Era a noite das alegrias, de saudar o que aí vem e tirar ilações do que já passou. Estar perto de quem mais se gosta, acabar bem um ano e começar melhor o que se segue. Não há calor, frio ou neve que faça tremer a tradição junta pessoas na rua para a comunhão da entrada no Ano Novo. Nem em Colónia, onde Caitlin Duncan estava para trocar o 2015 pelo 2016 na companhia do namorado. Ambos trocaram a casa pela rua e concentraram-se perto da estação central da cidade alemã. Ouviram as 12 badaladas, passaram a meia-noite, festejaram e separaram-se quando se começou a formar uma multidão no local onde estavam. Foi aí que o ano começou mal para Caitlin.

A mulher, de 27 anos, perdeu-se do namorado. Era ele quem tinha os telemóveis de ambos e Caitlin lamentou o facto de tão habituada estar a ligar-lhe recorrendo à cábula da marcação rápida. Não sabia de cor o número do companheiro, com quem estuda neurociência, em Tübingen, nos arredores de Colónia: “Sabia que tinha muitos 7’s, mas isso não me ajudava”. Mas só pensaria nisto depois porque, antes, e pouco depois de se ver sozinha, começou a ser cercada por um grupo de homens no meio da multidão. Um roubou-lhe o chapéu que lhe resguardava a cabeça do frio, outro tentou beijá-la na cara e no pescoço. “Outro homem aproximou-se por trás e agarrou-me. Virei-me e empurrei-o, porque estava a tocar-me. Depois, quando outro me tentou beijar, fiz o mesmo e gritei: ‘O que se passa com vocês?’”, contou ao New York Times. O que já era estranho, contudo, passou pouco depois a ser bizarro.

Ao livrar-se deste grupo de homens, fixou como prioridade procurar a polícia. Estava assustada, receosa do que lhe pudesse acontecer, ainda a tentar perceber o que se estava a passar. Não demorou a encontrar alguns agentes, embora eles também se apressassem a afastá-la. Um deles afastou-a mal Caitlin se aproximou, à medida que os restantes iam repelindo a multidão para longe da estação de comboios. “Isto é estranho, mas é o Ano Novo e as pessoas estão a beber demasiado. Vou encontrar o meu namorado e sair daqui”, pensou, reforçando a ideia assim que um conterrâneo norte-americano, que despistou no meio da confusão, lhe disse que tudo poderia estar a ser causado por um alerta de atentado terrorista.

Segundos depois de a polícia a empurrar para longe, um grupo de “sete ou oito homens” voltou a rodeá-la. “Apalparam-me e puxaram-me o cabelo. Entrei logo numa espécie de modo de combate, comecei a pontapear, bater e empurrar quem estivesse à minha volta. Não sei como, consegui sair dali”, disse, ao recordar o momento em que, alarmada, começou a correr. Estava irrequieta, perdida nos mil e um pensamentos que se tem quando o pânico bate à porta e não se sabe como o receber. Às tantas, um homem notou-lhe a inquietude e aproximou-se. Caitlin suspeitou, mas acalmou-se quando ouviu as palavras que, num alemão desprendido, o homem lhe dirigia. Percebeu que o indivíduo a queria ajudar e ele entendeu que a norte-americana o queria ouvir, por isso chamou alguém que conseguisse falar inglês.

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Foto: Sascha Schuermann/Getty Images

O primeiro homem que se aproximou chama-se Ahmad Mohammad, tem 32 anos, é um professor de escola primária e partilha algo com os outros “seis ou sete” que se juntaram a Caitlin Duncan — é refugiado sírio. Notando o desespero da norte-americana, todos ofereceram os telemóveis para que pudesse falar com o namorado. Como não se recordava do número, disseram-lhe depois que lhe dariam dinheiro para que pudesse apanhar um táxi que a deixasse em casa dos pais dele — “era a única morada que conhecia”. Nenhuma das hipóteses se concretizou e, por isso, os sírios formaram um cordão em torno de Caitlin, escoltando-a até à estação de comboios. Foi lá que a norte-americana lhes descreveu a aparência do namorado e explicou os traços que fizeram com que um dos sírios o encontrasse no interior da estação: “Fiquei tão aliviada”.

Mais tarde, o que Caitlin julgava ser um caso isolado fora apenas um entre cerca de 200 de mulheres que se queixaram às autoridades de assédio sexual no centro de Colónia. “Fiquei surpreendida ao saber que tantas mulheres tinham sido assediadas e apalpadas naquela noite”, confessou a mulher. Talvez mais desgostoso ficou Ahmad Mohammad que, ao telefone com um jornalista do diário nova iorquino, lamentou que estes incidentes façam com que “se oiça notícias sobre refugiados” todos os dias. “Ouvimos que são más pessoas, que têm de voltar para o lugar de onde vieram. Fico triste quando vejo estas notícias, porque sabemos que há pessoas más e boas. Mas das boas pessoas ninguém fala”, criticou.

Ahmad chegara à Alemanha em setembro, meses depois de sair de Aleppo, na Síria, e atravessar a fronteira com a Turquia — de onde seguiria para os Balcãs em direção à Áustria, para entrar em território germânico. Fixou-se numa pequena cidade próxima de Colónia, onde vive com outros dois cidadãos sírios e tem aulas de alemão. Ao New York Times disse que também se sentira inseguro durante a passagem de ano, em Colónia: “Más pessoas, que estavam a beber, a fumar marijuana e a tomar coisas, perderam a cabeça”.