No ano passado, na véspera de Natal, Kevin Spacey deu início ao que, percebe-se agora, será uma espécie de nova tradição de Natal e publicou um estranho vídeo onde voltava a encarnar o político sem escrúpulos Frank Underwood, personagem principal da série House of Cards, da Netflix, que o despediu assim que foram conhecidas as primeiras acusações de assédio e abuso sexual contra si, em 2017.

Este ano, no mesmo dia, 24 de dezembro, Spacey voltou a atacar e partilhou um novo vídeo — mas mais uma vez a reinterpretar a personagem que dois anos antes do escândalo lhe valeu o Globo de Ouro. “Não acharam mesmo que eu ia perder a oportunidade de vos desejar um bom Natal, pois não?”, atira com a entoação e a postura tão familiares aos fãs da série, diretamente para a câmara, depois de acicatar o fogo que arde na lareira atrás de si.

Se em 2018, de avental natalício, falou durante 3 minutos e foi visto 4 milhões e meio de vezes em apenas 24 horas, este ano Kevin Spacey, não se alongou muito e despachou a mensagem de Natal em 59 segundos. Nem por isso foi menos sinistro: “Foi um ano bastante bom. E estou grato por ter a minha saúde de volta. E para além disso fiz algumas mudanças na minha vida e quero convidá-los a juntar-se a mim. Agora que nos aproximamos de 2020 quero dar o meu voto a mais bondade neste mundo”, começa por dizer, em tom pausado. “Eu sei o que estão a pensar — “Ele está a falar a sério?!”. Estou a falar muito a sério. E não é assim tão difícil; da próxima vez que alguém fizer alguma coisa de que não gostem, podem passar ao ataque, mas também podem não disparar e fazer o inesperado: podem… matá-los com bondade”, continua no mesmo timbre, só perturbado no final pela introdução de um efeito sonoro, estilo filme de terror série B, nunca antes ouvido na premiada House of Cards.

Ao longo dos últimos dois anos, o ator, de 60 anos e duplamente oscarizado, foi acusado de assédio e/ou abuso sexual por cerca de 30 pessoas. No vídeo partilhado no Youtube há um ano, “Let Me Be Frank”, que funcionava como um trocadilho que tanto podia significar “Deixem-me ser franco”, como “Deixem-se ser o Frank” (e que muito provavelmente significava os dois), Spacey também foi críptico mas não tanto. “Claro que houve quem acreditasse em tudo e estivesse à espera de me ouvir confessar tudo. Estão mortos por me ouvir declarar que tudo o que disseram é verdade e que tive o que merecia. Mas não vou pagar pelo que não fiz”, garantia no vídeo, filmado numa cozinha parecida com a de Frank e Claire Underwood.

Kevin Spacey. Polémicas, segredos e rumores do misterioso ator

Em julho deste ano, um dos processos que corriam na justiça americana contra o ator, neste caso acusado de abusar sexualmente de um jovem de 18 anos num bar no Massachusetts, em 2016, foi retirado. Desde que surgiram as primeiras acusações, há já dois anos, o ator nunca mais filmou e desapareceu da vida pública — exceção feita a estas duas últimas aparições natalícias. “KTWK” ou “Kill Them with Kindness” (“Matem-nos com Bondade”) já foi visto mais de 945 mil vezes desde que foi publicado, esta terça-feira à tarde.