Debate

Segundo debate: #catarinabem. Mas Tsipras não ajudou

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No segundo duelo destas legislativas, Catarina Martins esteve ao ataque e não deixou cair temas como o emprego e as pensões. Portas foi respondendo e obrigou a bloquista a recordar exemplo grego.

A hashtag (símbolo usado no Twitter) tem acompanhado as entrevistas aos candidatos nestas legislativas para medir o pulso ao desempenho dos candidatos. Neste caso, serve para dizer que Catarina Martins esteve bem, mas Atenas esteve muitas vezes em jogo no estúdio da SIC Notícias, onde a bloquista e Paulo Portas disputaram o segundo duelo destas eleições. A porta-voz do Bloco de Esquerda, aguerrida desde o primeiro momento, carregou no tema da Segurança Social e obrigou Paulo Portas a garantir que vai poupar 600 milhões de euros sem fazer cortes nas pensões em pagamento. “Onde estão as contas?”, desafiava a bloquista. 

O centrista, por sua vez, mais defensivo ao longo do debate, não deixou de confrontar Catarina Martins com a crise na Grécia e com a proximidade natural do Bloco ao seu irmão grego do Syriza – Catarina acabou por admitir que não se revê no acordo alcançado por Tsipras, mas não foi clara sobre uma eventual saída da moeda única.

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A senhora deputada, hoje em dia, é avaliada pelos cidadãos pelo modelo que o Bloco de Esquerda tinha há um mês. E esse modelo chamava-se: ‘Grécia, Tsipras e Syriza’. Reestruturação da dívida grega. Onde é que ela está? O Syriza dizia que nunca mais ia pediria um resgate. Acabou de pedir o terceiro. Dizia que a austeridade ia acabar? Aceitou a austeridade em dobro. [Dizia] que a Europa ia mudar? Quem mudou foi o senhor Tsipras”, disse Paulo Portas.

Quero sossegar o doutor Paulo Portas. Eu não concordo com o plano de austeridade da Grécia. Mas [foi] importante o caminho do Syriza. As prioridades do BE não mudaram. O dr. Paulo Portas talvez goste do beco sem saída. [Mas eu] estou solidária com quem tenta acabar com ele”, respondeu Catarina Martins.

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Paulo Portas não deixava cair o dossier “Grécia/Syriza” e desafiava Catarina Martins a responder à questão sensível: se estivesse no lugar de Alexis Tsipras, “teria aceite o acordo ou tinha saído do Euro?”. Pelo meio, o centrista lembrava o esforço de recuperação do país, a inversão do ciclo económico, com as “exportações a crescerem e a baterem sucessivos recordes e os investimentos a subirem”. O mérito do Governo? Garantir que o país era suficientemente estável e previsível para atrair investimento, explicava.

Em resposta, Catarina Martins reconhecia que o plano encontrado para Grécia era “mau” e que “não devia estar a ser imposto” aos gregos. Mas defendia-se: “As condições concretas da Grécia não as vou discutir consigo”. Da defesa, a bloquista partia para o ataque, pegando nas palavras de Portas: “Não é previsível um Governo que governa sistematicamente contra a Constituição. O facto de o atual governo não ter sido capaz de ter feito um único Orçamento dentro da Constituição é a maior instabilidade que um país pode ter do ponto de vista político”.

De golpe em golpe, os candidatos aumentavam o tom. Agora, era a vez de Paulo Portas. “Tal como não sabe responder sobre o que teria feito se estivesse no lugar de Tsipras, também tem uma hesitação fundamental relativamente a: ‘Quer ficar no Euro ou quer sair do Euro’?

Se a única solução for ser um protetorado da Alemanha” então “não aceitamos”, reagia Catarina Martins. “Um Governo que está preparado para tudo ” – para sair do euro, leia-se – “tem mais poder negocial”. Estava fechado o tema da Grécia – pelo menos, até Paulo Portas o recuperar já perto do fim do debate.

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Catarina Martins queria deixar o tema da Grécia para trás e trouxe três temas para cima da mesa: emprego, privatizações e pensões. Primeiro, o emprego. Ou melhor, a precarização e destruição do emprego. “Este Governo destruiu uma coisa chamada contratação coletiva. Precarizou todos os trabalhadores. Todos os trabalhadores ficaram numa situação de grande fragilidade perante o seu empregador. Todos os salários acabaram por descer e todas as relações de trabalho ficaram mais precárias”, acusava a bloquista. Estava dado o tiro de partida.

Depois, as privatizações, sem esquecer a dívida pública. “Depois [de este Governo] ter vendido quase tudo” e conseguido “9 mil milhões de euros” que serviram para “pagar dívida”, “o que é que vão vender para pagar uma dívida que é insustentável?”, interrogava a bloquista.

(E Catarina Martins trazia um trunfo na manga: uma resposta do Conselho de Ministros a uma providência cautelar interposta para travar a concessão da Carris, que invocava o “compromisso internacional com a Troika” para justificar o interesse público. Afinal, “interesse público é [fazer] o que a troika manda”, provocava a líder do Bloco).

Por fim, as pensões. “O mesmo partido que nos diz que quer defender os pensionistas colocou os pensionistas com pensões ainda mais miseráveis” e conseguiu “cortar-lhe sete meses de reforma”. “Esta política de duas caras continua”. Como? Com o corte de 600 milhões de euros que a coligação se prepara para fazer e um plafonamento de pensões que, além de arriscada, pode representar uma perda de 4 mil milhões de euros para o sistema de pensões, acusava Catarina Martins.

A bloquista aproveitava o ritmo para lembrar que foram os “chumbos” do Tribunal Constitucional que impediram mais cortes nos rendimentos das famílias e que, consequentemente, ajudaram a animar a economia – uma tese defendida por toda a oposição. “Quem recebeu subsídios de férias, como os pensionistas que não tiveram corte da CES, sabem que não o devem ao Paulo Portas, nem a este governo” – foi o Tribunal Constitucional e a oposição, com destaque para o Bloco, que conseguiu impedir que mais cortes fossem feitos, defendeu.

Paulo Portas não fugia às acusações da porta-voz do Bloco. Primeiro, o emprego. “Prefiro um estágio a um desempregado, prefiro um contrato a prazo a um estágio e prefiro um contrato definitivo a contrato a prazo“, respondia o centrista, insistindo, mais uma vez, na evolução positiva da economia portuguesa. “Não são os governos, nem os partidos, nem os outdoors que criam empregos, são as empresas”.

Uma evolução que Catarina Martins tinha desvalorizado, descrevendo o atual ciclo económico como de “ligeira recessão”. Ora, Portas não deixou escapar a oportunidade. “A recessão ficou para trás há sete trimestres. [Vivemos com um] crescimento económico superior à media euro. A recessão veio com o resgate, não veio com o Governo. Era inevitável”, lembrava.

Depois as privatizações, e, neste capítulo, Paulo Portas tinha também um trunfo na manga: a Câmara Municipal de Salvaterra de Magos, a “única coisa que o BE já governou”. O líder do CDS desafiou Catarina Martins a olhar para o exemplo da autarquia, que concessionou os transportes urbanos por ajuste direto. A quem? À Barraqueiro, empresa que pertence ao consórcio que comprou a TAP e um “fantasma” que o Bloco gosta tanto de “agitar”.

No fim, as pensões. Paulo Portas começou por defender o trabalho desenvolvido pelo Governo em matéria de pensões, dando, a título de exemplo, o aumento “das pensões mínimas sociais e rurais que”, com o PS e antes da troika, “estavam congeladas”.

(Esta não foi, de resto, a única alfinetada de Portas aos socialistas – “Ainda me lembro do antigo primeiro-ministro [José Sócrates] a zombar das cantinas sociais“.)

Depois, as propostas da coligação. Portas recusou falar num corte de 600 milhões nas pensões. Sem avançar com números e empurrando para as negociações com o PS o desenho final da reforma da Segurança Social, Paulo Portas deixou a garantia: a poupança vai ser conseguida sem “cortar nas pensões a pagamento e respeitando a doutrina do Tribunal Constitucional”.

Quanto ao plafonamento das pensões, o centrista desmentiu os números avançados por Catarina Martins e aproveitou para atacar a proposta dos socialistas, que se propõem a fazer “um plafonamento brutal, obrigatório e sem liberdade de escolha”. Ficou por explicar mais.

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Houve um tema que acabou por acender o duelo. Ao longo do debate, Catarina Martins afirmou que, apesar de se ter registado uma ligeira melhoria em 2014, a balança comercial do país voltou a descarrilar e, hoje, está negativa.

Paulo Portas reagiu rápido e desmentiu a bloquista. “A balança comercial não está negativa – a balança comercial [compra e venda de bens e serviços ao exterior] está há três anos positiva”.

As interpretações são diferentes e os números variam dependendo do objeto de análise. Mas a questão não pode ficar sem resposta. Como tem sido hábito, Observador vai preparar um Fact Check para perceber o que significam os números.

O próximo debate, e o mais aguardado, vai ter lugar já amanhã, e colocará frente a frente Pedro Passos Coelho e António Costa. Conheça as propostas dos vários partidos no Guia Eleitoral do Observador.

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