Em Espanha, será debate dia sim, dia sim. Depois de várias falsas partidas e fugas para a frente, a campanha para as eleições gerais espanholas vai ter aquilo que nunca tinha acontecido na história da sua Democracia: dois debates em apenas dois dias.

O primeiro está agendado para esta segunda-feira entre as 22h00 e as 23h50 locais (21h00 e 22h50 de Lisboa) e será transmitido em direto na TVE e RNE, a televisão e rádio da rede pública RTVE, respetivamente. O segundo acontecerá esta terça-feira entre as 22h00 e as 00h00 locais (21h00 e 23h00 de Lisboa) e terá transmissão nos canais La Sexta e Antena 3, ambos do grupo privado Atresmedia.

O mais certo é que os debates marquem um momento determinante nesta campanha ímpar na política espanhola, já que é a primeira vez que, de acordo com o que as sondagens apontam, deverá ter cinco partidos com mais do que 10% dos votos.

De acordo as sondagens, o PSOE deverá sair vencedor destacado das eleições, mas aquém de uma maioria absoluta — passando a precisar do Unidas Podemos (de Pablo Iglesias) e dos independentistas catalães para governar. Do outro lado, o bloco da direita parece mais longe da maioria que as primeiras sondagens que lhe chegaram a prever — mas o cenário em que Partido Popular (PP), Ciudadanos e Vox consigam replicar no governo central a aliança que fizeram no governo regional da Andaluzia não está totalmente afastada. Tudo isto porque, de acordo com a sondagem do 40dB para o El País publicada este domingo, 38% dos eleitores ainda estão indecisos.

Desta forma, cada um dos quatro candidatos que vão estar presentes no debate — Pedro Sánchez (PSOE), Pablo Casado (PP), Pablo Iglesias (Unidas Podemos) e Albert Rivera (Ciudadanos) — vão a debate com estratégias distintas para conseguir tirar o máximo partido desta espécie de final a duas mãos.

Pedro Sánchez vai evitar ataques contra o Podemos, quer investir contra o PP e vai defender-se a falar do que lhe interessa: salários e pensões (Chema Moya/EPA)

De acordo com o que fontes do PSOE disseram ao El País, Pedro Sánchez vai procurar centrar os seus ataques em Pablo Casado, sem no entanto se esquecer também de insistir contra Albert Rivera. Ao mesmo tempo, o líder socialista deverá poupar Pablo Iglesias, já que, depois de domingo, irá certamente necessitar do seu apoio para levar avante qualquer ambição de formar um governo. Ao El Mundo, fontes do PSOE disseram ainda que Pedro Sánchez procurará responder aos ataques com um sorriso na cara. Além disso, vai querer contra-atacar com menções às pensões e ao salário mínimo (que o governo socialista aumentou) e também ao aborto e à eutanásia, assuntos no qual o PP pegou ao longo da campanha com aparente prejuízo.

Pablo Casado abdicou de dois bilhetes para uma tourada em Sevilha para poder preparar o debate. Vai concentrar-se nos ataques ao PSOE (CESAR MANSO/AFP/Getty Images)

Pablo Casado, do PP, tem estado ausente dos holofotes desde domingo para preparar este debate — o líder conservador tinha até bilhetes para ir a uma tourada em Sevilha, mas acabou por não ir de modo a preparar-se melhor para os dois embates. Segundo o El País, o líder do PP vai concentrar as suas investidas no seu adversário socialista, tido como um “adversário comum” dele e do Ciudadanos. Ainda de acordo com aquele jornal, Pablo Casado procurará atribuir a Pedro Sánchez a imagem de um político que, para chegar ao poder, está disposto a aliar-se com independentistas, comunistas e defensores dos terroristas da ETA.

Pablo Iglesias vai procurar ter uma garantia de Pedro Sánchez de que este não se prepara para fazer um pacto com o Ciudadanos (Pablo Blazquez Dominguez/Getty Images)

Do lado do Unidas Podemos (o nome da coligação Unidos Podemos, firmada entre a Esquerda Unida e o Podemos em 2016, foi agora alterado para a sua versão feminina) Pablo Iglesias e os seus aliados estarão confiante na sua prestação. “É o momento dele, sai-se muito bem [nos debates]”, disseram fontes do partido ao El País. Pablo Iglesias irá insistir junto de Pedro Sánchez sobre a possibilidade de este vir a estender a mão a Albert Rivera, do Ciudadanos, após as eleições. Até agora o líder do Ciudadanos tem rejeitado fazer qualquer tipo de pacto com o PSOE, mas Pedro Sánchez diz estar disposto a negociar com cada um dos quatro partidos que vão ao debate.

Albert Rivera vai contrapor o seu modelo territorial contra o do PSOE, apelando ao unionismo sem exceções (Jeff J Mitchell/Getty Images)

Da parte de Albert Rivera, esta momento, segundo o El Mundo, será encarado como fulcral. “A campanha começa hoje co dois debates-chave e três dias de sprint final para mobilizar os indecisos”, disse uma fonte do Ciudadanos àquele partido. Albert Rivera deverá tentar explorar duas frentes. À sua esquerda, irá tentar defender o a sua noção de “uma nação de [cidadãos] livres e iguais” e contrapô-la com a “Espanha da nação de nações do socialista” Pedro Sánchez. À sua direita, o líder do Ciudadanos procurará puxar dos galões de maior experiência política em relação a Pablo Casado.

Pedro Sánchez disse “sim” e “não” a todos os debates até não ter outro remédio

A solução que levou a que houvesse dois debates em dois dias foi encontrada quase em cima da data. E, até ela ter sido atingida, a política espanhola tornou-se palco de mais uma rocambolesca novela, desta vez com Pedro Sánchez a assumir o papel principal.

Esta é a história de várias recusas e, no final, uma cedência do líder socialista.

A primeira recusa foi a de aceitar um debate frente a frente e a sós com o líder do PP, Pablo Casado — um formato que, desde a Transição para a democracia em 1976, só teve lugar em 1993, 2008, 2011 e 2015. Para o PSOE, o formato desejado seria um único debate a cinco: os quatro principais partidos e também o Vox, que poderá ser a quarta ou quinta potência mais votada nas eleições deste domingo.

Nas eleições gerais de junho de 2016, as mais recentes, o então Presidente de Governo, Mariano Rajoy, também só aceitou participar num debate a quatro (JAVIER SORIANO/AFP/Getty Images)

E, por aceitar apenas um único debate a cinco, Pedro Sánchez e o PSOE deram luz verde ao único grupo mediático que avançou essa proposta: o da Atresmedia, que detém as televisões Antena 3 e La Sexta, para o dia 23 de abril.

Desta forma, o líder socialista chegou a rejeitar a proposta da RTVE, para um debate a quatro, também no dia 23 de abril, por insistir apenas num debate a cinco. A recusa de Pedro Sánchez motivou um comunicado dos três conselhos de redação do grupo público — TVE, RNE e RTVE.ES — onde era dito: “Não entendemos nem aceitamos as razões pelas quais o PSOE e o seu candidato e atual Presidente de Governo, Pedro Sánchez, decide não apostar no serviço público e no pluralismo que a RTVE representa”.

Tudo isto, porém, teria uma reviravolta com a decisão da Junta Eleitoral Central (JEC) de não permitir a realização do debate a cinco, alegando que a presença do Vox seria contrária “ao princípio da proporcionalidade, que deve ser respeitado pelas televisões privadas durante os períodos eleitorais”. A JEC determinou que para o Vox (partido que surge com mais de 10% em todas as sondagens mas que não tem qualquer deputado) participar no debate, também teriam de participar outros partidos mais pequenos mas com representação parlamentar — como a Esquerda Republicana da Catalunha, a Coligação Canária e o Partido Nacionalista Basco, os três partidos responsáveis por fazer chegar esta queixa à JEC.

Ora, com esta decisão, o PSOE travou a fundo e afirmou que, já que o debate não era a quatro, Pedro Sánchez já não iria ao debate da Atresmedia de 23 de abril. E, reagindo a um novo convite da RTVE para um debate a quatro a celebrar naquele mesmo 23 de abril, Pedro Sánchez já disse que sim. Problema: os outros candidatos (Pablo Casado, do PP; Albert Rivera, do Ciudadanos; Pablo Iglesias, do Unidos Podemos), mantiveram a presença no debate de 23 de abril na Atresmedia.

O problema, portanto, passou a ser a data dos dois debates, cada um agendado para a noite de 23 de abril. Se não aparecesse no debate da Atresmedia — e acudisse ao da RTVE —, o grupo de media fez questão de dizer que teria uma cadeira vazia no lugar de Pedro Sánchez. E Pedro Sánchez, por sua vez, poderia ficar sozinho num não-debate na RTVE.

Desta situação, saiu-se então com uma cedência da administração da RTVE, que, para desagrado dos conselhos de redação dos media públicos, mudou a data do seu debate para 22 de abril, para não se sobrepor ao debate de 23 de abril do Atresmedia.

Desta forma, tudo se compôs desta forma singular. Além de Pablo Casado, Albert Rivera e Pablo Iglesias terem aceitado estar presentes também no debate da RTVE, Pedro Sánchez fez por fim a sua cedência depois de tantas insistências e comprometeu-se, também ele, a aparecer no debate desta segunda-feira. Já depois desta decisão, à margem de um ato de campanha em La Rioja, um conjunto de jornalista perguntou ao líder do PSOE sobre a sua ida aos dois debates. Pedro Sánchez encolheu os ombros e respondeu: “Que remédio”.