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Santana Lopes usou meios do Aliança para pedir bilhetes VIP para o NOS Alive. “Foi um engano”, diz

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Através dos meios oficias do Aliança, Santana Lopes tentou "arranjar duas pulseiras VIP" para o NOS Alive. Ao Observador admite "o erro" e diz que eram "para um casal amigo" e que "queria pagar".

ANTÓNIO COTRIM/LUSA

O email, a que o Observador teve acesso, foi enviado na quarta-feira pela secretária pessoal do líder do Aliança, a ex-deputada do CDS Margarida Netto, e destinava-se ao diretor da promotora de espetáculos Everything Is New, organizadora do NOS Alive, que por estes dias decorre em Lisboa: “Encarrega-me o Dr. Pedro Santana Lopes de solicitar ao Dr. Álvaro Covões a possibilidade de arranjar duas pulseiras VIP para os dias 12 e 13 de Julho”.

Problema: o email foi enviado também para parte da imprensa por engano. A mensagem foi rapidamente resgatada e desapareceu da caixa de entrada dos jornalistas que a tinham recebido quase tão depressa como lá tinha caído. Ainda assim, já era tarde.

Confrontado pelo Observador com o conteúdo do email, Santana Lopes começa por admitir que tentou pedir bilhetes para o festival. “Sim, pedi à Margarida Netto, que é minha secretária pessoal e não apenas minha assessora, que tentasse contactar o Dr. Álvaro Covões para ver se conseguia arranjar dois bilhetes para os dias 12 e 13 de julho do NOS Alive”, afirma. “Era para um casal amigo que vive no Porto e tinha tentado comprar bilhetes para o seu filho mas não tinha conseguido por já não haver bilhetes disponíveis. Tinha intenções de os pagar”, acrescenta ainda.

É aqui que surge o segundo problema: o email não fala de qualquer pagamento e, mais do que isso, pede especificamente “duas pulseiras VIP”. O líder do Aliança considera que essa informação não devia constar do email porque se terá tratado de uma confusão. Terá sido uma falha de comunicação. “Eu nunca falei em bilhetes VIP. Se, de facto, foi isso que foi pedido pela minha secretária pessoal foi um erro, porque o que eu queria pedir era apenas os bilhetes normais. E a pagar”, insiste.

Uma prática que Santana Lopes não considera condenável para um político. “Sou amigo do Álvaro Covões há anos. Não acho que haja problema nenhum em perguntar se ainda há possibilidade de comprar bilhetes“. Só que não era bem isso que o email pedia. Solicitavam-se entradas VIP através do email oficial do partido. O ex-autarca entende que esse é um segundo erro. “O email profissional nunca devia ter sido utilizado para este fim”, reconhece.

Para o presidente do Aliança a prática não é condenável quando se trata de tentar comprar bilhetes diretamente ao diretor da promotora — mesmo depois de terem esgotado na venda ao público. Mas o caso muda de figura quando o que está em causa são pedidos de pulseiras VIP por parte de políticos. “Volto a repetir: não era isso que era suposto solicitar porque não foi isso que pedi à Margarida [Netto]. Mas, de modo genérico, julgo que, nos tempos que correm, um político não deve fazer esse tipo de pedidos privilegiados, muito menos através dos canais oficiais do partido“, admite.

Depois de casos como o Galpgate, o Huaweigate ou até mesmo a polémicas em torno de Mário Centeno, que pediu por várias vezes bilhetes para assistir a jogos do Benfica, o ex-PSD constata que a sociedade portuguesa “ficou mais sensível” a estas práticas e reconhece que “é necessário ter cuidados redobrados“. Sobretudo sendo líder partidário e ex-primeiro-ministro.

Assim, e segundo Santana Lopes, terão sido várias falhas de comunicação que levaram a que este email conhecesse a luz do dia: o envio errado para parte da imprensa; o conteúdo do email, que falava em “pulseiras VIP” e não “em compra de bilhetes regulares que tivessem sobrado”; e a utilização dos meios do Aliança para o efeito. Três enganos que tornaram uma prática que considera normal num ato que genericamente classifica como condenável. VIP ou não, se os bilhetes fossem pagos não haveria problema.

Ao Observador, a Everything Is New explica que “o NOS Alive não vende bilhetes VIP”. Ora, não havendo um preço estipulado, não se poderia pagar qualquer valor, por maior que fosse a vontade de quem ia usufruir das passagens. Fonte oficial da promotora adianta que “o festival nem sequer dispõe de uma área VIP” propriamente dita. “São as marcas que têm direito a bancas e espaços próprios no recinto que podem optar por ter essas zonas. Nem a organização tem um espaço próprio”, diz ainda a empresa de Álvaro Covões. Existem, isso sim, convites — não pulseiras VIP –, que podem ser enviados diretamente da organização “para quem entenderem” mas que dão apenas acesso ao festival. Esses também não podem ser vendidos.

Segundo apurou o Observador, Santana Lopes ainda não obteve resposta por parte da promotora.

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