“Só é de loucos até tu conseguires fazê-lo.” Era essa a promessa deixada pela empresa Nike a todas as mulheres do mundo, num anúncio inspirador divulgado na noite dos Óscares, em fevereiro deste ano. “Se demonstramos emoção, chamam-nos dramáticas. Se queremos jogar contra homens, somos loucas. E se sonhamos com oportunidades iguais, estamos a delirar”, enunciava a tenista Serena Williams, perante imagens que iam passando de várias atletas femininas. A Nike rematava o vídeo com o seu slogan: Just Do It. E consolidava a imagem de que é uma marca disposta a lutar pela igualdade de género, dentro e fora do desporto.

Eis que, sete meses depois, essa ideia leva um abanão, depois de várias atletas terem denunciado que, nos seus contratos de patrocínio, são prejudicadas caso engravidem. E, na sequência dessas denúncias, a Nike acabou por decidir alterar a sua política, como explicou numa carta enviada esta semana às atletas que patrocina.

“Se a atleta engravidar, a Nike não irá aplicar nenhuma das reduções associadas a parâmetros de performance (se existirem) durante um período consecutivo de 18 meses, que começa oito meses antes da data do parto da atleta”, poderá ler-se nos novos contratos, segundo conta a Sports Illustrated. “Durante esse período, a Nike não poderá aplicar nenhum dos seus direitos de rescisão (se existirem) como resultado do facto de a atleta não competir por estar grávida.”

A política anterior da Nike, de acordo com o que um porta-voz da empresa explicou ao Washington Post, era que este período se aplicava durante 12 meses, sendo agora alargado para 18. Ou seja, na prática, as atletas patrocinadas pela Nike passam agora a estar protegidas durante nove meses após a gravidez, ao contrário de apenas os três meses de licença pós-parto que tinham até então. E teriam de facto? É que algumas das atletas patrocinadas pela Nike contam uma história diferente.

Allyson Felix, por exemplo, denunciou em maio que a empresa lhe propôs uma redução de 70% de salário depois de se ter tornado mãe de uma bebé prematura. A velocista norte-americana, que tem no currículo nove medalhas olímpicas e que foi campeã mundial 11 vezes (nos 200 metros, 400 metros, 4×100 metros e 4×400 metros), explicou que tentou negociar com a empresa, mas não conseguiu.

Pedi à Nike que garantisse contratualmente que eu não seria punida se não conseguisse ter a minha melhor prestação [desportiva] nos meses a seguir ao parto”, explicou a atleta. “Quis estabelecer um novo padrão. Se eu, uma das atletas mais patrocinada pela Nike, não conseguia essa proteção, quem iria conseguir? A Nike rejeitou.”

Felix decidiu então cancelar o seu contrato com a multinacional.

Mas a velocista não foi a única mulher a denunciar como as atletas femininas têm sido prejudicadas pela Nike por engravidar. Também em maio, a atleta de meio-fundo Alysia Montaño denunciou num artigo do New York Times a “publicidade” de uma marca que promove a igualdade de género e que não aplica os mesmos padrões dentro de portas: “Quando Alysia Montaño correu nos campeonatos norte-americanos de 2014 aos oito meses de gravidez, foi elogiada como a ‘corredora grávida’. Em privado, teve de lutar com o seu patrocinador para continuar a receber salário”, pode ler-se no artigo.

No mesmo texto, o Times assegura que, de acordo com um contrato a que teve acesso, a Nike podia reduzir o salário de uma atleta se ela não atingisse os parâmetros de performance esperados, como por exemplo ficar em quinto lugar no ranking mundial. “Não há exceções para o período do parto, gravidez ou maternidade”, escrevia o jornal.

Com esta decisão, anunciada esta sexta-feira, a Nike põe assim fim a um período de incerteza laboral para as atletas que patrocina caso estas queiram engravidar. Em reação às notícias, Allyson Felix publicou nas redes sociais a nova fórmula dos contratos. A legenda agradecia à Nike a mudança de atitude e apelava a outras marcas para que seguissem o exemplo: “As nossas vozes têm poder”, declarou a campeã olímpica.