O líder supremo do Irão, o ayatollah Ali Khamenei, disse, este domingo, que a Arábia Saudita vai sofrer uma “vingança divina” pela execução de um líder religioso xiita, horas depois de manifestantes atacarem a embaixada do reino em Teerão.

“O derramamento injustificado de sangue deste mártir vai ter rápidas consequências”, disse Khamenei perante um grupo de clérigos na capital, referindo-se a Nimr al-Nimr, que foi executado juntamente com outros 46 homens, no sábado.

“Este académico não encorajava pessoas à ação armada nem conspirava secretamente. A única coisa de que é culpado foi de fazer duras críticas públicas, impelido pelo seu zelo religioso”, afirmou.

Os condenados — 45 sauditas, um egípcio e um chadiano — julgados em diferentes casos, foram executados com sabre ou fuzilados em 12 cidades da Arábia Saudita. Eram, na maioria, jihadistas da Al-Qaeda.

Após a execução do xeque Al-Nimr, algumas centenas de homens e mulheres manifestaram-se na Arábia Saudita, na cidade de maioria xiita de Qatif, no leste do país, brandindo retratos do dignitário xiita.

Os protestos mais fortes surgiram no Irão, potência xiita que avisou que Riade pagará “um preço elevado” pela execução do xeque Al-Nimr, enquanto se multiplicam as convocatórias de manifestações para este domingo.

Manifestantes atiraram, no sábado à noite, ‘cocktails Molotov’ contra a embaixada saudita em Teerão, incendiando uma parte do edifício, e outros conseguiram chegar ao telhado do edifício e arrancar a bandeira saudita do mastro.

Nimr al-Nimr era o rosto dos xiitas na Arábia Saudita

Com ligações ao Irão (país de maioria xiita, onde estudou e de onde regressou para a Arábia Saudita, onde os sunitas são predominantes), Nimr al-Nimr, 56 anos, tornou-se a cara dos xiitas no país. Em 2009, ficou conhecido por acusar as autoridades de descriminarem os xiitas depois destes serem atacados pela polícia no cemitério de al-Baqi, um local de peregrinação.

Em 2011, aproveitando a onda da Primavera Árabe, liderou protestos pacíficos contra o regime da família real saudita. Nessa altura fazia questão de que as manifestações mantivessem o seu caráter não-violento. “É o rugido da palavra contra as autoridades, mais do que o das armas… A arma da palavra é mais forte do que as balas, porque as autoridades vão sempre beneficiar de uma batalha de armas”, disse à BBC na altura.

Em 2012 foi detido pela polícia, ocasião em que foi baleado — seguiram-se também protestos onde morreram três pessoas. Depois, foi acusado de causar “motins” e ações subversivas, o que acabou por levar à sua condenação à morte. Em outubro de 2015, o supremo tribunal saudita rejeitou um recurso da defesa de Nimr al-Nimr, que acabou por ser executado este sábado, dia 2 de janeiro de 2016.