Mais de 40 milhões de pessoas precisam atualmente de assistência humanitária na África Austral devido à seca e a situação pode agravar-se já em julho, quando for concluída uma nova avaliação no terreno, alertam agências internacionais. Em Angola, cerca de 1,25 milhões de pessoas enfrentam atualmente o risco de insegurança alimentar, um aumento de 65,8% face ao ano passado, e deverão continuar a aumentar, revelam estimativas regionais.

“Os números são altos, são reais e poderão ser mais altos quando terminarmos a avaliação no final de julho”, disse à Lusa o representante do Programa Alimentar Mundial (PAM) em Moçambique, Abdoulaye Balde. A sub-região vive atualmente a pior seca dos últimos 35 anos devido ao fenómeno climático El Niño.

Segundo as últimas estimativas da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), reveladas a 15 de junho, 41,4 milhões de pessoas, ou seja 23% dos 181 milhões de habitantes das zonas rurais da região, estão em situação de insegurança alimentar e, destes, mais de 21 milhões precisam de assistência humanitária urgente.

O mesmo documento revela que quase 2,7 milhões de crianças sofrem já de malnutrição severa aguda, número que se prevê que aumente significativamente se não for prestado apoio imediato às populações mais vulneráveis, e que 11 dos seus 15 Estados-membros foram severamente afetados.

“A situação é severa, particularmente em países como o Zimbabué, Malaui ou Moçambique, onde vemos grandes aumentos do número de pessoas em insegurança alimentar”, disse à Lusa Johnathan Pound, da Organização para a Alimentação e a Agricultura (FAO). A situação não deverá melhorar antes das colheitas da próxima campanha, em abril de 2017.

A SADC, os países afetados e agências das Nações Unidas como a FAO, o PAM e a Unicef criaram uma equipa de resposta a esta crise alimentar. O problema, reconhecem responsáveis destas agências contactados pela Lusa, é a falta de financiamento. A diretora da SADC para a Alimentação, Agricultura e Recursos Naturais, Margaret Nyirenda, apelou este mês aos parceiros e doadores para que atuem rapidamente para evitar um agravamento da situação. Só a FAO precisa de 232 milhões de dólares para fazer face às necessidades mais urgentes nos países mais vulneráveis e ainda não conseguiu reunir esses recursos, exemplificou Hélder Muteia, representante da FAO em Lisboa.

Um segundo ano consecutivo de seca deixou a região com um défice de 9,6 milhões de toneladas na produção de cereais. Apenas 72% das necessidades de cereais da África austral estão disponíveis, segundo a SADC. Mesmo a África do Sul, habitualmente grande produtora e fornecedora para os restantes países da sub-região, já anunciou que precisa de importar quatro a cinco milhões de toneladas de cereais para alimentar a sua população. “Não é uma fome sazonal, é toda uma região que não tem qualquer zona com excedente”, disse Balde.

Com 1,25 milhões em risco de insegurança alimentar em Angola

No capítulo dedicado a Angola, os autores escrevem que as perdas nas colheitas deverão atingir os 75% em partes do sul do país. O número de pessoas em risco de insegurança alimentar aumentou para 1,25 milhões durante a campanha agrícola 2015/16 e as províncias mais afetadas são o Cunene, a Huila, Benguela, o Kwanza Sul, o Namibe e o Cuando Cubango. “Estima-se que os números continuem a aumentar à medida que avançamos em 2016”, pode ler-se no documento, datado de maio.

O texto refere ainda os efeitos de um surto de febre aftosa, que estará a provocar mais mortes entre o gado.

Para responder à crise, o Governo criou uma Comissão Interministerial de Emergência para a Seca, liderada pelo Ministério do Planeamento, e as Nações Unidas estabeleceram uma Equipa de Emergência para coordenar a ajuda humanitária e complementar os esforços do executivo.

Apesar dos números da SADC, fontes das agências das Nações Unidas envolvidas na resposta à seca na África Austral disseram à Lusa que Angola não está entre os países mais afetados. “Sim, há seca em Angola, mas quando listamos os países mais afetados, Angola não aparece no topo”, disse o representante do Programa Alimentar Mundial (PAM) em Moçambique, Abdoulaye Balde.

O responsável admitiu que “talvez Angola seja mais rica do que muitos países e tenha capacidade de enfrentar” o problema ou que “talvez estejam mais dependentes das exportações de ‘commodities’ [petróleo] do que da agricultura”.

O representante da Organização para a Alimentação e a Agricultura (FAO) em Lisboa, Hélder Muteia, disse, por seu lado, que Angola está a responder à crise alimentar: “Angola não está entre os países mais críticos. Mostrou capacidade de resposta, está a trabalhar com as populações, com os organismos internacionais”. Acrescentou que em Angola as chuvas chegaram mais cedo, o que aumentou a capacidade de resposta.

Segundo a SADC, a campanha agrícola de outubro a dezembro de 2015 foi a mais seca dos últimos 35 anos, o que deixou a comunidade numa situação “devastadora (…) que está a afetar negativamente os meios de subsistência e a qualidade de vida na região.

Quatro países – Lesoto, Malaui, Suazilândia e Zimbabué – já declararam emergências nacionais devido à seca, a África do Sul declarou emergência em sete das suas nove províncias e Moçambique declarou um alerta vermelho de 90 dias em algumas zonas do sul e centro do país.