Elizabeth Holmes ia revolucionar a indústria da saúde com uma startup que, com apenas uma gota de sangue, prometia análises a 30 doenças. A Theranos chegou a ter uma avaliação de nove mil milhões de dólares (8,5 mil milhões de euros) e Holmes era considerada a próxima Steve Jobs ou Mark Zuckerberg. Contudo, a promessa era uma mentira. Sobre o caso, houve notícias, livros de sucesso (John Carreyrou foi o jornalista que revelou o escândalo e que depois escreveu Bad Blood) e, agora, foi estreado na cadeia televisiva americana ABC um documentário com mais informação sobre o falhanço da “menina querida das startups”.

O documentário não pode ser visto em Portugal mas a ABC produziu, ao mesmo tempo, um podcast de seis episódios, com o mesmo título. Este podcast está disponível para download em Portugal, em plataformas como o iTunes. Também pode ser ouvido em streaming aqui.

“Não tenho treino médico (…), mas as pessoas à volta de Elizabeth Holmes usam a palavra ‘sociopata'”, conta em entrevista ao TechCrunch Rebecca Jarvis, jornalista da ABC News responsável pelo documentário de seis episódios “The Dropout” e que esteve três anos a fazer esta investigação. O nome da série é uma alusão a “desistente” e “pessoa que abandona os estudos”, em português, por Holmes ter abandonado a prestigiada universidade de Stanford.

[Veja uma apresentação de “The Dropout”:]

“A maior parte das coisas que vimos publicamente foram declarações oficiais ou comentários controlados, nunca se viu a tecnologia [que Holmes prometia]”, conta Jarvis a propósito dos depoimentos que recolheu sobre a antiga empreendedora no âmbito de acusação de fraude que ainda está a decorrer contra a própria. Segundo a jornalista, a tecnologia de análises de sangue nunca foi aquilo que Holmes prometeu e a empreendedora, que sempre se declarou inocente, já o afirmou.

O documentário também aborda a relação amorosa de Holmes com o vice-presidente da Theranos, Ramesh Balwani, que participou juntamente com a namorada numa “elaborada e longa fraude com a qual captaram mais de 700 milhões de dólares a investidores, graças a declarações falsas que prestaram sobre a tecnologia, os negócios e o desempenho financeiro da empresa”, como referiu a Securities and Exchange Commission (SEC, equivalente à CMVM portuguesa) na acusação feita em maio último.

[Veja um excerto de “The Dropout”:]

Jarvis afirma que o “shutdown” do governo tem afetado a investigação porque, com a atual situação da administração pública americana, o ministério público americano não conseguir obter todos os documentos com a rapidez desejada. Em causa não está só um caso de fraude, mas uma história que causou o suicídio de Ian Gibbons, o antigo cientista chefe da empresa, afirma nesta investigação a mulher, Rochelle Gibbons. As principais críticas de que Holmes e Balwani são alvo surgem pela alegada forma como ambos pressionavam os funcionários da empresa para não falarem dos problemas da Theranos.

No fim, Jarvis quer passar a mensagem de como uma “jovem estudante com nem dois anos de faculdade” desistiu dos estudos e conseguiu arrecadar milhões de dólares de investidores com um produto que não era o que dizia ser. Em 2014, tinha Holmes 30 anos, foi a mulher mais jovem de sempre na lista dos mais ricos na Forbes americana.