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Guia Michelin de Espanha e (um bocadinho, mas pouco) de Portugal

Este artigo tem mais de 4 anos

Uma reflexão sobre porque é que não se deve levar assim tão a sério o Guia Michelin de Espanha e Portugal, mesmo que o aumento do número de estrelas nacionais seja uma ótima notícia.

O boneco bem pode estar a dizer: "Shhhh, não digam a ninguém mas os critérios de avaliação de restaurantes não são bem iguais entre Portugal e Espanha."
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O boneco bem pode estar a dizer: "Shhhh, não digam a ninguém mas os critérios de avaliação de restaurantes não são bem iguais entre Portugal e Espanha."

© Divulgação

O boneco bem pode estar a dizer: "Shhhh, não digam a ninguém mas os critérios de avaliação de restaurantes não são bem iguais entre Portugal e Espanha."

© Divulgação

Os meios digitais, sejam-no em exclusivo, como o Observador, ou não, são muitas vezes acusados de uma prática designada por clickbait que se traduz, como o próprio nome indica, em arranjar um título que sirva de isco (bait) aos cliques, mesmo que a formulação escolhida seja enganadora e não corresponda total ou parcialmente ao conteúdo da notícia.

Ora, o rumor de que Portugal ia duplicar as suas estrelas Michelin para 2017, desmentido, entretanto e por larga margem, pela realidade dos factos (tinha 17 passou a 26) foi isso mesmo, clickbait. Problema: não foi engendrado por nenhum jornalista/blogger faminto de cliques, antes pelo diretor de relações exteriores do Guia Michelin para Espanha e Portugal, Ángel Pardo. Portugal não duplicou as estrelas mas quintuplicou o número de jornalistas presentes na gala de apresentação do Guia em virtude dessa possibilidade. Consequentemente, também quintuplicou o tempo e espaço de cobertura dado à gala nos meios portugueses.

A afirmação até pode ter sido feita inocentemente, num arredondamento infeliz e precipitado, como alguém que especula que “a Maria vai ser aumentada e passar a ganhar dobro” quando, na verdade, nem sequer sabe qual é o salário atual da Maria. É possível que Pardo desconhecesse ou tivesse presente, como terá alegado, quantas estrelas havia ao certo do lado de lá (ou seja, de cá) da fronteira.

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A única secção em que Portugal ganha a Espanha no Guia Michelin é no número de caracteres que ocupa na capa. (foto: © Tiago Pais)

Mas isso só reforça outra evidência: Portugal é uma espécie de acessório oficial da grande celebração da gastronomia espanhola que é a apresentação do Guia Michelin (eles dizem ‘mirrélin’, o que tem alguma graça). Faz lembrar aqueles casais de namorados que, tendo filhos em concubinato, decidem casar e batizar as crianças na mesma data. O batizado pode até ser um momento bonito. Mas a festa a sério, convenhamos, será sempre o casamento.

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(Estendendo ligeiramente a analogia é como se Pardo tivesse dito: “Atenção que este ano o batizado vai incluir rodízio e bar aberto.” Sendo que depois se percebe que só dá duas cervejas e uma fatia de picanha a cada um.)

É verdade que Mayte Carreño, diretora comercial do Guia, esforçou-se por parabenizar, e em português, o ano recorde de estrelas nacionais, logo a abrir a cerimónia. Ficou-lhe bem. Mas essa menção a Portugal rapidamente ficou esquecida no meio dos vários discursos que se lhe seguiram, todos eles dedicados a celebrar, lá está, a excelência da gastronomia espanhola.

É natural e saudável que a celebrem: a gastronomia é das melhores coisas que Espanha deu — e dá — ao mundo. E atenção, estamos a falar do país onde se inventou, entre outros, a esfregona, o chupa chupa, os matraquilhos e a anestesia epidural. Mas teria sido mesmo necessário, a determinado orador, pôr Portugal e o México (país convidado para esta apresentação) no mesmo saco?

Falemos de números

A Michelin, tanto no que respeita ao negócio dos pneus como no dos guias de viagem, é uma empresa privada, que pode fazer o que bem entender, desde que dentro da lei. Assim, se quisesse dedicar-se exclusivamente ao território espanhol podia fazê-lo. Mas não: opta por editar um guia ibérico, mesmo que o retorno que receba com este produto se concentre sobretudo em Espanha, país cerca de seis vezes maior que Portugal, onde o mercado consumidor destes guias é muito significativo e onde a chancela Michelin tem um reconhecimento maior e mais decisivo na escolha dos clientes do que em Portugal. Ou seja, é compreensível existir um desequilíbrio na balança das estrelas atribuídas a cada ano. Mas a este ponto? Em 2016? Com todos os projetos de qualidade que surgiram e continuam a surgir em Portugal?

Mesmo que se justifique uma diferença deste calibre, o que será sempre subjetivo, parece que a Michelin faz tudo para que ela seja ainda maior. Só isso explica, por exemplo, que tenha atribuído uma estrela a um restaurante de Madrid (Gaytán) que abriu pouquíssimo tempo antes da data de fecho do Guia, e que, segundo fonte não oficial, terá sido visitado pelos inspetores no dia da inauguração. Muito dificilmente o mesmo aconteceria com um restaurante português — até porque toda a estrutura do guia, inspetores incluídos, é espanhola, logo tem muito maior proximidade com o seu mercado local.

Falemos de gralhas e erros factuais

Novamente: fazer uma edição bilingue, com os textos relativos a Portugal escritos em português, é uma escolha da Michelin. Assim, é confrangedor encontrar inúmeros erros de tradução/factuais logo na primeira vez que se folheia essa parte do Guia. Entre muitos outros descuidos lê-se que o Ocean “sorprende” (e não é o único), o Belcanto fica no Bairro Alto e o Loco “presenta” uma única sala. Já o William é “um restaurante que não ficará desapontado”. Pois não, sendo restaurante é difícil desapontar-se. Já a qualquer leitor será facílimo ficar desapontado com o Guia. Isto também é válido para as escolhas fora do universo das estrelas, os chamados Bib Gourmand, em que parece que ninguém mexe desde os tempos em que António Guterres usava bigode.

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Henrique Sá Pessoa e Rui Paula recebem, por telefone, felicitações pela conquista da estrela. Ricardo Costa tenta encontrar uma rede wifi disponível mas, tal como os jornalistas presentes, não teve sorte. (foto: © Tiago Pais)

Falemos, finalmente, das estrelas

Apesar de tudo isto, atribuíram-se 26 estrelas a restaurantes portugueses. E não são boas notícias? São ótimas notícias, é uma distinção merecida que levará mais gente às casas que as ganharam. Quererá dizer então que a Michelin acordou, finalmente para Portugal e este texto está repleto de injustiças? Não. Se acordou, só abriu um olho e carregou no snooze. E fê-lo muito mais devido ao boom turístico que o país atravessa e a obriga a olhar para este lado — e que lhe permite, já agora, vender mais uns quantos guias — do que por qualquer outra razão. As estrelas são 26 mas podiam, e deviam, provavelmente, ser muitas mais — isto se os critérios fossem iguais para os dois países e se este fosse, na verdade, um Guia partilhado, como o tentam vender.

Assim, o facto de serem 26 estrelas, mais 9 que no ano passado, diz muito mais sobre a qualidade inquestionável de quem as conquistou do que sobre um real despertar da Michelin para o bom momento da cozinha nacional, a todos os níveis. A Michelin despertou, para já, para Portugal como destino da moda a nível mundial. Se a apresentação do Guia viajar até este lado da fronteira no próximo ano, talvez o paradigma mude um pouco e talvez tenhamos, finalmente, a tão antecipada chuva de estrelas. A este propósito, Ángel Pardo usou as palavras “estamos a tentar, é uma possibilidade”. Será outra vez clickbait?

O jornalista viajou para Girona a convite do Guia Michelin.

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