A indústria de maquilhagem masculina não é nova. Até há pouco tempo, talvez a palavra certa fosse “moderada”. Era uma indústria bastante discreta onde a maioria dos produtos — BB ou CC Creams, bases e corretores — tinha como objetivo melhorar a textura e o tom da pele dos homens. Menaji, Tom Ford, Myego ou Jean Paul Gaultier são algumas das marcas que abraçaram este conceito e criaram, embora pouco faladas, linhas exclusivamente masculinas. Mas a verdade é que há dois ou três anos, poucos eram os homens a assumir o uso deste tipo de produtos: segundo o estudo The State of Men, de 2013, embora 54% dos homens já usasse hidratantes ou cremes de olhos, apenas 9% usava base, 11% bronzer e 10% corretor.

Com o boom das redes sociais e a maior liberdade que daí adveio, 2016 abriu as portas a uma nova era sem género onde a expressão através das cores chegou ao universo masculino. A gigante da maquilhagem CoverGirl, com 58 anos de história, acabou de anunciar o seu primeiro embaixador masculino (ou, neste caso, coverboy). James Charles, de 17 anos, um milhão de seguidores no Instagram e 375 mil no Youtube, vai juntar-se a nomes como Tyra Banks, Katy Perry, Rihanna ou Taylor Swift, todas representantes da marca no passado.

Uma nova geração de rapazes

“Sou um rapaz na maquilhagem, não sou transexual nem drag queen. Apenas gosto da arte da maquilhagem”, disse Alan Macias à revista Marie Claire. Conhecido pelos seus vídeos e fotografias inspiradoras de beleza, a sua conta de instagram já vai com 375 mil seguidores e Alan faz parte de uma nova geração que está mudar as barreiras da sociedade — um movimento de maquilhagem sem género que surgiu graças ao nascimento destas novas estrelas digitais que chegam a milhões de seguidores, tanto homens como mulheres, que se identificam com eles. E poderá um homem influenciar uma mulher (ou outro homem) a comprar maquilhagem? A pergunta certa é: e porque não?

Patrick Simondac e Manny Gutierrez são dois dos nomes mais influentes neste movimento. Ambos contam com mais de quatro milhões de seguidores (Instagram e Youtube em conjunto) e são vozes poderosas na afirmação da liberdade e individualidade através da maquilhagem. Patrick tornou-se um dos embaixadores da marca de vernizes Formula X e é um orador frequente em convenções de beleza pelo mundo, juntamente com Manny. Se houver uma forma de medir a influência de uma pessoa para lá dos likes e das vendas que gera, a influência de Patrick e Manny — já quase nos 30 anos — é, sem dúvida, a abertura de portas a uma nova geração de jovens rapazes.

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“Homens na maquilhagem nunca foi visto como normal, especialmente há alguns anos. Nada disto era tão aberto como hoje e é realmente gratificante ver todos estes novos rapazes a fazer maquilhagem” disse Manny à revista Marie Claire.

Boys

Da esquerda para a direita, Manny Gutierrez, James Charles e Patrick Simondac (fotografias retiradas das suas contas de instagram).

Gostar de maquilhagem significa ser-se transexual?

No final de 2015, o jornal britânico The Telegraph afirmava (e previa) que a maquilhagem para homens iria ser uma das grandes tendências para 2016. Na altura, Jake-Jamie Ward, um jovem youtuber britânico, declarou que “ninguém vende para o público masculino. É por isso que os homens vêm ter comigo e dizem que não sabem por onde começar e questionam-me que produtos devem usar.” À revista Marie Claire, Patrick e Manny confirmaram esta ideia. Patrick trabalhou no corner de beleza da Macy’s e Manny nas lojas MAC e Sephora. Mas, embora fossem aceites profissionalmente como homens a trabalhar com maquilhagem, não eram autorizados a usar nem a exemplificar a maquilhagem neles próprios. À revista Forbes, Manny disse: “A beleza não tem regras. É tudo o que quisermos ser. No final do dia a maquilhagem sai, sejam vocês homens ou mulheres. Porquê discriminar um homem só porque a sociedade diz que não é normal? A maquilhagem é uma forma incrível de expressão artística.”

James Charles, o atual coverboy, falou à revista Marie Claire sobre as dificuldades em explicar à sua família que simplesmente gostava de usar maquilhagem.

Os meus pais começaram a questionar-me se era, ou não, transgénero ou se estava, ou não, a tentar ser uma mulher. Foram precisas grandes discussões e muitas conversas minuciosas para explicar que a maquilhagem é uma forma de arte para mim. Estou confiante enquanto homem e serei sempre um homem. Posso ser confiante tanto com uma pele limpa ou totalmente maquilhada.”

Seis meses depois de ter criado a sua conta de Instagram, James já contava com 200 mil seguidores. Hoje, 15 meses depois, chegou a um milhão. Nunca tentou “imitar” o aspeto da maquilhagem de uma mulher, nem assumir-se como um drag queen digital, mas sim mostrar várias versões de si próprio e destacar as suas feições.

Em Portugal, há (ainda) poucos fenómenos comparáveis. O jovem Kiko foi, talvez, aquele que mais influência ganhou com os seus vídeos polémicos. Incompreendido por uns mas inspirador para outros, soma mais de 100 mil seguidores no Youtube.

Easy, breezy, beautiful… Coverboy

James Charles falou sobre a sua influência nesta nova era, ao ser o primeiro embaixador masculino de uma marca icónica, CoverGirl: “Acho que é importante que as marcas reconheçam a população masculina porque estamos a crescer. Vejo cada vez mais jovens rapazes bonitos a usar maquilhagem todos os dias nas redes sociais… nós gostamos de maquilhagem tanto quanto as mulheres”, afirmou ao site Refinery29.

Nunca o famoso slogan da marca fez tanto sentido como agora. “Easy, breeze, beautiful” — fácil, alegre e bonito — adapta-se a esta nova fase de esperança para uma mudança nas normas sociais. Em 1919, a escritora e ativista pelos direitos das mulheres Luisa Capetillo foi presa por usar, pela primeira vez, algo proibido às mulheres: calças em público. Mas viria a dar um passo para a liberalização de uma norma na altura autorizada apenas aos homens.

2016 poderá vir a ser o ano em que, pela primeira vez, a maquilhagem atinge uma nova era, abrindo portas a um universo de beleza sem género.

Na fotogaleria, em cima, mostramos algumas destas estrelas digitais que usam a maquilhagem como forma de expressão, de arte, de individualidade e auto-estima.