor usufruto por parte das populações.”

Questionada sobre se foram tidos em conta os prejuízos para todos aqueles que fazem negócio nas praias durante o verão, a APA optou por não responder.

A “praia mais bonita do país” cresceu, cresceu e tanto cresceu que deixou de ser “bonita”

Em setembro de 2013, a praia de Dona Ana, em Lagos, foi considerada pela revista espanhola Condé Nast Traveller “a melhor praia do mundo” e “a mais bonita de Portugal”. Em fevereiro de 2015 foi eleita a “Melhor Praia Portuguesa” pelo TripAdvisor. Hoje, cinco meses depois, a colocação de 140 mil m³ de areia, para aumentar o areal em cerca de 40 metros, uma obra que foi encomendada pela APA e que custou perto de 1,8 milhões de euros, continua e prolongar-se-á bem para lá de 15 de junho, a data prevista para o seu fim.

Não queremos de forma nenhuma desvirtuar a beleza desta praia, até porque é um dos nossos ex-líbris. Ficará obviamente diferente, mas igualmente bonita.” Câmara Municipal de Lagos

Uma obra que veio alterar por completo a paisagem idílica da praia algarvia. Quem lá vai, queixa-se do ruído, mas sobretudo do mau cheiro que as areias, retiradas do mar, trazem à superfície, e que torna quase insuportável a permanência, hoje restrita a menos banhistas que no passado, no areal. A Câmara Municipal de Lagos (CML), contactada pelo Observador, garante que “as intervenções nesta faixa do território são da responsabilidade da APA. Apesar de ser da sua responsabilidade, tem sido dado conhecimento à CML e as obras têm sido acompanhadas pelos nossos serviços.”

As obras de alimentação artificial da praia de Dona Ana começaram em abril

As queixas de banhistas foram muitas, mas a obra era necessária, garante a Câmara. Mesmo que executada em plena época balnear. “Já tivemos obviamente conhecimento de diversas opiniões sobre esta obra, tanto a congratular-nos pelo avanço da mesma, como demonstrando descontentamento. No que diz respeito ao prazo, infelizmente não houve nada que pudéssemos fazer. Recorde-se que o início destas obras remonta a setembro de 2009, as quais foram suspensas, uma vez que o projeto necessitou de ser revisto e, só em abril deste ano, na sequência da obtenção do visto prévio do Tribunal de Contas relativamente ao contrato da empreitada, a Agência Portuguesa do Ambiente veio informar o Município que estava em condições de proceder à consignação da obra e começar de imediato a intervenção. Mas prevê-se que o enchimento de areia esteja concluído ainda esta semana.”

A praia de Dona Ana era, cada vez mais, uma praia procurada por turistas estrangeiros de visita ao Algarve. Mas a segurança falou primeiro que o turismo. “No final desta obra, a extensão do areal da Praia da D. Ana ganhará cerca de 40 metros, permitindo a criação de uma zona de segurança imperativa junto às arribas. Esta intervenção sempre foi considerada pela autarquia como indispensável à proteção da frente de mar e à segurança dos utilizadores desta zona balnear de excelência do concelho de Lagos. Não queremos de forma nenhuma desvirtuar a beleza desta praia, até porque é um dos nossos ex-líbris. Na nossa opinião ela não será desvirtuada, ficará obviamente diferente, mas igualmente bonita. Num destino turístico de excelência, como se pretende que Lagos seja, a segurança dos banhistas é um aspeto muito importante e que não poderá ser desvalorizado”, garante a CML, que conclui: “Felizmente Lagos é um município que tem outras praias, de semelhante beleza, e que podem sempre servir de alternativa”.

O presidente do Conselho Diretivo do Turismo de Portugal, João Cotrim de Figueiredo, não respondeu em tempo útil às questões enviadas pelo Observador relativamente ao impacto que a duração das obras, que, em muitos casos, coincide ou prolonga-se para lá da época balnear, vai ter no turismo dos Concelhos e regiões com praias intervencionadas.

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