A agência de viagens centenária Thomas Cook fechou oficialmente a porta na madrugada desta segunda-feira, deixando milhares de cidadãos encurralados nos seus destinos de férias. Dez mil postos de trabalho estão também em risco com o colapso deste gigante britânico do turismo, com 178 anos de atividade.

A informação foi confirmada pela Autoridade de Aviação Civil britânica às 2h da manhã de segunda-feira: “O Grupo Thomas Cook, incluindo a operadora de viagens e a companhia aérea britânicas, deixam oficialmente de operar com efeitos imediatos. Todas as reservas da Thomas Cook, incluindo voos e pacotes de viagens, estão agora cancelados.”

A empresa reagiu mais tarde em comunicado, lamentando o desfecho para a empresa — que estava a tentar concluir um acordo de financiamento que colapsou —, bem como os incómodos provocados aos seus clientes. “Não temos outra escolha a não ser a de tomar medidas para iniciar o processo de insolvência, com efeitos imediatos”, afirmou a Thomas Cook.

Com a insolvência da agência de viagens, cerca de nove mil empregos estão agora em risco, de acordo com o The Guardian. Para além disso, há neste momento 600 mil clientes que estão fora do país em viagem. Desses, os 150 mil britânicos irão agora ser repatriados por ação do Governo britânico, numa operação já intitulada Operação Matterhorn. Será a maior operação de repatriamento em tempos de paz da História do Reino Unido e, de acordo com informações da Autoridade da Aviação Civil dadas à CNN, terá um custo de cerca de 700 milhões de euros.

O impacto da falência da Thomas Cook no Algarve

Os clientes que necessitem de regressar ao país, explica a BBC, poderão consultar um site criado para o efeito onde serão colocados os voos disponíveis para trazer de volta os cidadãos britânicos. Atualmente, de acordo com dados da embaixada britânica fornecidos ao Governo português, há 500 pessoas no Algarve afetadas pela insolvência da Thomas Cook. Em comunicado enviado às redações, o Executivo nacional reforça que está “a acompanhar de perto e em permanência” a situação.

A falência da empresa afetará agentes hoteleiros um pouco por todo o mundo incluindo Portugal, como explicou à Rádio Observador João Fernandes, presidente do Turismo do Algarve: “A falência desta companhia afeta o Algarve”, afirmou. “Por um lado, pela falta de pagamento aos hoteleiros pelo serviço prestado, por outro pela procura que ainda teria oportunidade de acontecer até ao final de outubro, início de novembro”, explicou. O impacto, contudo, será residual, já que apenas 0,2% dos clientes a passarem férias na região eram clientes da Thomas Cook, segundo Fernandes.

Opinião diferente tem Elidérico Viegas, presidente da Associação dos Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve (AHETA), que estima “milhões de euros” de prejuízo para à região à custa desta falência. “O impacto é enorme, enormíssimo. O Thomas Cook opera em vários países europeus, sobretudo nos principais emissores de turistas para o Algarve; não apenas no Reino Unido, mas também na Alemanha e na Holanda”, afirmou, em declarações à TSF. De acordo com o Jornal de Negócios, a empresa seria a segunda maior operadora turística na costa algarvia.

A Confederação do Turismo de Portugal fala numa “péssima notícia para o Turismo mundial” e também para Portugal. “Sendo o [turismo] britânico, o nosso principal mercado emissor – com uma quota de 19,6% em dormidas e 16,9% em receitas – haverá com certeza consequências negativas para as nossas empresas, ainda que menos do que nos restantes mercados da Thomas Cook”, resumiu Francisco Calheiros, Presidente da Confederação.

A Thomas Cook entrou em insolvência devido ao colapso das negociações entre os seus acionistas e vários bancos. A empresa chinesa Fosun, maior acionista da Thomas Cook, conseguiu um pacote de resgate no valor de mais de um milhar de milhão de euros, mas os bancos exigiram outros 200 milhões para esta semana que a agência não conseguiu arranjar. A Reuters explica que esse financiamento era fulcral para a empresa, já que, com a aproximação dos meses de inverno, esperam-se menos receitas nos próximos meses, combinados com os pagamentos devidos às cadeias de hóteis pelos serviços deste verão. Nos últimos anos, a Thomas Cook ressentiu-se da concorrência digital e de outros fenómenos como o Brexit, e acabou por não conseguir resistir. Fecha agora portas, 178 anos depois.

Fundada em 1841 por Thomas Cook, um fabricante de mobiliário e ex-pastor baptista, a empresa começou por fazer excursões locais, crescendo gradualmente ao longo dos anos até se tornar num gigante mundial do turismo. Cook criou a agência como forma de entretenimento educacional para as massas, que, em plena era vitoriana, achava estarem ameaçadas pelos perigos do álcool, segundo conta a BBC.

A insolvência da Thomas Cook tem sido noticiada como o fim da agência de viagens mais antiga do mundo — inclusivamente pelo Observador —, mas essa informação está errada já que, pelo menos, a portuguesa Agência Abreu é mais antiga. A Abreu foi fundada em 1840, na cidade do Porto, por Bernardo Vieira de Abreu.

*Notícia atualizada às 8h28 para corrigir a informação de que a Thomas Cook seria a agência de viagens mais antiga do mundo