Num congresso sem grande história, a chegada de um ex-líder a Espinho – o único que apareceu até agora – agitou as águas. Pedro Santana Lopes, que no congresso de há dois anos no Coliseu de Lisboa acabou por ser ofuscado pela ida de Marcelo Rebelo de Sousa, subiu esta noite ao palco para fazer uma das intervenções mais aplaudidas do fim de semana: atacou, elogiou, homenageou quem ninguém ainda tinha ousado homenagear, “ofuscou” Rui Rio, Pacheco Pereira e Manuela Ferreira Leite – os críticos ausentes. E manteve o tabu das autárquicas: “Keep cool”, que ainda falta…

Com ironia, entrou logo a pés juntos: “Ainda me perguntei se ofuscaria ou não o líder do partido, mas os meus familiares disseram-me que não havia esse risco, para vir à vontade”. E veio. (Rui Rio registou a farpa). “Se estive no último congresso em Lisboa era o que faltava dizer agora que Espinho era muito longe e cá não aparecesse” – esta foi para Manuela Ferreira Leite. E “quem arranja tempo para estar em comícios da esquerda radical na Aula Magna também tem de arranjar tempo para estar no congresso do seu partido”, disse ainda a fechar o rol de críticas aos críticos ausentes. Esta foi para Pacheco Pereira.

Passos Coelho sorria na primeira fila da plateia. Os elogios viriam a seguir, com Santana a deitar por terra a tese de que Passos se devia reinventar para estar na oposição. É precisamente por ser como é – “frio, sereno, responsável, determinado” – que conseguiu superar o programa da troika, ter uma saída limpa e lidar com a crise do irrevogável. Os adjetivos foram repetidos várias vezes, comparando mesmo algumas destas características pessoais às de Sá Carneiro, a referência social-democrata do partido. “Passos é o que é, é quem é, tem o seu caminho e é por esse caminho que vai. Sá Carneiro também ia sempre pela mesma estrada”, disse, travando de seguida a comparação acrescentando que, ainda assim, Passos ainda tem de “trabalhar muito” para chegar ao pedestal do histórico fundador.

“É por termos um líder com esta maneira de ser fria, responsável e determinada que Pedro Passos Coelho conseguiu aquilo que nenhum líder de países que atravessaram dificuldades semelhantes às nossas conseguiu: foi ele que teve o melhor resultado em eleições legislativas depois de um programa de austeridade extremamente difícil, cometendo uma proeza absolutamente extraordinária”, afirmou Pedro Santana Lopes.

Para Santana, se alguém tem de se reinventar então esse alguém é a União Europeia, que está “débil” e precisa de “um tempo novo”, nomeadamente em termos de política de defesa e de segurança. “A Nato é que não está adequada ao tempo em que vivemos”, disse. O tom face à Europa foi mais crítico do que o tom europeísta de Passos Coelho, mas nem assim Santana deixou passar a mensagem de discórdia. “Podemos não concordar em tudo, eu sou mais cético nas questões europeias, mas não é por isso que deixo de apoiar”, disse. E continuou, incondicional: “Podemos gostar de voar sozinhos mas temos de saber sempre qual é o grupo a que pertencemos”.

Afinal, a homenagem a Cavaco veio de Santana

Era o homenageado que ninguém ousava homenagear. Ao segundo dia de congresso poucas tinham sido as referências a Cavaco Silva, o ex-líder do partido e ex-Presidente da República que pôs agora fim a 30 anos de vida política ativa. “Com ética devemos também uma palavra de agradecimento a Aníbal Cavaco Silva”, disse, depois de recordar o congresso de há dois anos em que Marcelo Rebelo de Sousa irrompeu pela sala e “começou a espalhar afetos”. A plateia levantou-se em peso para aplaudir a homenagem.

No final, e depois de muitos aplausos, uma palavra ainda sobre as autárquicas de 2017, que se tornou o ponto-chave do congresso. Muita tinta tem corrido sobre uma eventual candidatura de Santana Lopes à câmara de Lisboa, mas o presidente da Santa Casa da Misericórdia não se descoseu: “Keep cool, tenhamos calma, cada coisa a seu tempo”.