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Mais uma semana de 2018, mais uma polémica com o Facebook. Depois da revelação de que 87 milhões de dados foram utilizados indevidamente pela Cambridge Analytica e que 29 milhões de utilizadores foram vítimas de um ataque informático, agora o problema é uma investigação do TheNew York Times (NYT). Recorrendo a relatos de executivos e colaboradores da empresa, o jornal detalhou como nos últimos dois anos o Facebook tem falhado na resolução das crises em que está envolvido. Numa chamada telefónica com jornalistas, em que o Observador participou, Zuckerberg defendeu-se: “Disse já várias vezes que fomos muito lentos a detetar a interferência russa, mas sugerir que não queríamos saber da verdade ou que escondíamos o que sabíamos, é falso”.

Como a rede não tem conseguido gerir sempre os casos de discurso de ódio na plataforma — por exemplo, o Facebook é utilizado no Myanmar como uma ferramenta para apelar ao genocídio dos Rohingya –, Zuckerberg assumiu: “Estamos a trabalhar com parceiros no terreno para evitar mais riscos. Já pensámos [em desligar o Facebook].”

Houve casos em que considerámos desligar o Facebook. E já o fizemos. São casos em que estamos preocupados com questões de privacidade e segurança. Houve um caso, penso que no início — isto foi à volta de 2010 — quando um programador lançou uma coisa que era um problema de segurança ou privacidade e punha as pessoas em risco. Por isso, desligámos o sistema. Recentemente, fizemos o log out forçado de todas as pessoas que podiam ter sido afetadas por um erro de segurança”, assumiu Zuckerberg.

Em resposta aos jornalistas, Zuckerberg revelou que apenas soube que a consultora de lobbying Definers Public Affairs estava ligada ao Facebook pela notícia do The New York Times. A empresa contratada pela empresa de Zuckerberg publicou artigos contra a Google e a Apple, tecnológicas que têm criticado a atuação da rede social, estaria relacionada com este tipo de notícias falsas, segundo o NYT. “Alguém na nossa equipa de comunicação deve tê-los contratados”, e assumiu que “erros acontecem” em todas as grandes organizações.

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É uma crise de comunicação e confiança que a empresa, que detém, além do Facebook, plataformas como o Instagram e o Whatsapp, tem vindo a combater. Desde Mark Zuckerberg proibir o uso de iPhones na sua equipa depois de Tim Cook, presidente executivo da Apple, começar a criticar o Facebook, até à empresa ter pactuado com um grupo de imprensa falsa para combater as críticas de que tem sido alvo, tudo é revelado nesta investigação. Quanto a estes assuntos, a empresa defendeu-se esta manhã dizendo que investigou “desde o primeiro dia a atividade russa nas eleições, desde o primeiro dia”, tanto Zuckerberg como Sheryl Sandberg, os nomes mais relevantes da rede social, “estão profundamente comprometidos [em resolver estes assuntos]”.

Na hora e meia de conferência telefónica com jornalistas, em que participou Mark Zuckerberg, Guy Rosen, vice-presidente no Facebook, e Monika Bickert, responsável global de gestão de políticas da rede social, foram apresentadas as medidas como a empresa vai continuar a atacar a “interferência governamental” não desejada. “A nossa filosofia é dar às pessoas poder”, afirmou o fundador do Facebook, assumindo que “quando as entidades que fazem triagem de informação [gatekeepers], como governos e empresas de media, não controlam que ideias podem ser expressas” o “mundo é melhor”.

Em resposta direta ao Observador, o presidente executivo da rede social afirmou que, tendo afirmado que não sabia tudo o que o New York Times publicou, “quando se gere uma empresa que tem dezenas de milhares de funcionários vão existir pessoas a publicar coisas que não são boas”. O fundador da rede social continuou: “Não é possível saber o que cada pessoa está a fazer, mas tenho muita confiança na nossa liderança que está a construir boas equipas e, quando os problemas surgem, lidamos com eles (…) Esse é o meu compromisso”.

Depois da notícia do New York Times, vários acionistas questionaram se Zuckerberg deve ou não continuar na liderança da empresa nos moldes atuais.

Zuckerberg proibiu executivos do Facebook de utilizar iPhones

Zuckerberg aproveitou esta conferência telefónica para apresentar várias medidas para “aumentar a transparência” da rede social que também partilhou no seu perfil do Facebook. Numa extensa publicação, afirma que a empresa vai passar a ter um sistema mais transparente sobre como bloqueia ou não partilhas feitas na plataforma — tendo até uma espécie de ‘supremo tribunal’ do Facebook –, e que vai aumentar a equipa de pessoas que fazem a triagem de conteúdos proibidos. “Uma das minhas maiores lições este ano é que, quando conectas mais de dois mil milhões de pessoas, vais ver todo o bem e mal da humanidade”, afirmou. “Nos últimos dois anos reforçámos os nossos sistemas e ainda temos muito a fazer, mas fizemos um grande progresso”, disse em resposta às afirmações do NYT.

O Facebook vai criar um ‘tribunal’ próprio para os utilizadores pedirem recurso quanto a posts retirados

Quanto a ser acusado de ter feito campanha contra o magnata George Soros, o presidente executivo do Facebook afirmou: “Tenho um tremendo respeito por George Soros, mesmo que discordemos sobre o impacto e importância da Internet. O que importa aqui é: mal soube isto [que o Facebook tinha contratado uma consultora de lobbying ligada a Fake News], falei com a nossa equipa e já não estamos a trabalhar com eles”.

Facebook acusado de estar envolvido numa campanha contra George Soros