A filha de Sergei Skripal, o ex-espião russo alvo de uma tentativa de homicídio em Wiltshire, Reino Unido, encontra-se internada em estado crítico num hospital da região. Yulia Skripal, de 33 anos, passeava com o pai num centro comercial da cidade e terá sido exposta à mesma substância tóxica que comprometeu a vida do ex-espião, um agente de nervoso — trata-se de um composto químico que afeta o sistema nervoso.

Recorde-se que Sergei Srkipal foi encontrado inconsciente num banco de um centro comercial. Ao seu lado tinha uma mulher, encontrada, igualmente, sem sentidos. Depois de um período de alguma indefinição, sabe-se agora que se tratava, na verdade, da filha do ex-espião russo, que estava em Wiltshire para visitar o pai, de 66 anos. Ambos estão em estado muito crítico. Segundo o departamento de contraterrorismo britânico, Sergei e a filha foram envenenados por esta substância usada como arma química.

Segundo o The Telegraph, o primeiro polícia a chegar ao local onde foram encontrados Sergei e Yulia Srkipal também está hospitalizado, uma das razões que levam as autoridades a tratar o caso como “tentativa de homicídio por um agente nervoso”.

O russo Sergei Srkipal fez contra-espionagem ao serviço do Reino Unido, vendendo vários segredos do regime moscovita ao MI6 (a agência de serviços secretos britânica). Entre a informação vendida estava a identidade de outros espiões russos que operavam em território europeu. Em 2006, acabou por ser descoberto e condenado a 13 anos de prisão por “alta traição na forma de espionagem”. Conseguiria asilo no Reino Unido, no âmbito de um acordo de troca de espiões entre russos e norte-americanos, o maior desde a Guerra Fria.

Permanecem por apurar muitos detalhes sobre o método e as motivações do atentado de domingo. De acordo com a imprensa britânica, Yulia é uma das últimas familiares vivas de Sergei Skripal. A mulher do ex-espião morreu em 2012, aos 59 anos, vítima de um carcinoma. Anos depois, em 2017, o filho acabou por não resistir a uma doença no fígado. As autoridades britânicas não descartam a hipótese de o ataque ter sido organizado por agentes ao serviço da Rússia, cujo plano terá sido, desde o início, eliminar também Yulia Skripal.

Os meios de comunicação social britânicos têm vindo a recuperar com insistência declarações atribuídas ao Presidente russo, Vladimir Putin, que terá ameaçado de morte todos os “traidores” que venderam segredos russos a outras potências.

O caso está a ser acompanhado ao mais alto nível pelo Governo britânico, com o ministro dos Negócios Estrangeiros, Boris Johnson, a ameaçar Moscovo com uma resposta “robusta” se for descoberto qualquer envolvimento de agentes russos no envenenamento de Sergei e Yulia Skripal. Moscovo já veio garantir que não teve qualquer papel no caso e prometeu colaborar com as autoridades britânicas.

Entretanto, a polícia britânica colocou a circular uma imagem captada pelas câmaras de videovigilância que pode ajudar a revelar a identidade dos presumíveis autores do atentado. A investigação, no entanto, ainda está numa fase muito prematura.

O caso Litvinenko e as outras mortes russas no Reino Unido

A tentativa de assassínio por envenenamento de Sergei Skripal é apenas mais um caso de histórias de espionagem que levaram a assassínios de agentes secretos russos em solo britânico. O mais conhecido destes casos é a história de Alexander Litvinenko.  Em 2006, dois agentes secretos russos envenenaram com polónio-210 em Londres o antigo agente secreto que estava exilado em Londres.

O efeito do veneno levou a que Litvinenko tivesse uma morte lenta ao longo de várias semanas. Antes de morrer ainda disse: “Podem ser bem sucedidos em silenciar um homem, mas, senhor Putin, os uivos de protestos vão soar nos seus ouvidos para o resto da sua vida”.

Litvinenko esteve, até 1999, ao serviço do KGB (os serviços secretos russos). Foi por ter acusado a Rússia de centenas de mortes que foi acusado de revelar segredos de Estado que levaram a que começasse a trabalhar com o MI6 em 2000, tendo recebido asilo pelo governo britânico.

Outra das mortes em solo britânico foi a de Boris Berezovsky. Em 2013, aos 67 anos, o oligarca russo, como lhe apelida a CNN, foi encontrado morto na sua casa em Berkshire.

Berezovsky estava também exilado no Reino Unido desde 2000. Após a eleição de Putin pediu asilo ao governo britânico onde instigou as os governantes britânicos a não apoiarem o líder russo. Berezovsky abertamente acusou o Kremlin de matar Litvinenko.

Mais uma morte por envenenamento de um russo em Londres foi a de Alexander Perepilichnyy. Em 2012, com 44 anos, teve uma morte súbita que se acredita que tenha sido por envenenamento. O empresário russo estava a ajudar o governo britânico a descobrir um alegado esquema de lavagem de dinheiro na Rússia que envolvia o executivo moscovita.

Cinco dados sobre o gás VX

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  1. É um líquido incolor e sem cheiro e o mais potente agente químico conhecido.
  2. Criado nos EUA na década de 1950, é um veneno discreto usado em guerras químicas. É ainda mais letal do que o gás sarin, estando mesmo classificado pela ONU como um químico usado como arma de destruição maciça.
  3. Depois de borrifado ou lançado em spray, o gás VX é absorvido por inalação, ingestão ou simples contacto com as mucosas, atacando depois o sistema nervoso central e a pele.
  4. Em doses reduzidas, provoca irritações e dores nos olhos, visão turva, tonturas e náuseas. Já a exposição a uma concentração maior do gás pode matar em poucos minutos.
  5. O VX pode disseminar-se em spray ou vapor, mas também contaminar água ou produtos alimentares. Se for aplicado numa peça de roupa, fica ativo durante cerca de 30 minutos, podendo afetar outras pessoas.

Em 2017, Kim Jong-Nam, irmão de Kim Jong-un, o líder supremo da Coreia do Norte, foi também morto por agente de nervoso. Neste caso, o irmão do ditador foi assassinado com VX, um agente nervoso que pode ser utilizado através de aerossol.