A revista alemã Der Spiegel revelou esta sexta-feira novos documentos relativos à acusação de violação de que Cristiano Ronaldo é alvo. A revista, que revelou o caso e que o tem estado a investigar em conjunto com o Football Leaks, traz novos dossiês que apontam para contradições nas versões do jogador português.

De acordo com a Der Spiegel, há e-mails que comprovam que os advogados do jogador lhe fizeram um questionário para perceber o que terá de facto acontecido na noite em causa, no verão de 2009 em Las Vegas. Nesse questionário, Ronaldo terá inicialmente reconhecido que Kathry Mayorga pediu várias vezes para interromper a relação sexual.

No entanto, as respostas do jogador foram depois tratadas pela vasta equipa de advogados que acompanhou o caso. O questionário continha 41 páginas e foi elaborado pela Lavely & Singers, uma sociedade de advogados de Los Angeles. As respostas seguiram depois para Londres, onde se encontrava outro advogado do internacional português. Daí, o documento terá sido entregue a Carlos Osório de Castro, o representante do avançado em Portugal, que terá polido as respostas, alterando a retórica inicial. Esta versão final terá chegado aos restantes advogados da equipa para que nenhum dos representantes de Ronaldo errasse quando questionado sobre o interrogatório. Na última versão, a oficial, as respostas do jogador negam que Mayorga tenha alguma vez pedido para parar.

Der Spiegel teve acesso a esta troca de correspondência e publicou a primeira e a última versão do questionário, contraditórias entre si. Senão veja-se os exemplos. No primeiro interrogatório, à pergunta “A Ms. C [nome de código para Mayorga] chegou a levantar a voz ou a gritar?” Cristiano Ronaldo terá respondido que a professora “disse ‘não’ e pediu para parar várias vezes”. Na versão final, já com as respostas devidamente trabalhadas, a resposta é alterada para um contundente e simples “não”.

Mas esta não é a única contradição entre a versão inicial e a final. Numa outra pergunta, que decorria de uma afirmação da própria Kathryn Mayorga, que disse à sua equipa de advogados que Cristiano Ronaldo tinha pedido desculpa no fim do ato, os representantes do jogador português procuram saber se as alegações da professora eram ou não verdadeiras. “A Miss C. disse alguma coisa depois da interação sexual – como por exemplo, que tinha gostado do sexo, que tinha tido um orgasmo -, ou disse algo negativo – que estava chateada, que não queria ter tido sexo, que tinha pedido para interromper, que tinha tentado resistir ou algo do género?”, questionaram os advogados do jogador.

A resposta difere entre as duas versões do documento. “No final ela disse: ‘Seu parvo, porque é que forçaste? Seu estúpido. Não sou igual às outras’. Eu disse ‘desculpa lá'”, respondeu inicialmente Ronaldo. Na última versão a resposta de Ronaldo volta a ser simplesmente “não”, alterando substancialmente a versão dos factos.

Além das duas versões do documento, a Der Spiegel revelou ainda excertos das conversas entre os advogados do jogador da Juventus. Num dos diálogos, e sem o questionário em anexo, o advogado Paulo Rendeiro explica que o documento não poderá sair daquele circuito fechado. “For our eyes only“, avisa.

A conversa entre os representantes de Cristiano Ronaldo pode também servir como prova de que houve várias versões do questionário. Numa das trocas de correspondência, o advogado Francisco Cortez pergunta se Osório de Castro iria traduzir o documento de português para inglês. “Não é suposto”, respondeu. É neste momento que Rendeiro envia um e-mail a lembrar que o questionário – “o documento” – é apenas para consumo interno. Francisco Cortez aceita mas, na resposta, utiliza expressões que estavam presentes nas explicações iniciais de Ronaldo, criando assim a ligação que faltava entre a conversa – que até àquele momento podia ser inócua – e o questionário. “Ok. Só queria saber como traduzia expressões como ‘bola de cuspo’ e ‘toca-me ao bicho'”, terá dito o representante do jogador.

O caso foi divulgado pela revista alemã Der Spiegel a 28 de setembro, quando Kathryn Mayorga falou pela primeira vez publicamente sobre a acusação. Em 2009, o caso ficou encerrado depois de ambas as partes terem assinado um acordo de confidencialidade, tendo o jogador pagado cerca de 325.000 euros a Mayorga.

Kathryn Mayorga, agora com 34 anos, voltou a apresentar queixa contra o internacional português em Las Vegas, acusando o jogador de, em 2009, a ter violado num hotel de Las Vegas, forçando-a a ter sexo anal. Cristiano Ronaldo negou sempre que a relação sexual não tenha sido consentida. O caso foi reaberto pela polícia do estado do Nevada e encontra-se em investigação.