O Santander comprou o Banco Popular, por um euro, depois do ultimato de Bruxelas e para travar a desvalorização bolsista do banco que já dura há sete dias. A transferência foi comunicada pelo Mecanismo Único de Regulação e transforma assim o grupo Santander num líder absoluto do mercado financeiro espanhol. A rede do Popular em Portugal, que conta com cerca de mil trabalhadores, também passa a estar sob a alçada do Santander, que reforça a presença no mercado português.

O banco espanhol será assim integrado no grupo Santander, não estando prevista para já qualquer alteração na atividade ou operações, pelo menos enquanto os termos da integração não estiverem totalmente fechados. A negociação das ações em bolsa foi entretanto suspensa. Em Portugal, o banco liderado por António Vieira Monteiro conta com pouco mais de 6.200 trabalhadores e, de acordo com as estimativas avançadas pelo próprio Santander, passa a deter uma quota de mercado de cerca de 17%.

O grupo Santander, em comunicado enviado ao início da manhã desta quarta-feira, confirma a operação após a qual, adiantam, se tornam “no maior banco em Espanha e o Banco Santander Totta no maior banco privado em Portugal em ativos e no apoio às empresas e às famílias portuguesas”, informaram. A transferência envolve mais de 21 milhões de clientes nos dois países, confirma a instituição financeira.

O Banco de Portugal também já reagiu à medida de resolução aplicada ao banco espanhol. “A filial portuguesa do Banco Popular Español – o Banco Popular Portugal, S.A. – não foi objeto de qualquer medida de resolução e está incluída no perímetro de venda, pelo que passa a integrar o grupo do Banco Santander”, esclarece, em comunicado, a entidade de supervisão liderada por Carlos Costa.

Para o Banco Popular Portugal, esta medida não implica qualquer alteração na atividade do banco português, que continua a operar com total normalidade, agora integrado num novo grupo bancário. Esta solução não contempla financiamento por parte de organismos nacionais e protege as poupanças confiadas ao Banco Popular Portugal, assegura a continuidade dos serviços prestados em Portugal e do financiamento à economia”, adiantam. “A solução preserva, por isso, a estabilidade do Banco Popular Portugal e contribui para a salvaguarda da estabilidade do sistema financeiro português.”

Para executar este negócio, o Santander irá aprovar um aumento de capital de sete mil milhões de euros, que garantirão o capital e as provisões necessários para que o Banco Popular possa manter a sua atividade regular.

Intervenção de Bruxelas para evitar queda

A comissão criada para gerir a reestruturação do Popular executou assim a decisão de venda tomada pelo Mecanismo Único de Regulação – uma decisão inédita, dado que é a primeira vez que Bruxelas faz uma intervenção desta natureza no sistema financeiro.

Isto depois de o próprio Banco Central Europeu (BCE) ter declarado a inviabilidade do Popular nas atuais condições, com a instituição a enfrentar os problemas decorrentes de uma carteira de crédito com 37 mil milhões de euros em ativos “tóxicos” gerados por empréstimos ao setor imobiliário. A operação vai concretizar-se sem comprometer recursos públicos nem afetar qualquer depósito ou investimento de clientes. Em contrapartida, o Banco Santander compromete-se a adotar as medidas que sejam necessárias para garantir a continuidade das operações do Popular, bem como a garantir a liquidez que viabilize a sua atividade.

Os últimos termos do acordo foram negociados durante a última noite e, de acordo com a informação confirmada já na manhã desta quarta-feira, só ficaram fechados de madrugada. A integração do Popular no Santander é imediata. O banco liderado por Ana Botín passa assim a controlar 100% do banco que enfrentava complicações financeiras há já algum tempo. Foi o próprio BCE que desencadeou o processo de venda, depois de declarar a inviabilidade do banco e de determinar a necessidade de intervenção para salvar uma instituição financeira com algum peso no sistema financeiro ibérico.

Fortes necessidades de liquidez na origem da resolução

A forte escassez de liquidez do Banco Popular foi o fator determinante para a resolução que fez a instituição transitar para a órbita do Santander, explicou Elke Koenig, líder do Conselho Único de Resolução. Em declarações efetuadas nesta quarta-feira, Koenig revelou não haver outra saída para garantir o interesse público e evitar a liquidação do Popular no âmbito de um processo de insolvência.

Devido ao grave problema de liquidez, que ameaçava a capacidade do Banco Popular para cumprir compromissos correntes na sua operação, havia escasso tempo para encontrar uma solução, adiantou Elke Koenig e a venda ao Santander foi concretizada num prazo “desafiador e apertado”. A proposta da instituição liderada por Ana Botín foi a “melhor” para garantir os objetivos de assegurar a estabilidade financeira e que as agências do Popular poderiam abrir, nesta quarta-feira, e atuar dentro da normalidade. A rede da instituição alvo de resolução está, hoje, a operar sem alterações em Espanha e em Portugal.

Em 2016, o Banco Popular registou resultados negativos de 3,58 mil milhões de euros. Este prejuízo foi justificado com a constituição de provisões, durante o exercício em causa, num valor próximo de 5,7 mil milhões de euros, destinadas a assegurar a cobertura de perdas na carteira de crédito.

(notícia atualizada às 12h10 com as declarações de Elke Koenig e a retificação do número de colaboradores nos dois bancos em Portugal)