Uma das primeiras vítimas do coronavírus. A morte de António Vieira Monteiro caiu como uma bomba no setor financeiro português. O presidente não executivo do Santander em Portugal, antigo Santander Totta, tinha 74 anos, e já não desempenhava funções executivas desde 2019. Apesar disso, ainda era um gestor de referência máxima no setor bancário e a sua morte foi lamentada por banqueiros nacionais, mas também internacionais que com ele trabalharam, como a líder do Santander, Ana Botín.

Ana Botín: a morte de António (Vieira Monteiro) “fez-me sentir pessoalmente a real dimensão da crise”

António Horta Osório, um dos seus antecessores no Santander, hoje na liderança do Lloyds no Reino Unido, reagiu: “com enorme tristeza que recebi a notícia da morte do António Vieira Monteiro esta madrugada”.

Tive a oportunidade de o conhecer quando comecei o Banco Santander de Negócios Portugal e ele já era Vice Presidente da Caixa Geral de Depósitos. Trabalhámos mais tarde juntos durante mais de 10 anos no Santander, depois de o ter chamado para liderar o Conselho de Crédito quando compramos o Totta ao Antonio Champalimaud”, diz Horta Osório.

“O António era um homem com uma personalidade fortíssima, com uma enorme experiência de banca e, em particular, de Crédito e de Empresas. Desempenhou o seu papel no Conselho de forma exemplar, contribuindo assim muito para a afirmação e crescimento saudável do Santander Totta em Portugal”, remata António Horta Osório que foi presidente do Santander em Portugal durante vários anos.

Com 50 anos de carreira, Vieira Monteiro era “o homem da banca”, como lhe chamou Moreira da Silva, o empresário e gestor, que trabalhou com ele nos primeiros anos da sua atividade.

Vieira Monteiro foi o homem da banca. Foi uma personalidade excecional e que trouxe uma maneira de fazer banca no início dos anos 90 completamente diferente do que se fazia antes”, afirmou à Rádio Observador.

Vieira Monteiro. “Foi o homem da banca”

Vieira Monteiro só chegou ao palco principal da banca em 2012 quando assumiu a liderança executiva do Santander Totta, substituindo Nuno Amado, quando este transitou para o BCP. Mas já tinha uma longa carreira para trás no setor, que passou pela banca privada, nacionalizada e privatizada e controlada por investidores estrangeiros. Ou seja, atravessou todo o ciclo dos últimos 50 anos, como recorda Jardim Gonçalves, em testemunho à Rádio Observador.

Jardim Gonçalves: “Lembro-me de Vieira Monteiro desde sempre”

O fundador do BCP nunca trabalhou com Vieira Monteiro, mas “desde sempre me lembro dele”, referindo que o banqueiro esteva na profissão ainda antes de o próprio Jardim Gonçalves. A carreira começou no antigo BPA, banco que o BCP de Jardim Gonçalves viria a comprar mas só em meados dos anos de 1990, mas Vieira Monteiro passou pela banca pública, nomeadamente pela Caixa Geral de Depósitos onde se cruzou com Moreira da Silva, recorda o gestor:

“Foi uma experiência inolvidável e isso deve-se a Vieira Monteiro, que trouxe uma dinâmica daquilo que hoje se chama banca de investimento para a CGD na altura, para o banco público, na fase de transição para sociedade anónima. Viu-se ali uma dinâmica de intervenção como nunca se tinha visto antes.”

Uma carreira que passou por vários bancos até chegar ao Santander

Licenciado em direito, iniciou o seu trajeto na banca em 1970 no BPA. Em 1974 integra o Crédito Predial Português, onde subiu à administração em 1976 já com o banco nacionalizado onde ficou até 1984. De 1985 a 1989 integrou o Banco Espírito Santo e a administração do Libra Bank (Reino Unido). Daqui entrou nos quadros da Caixa Geral Geral de Depósitos desempenhou vários cargos, incluindo o de presidente executivo do Banco Nacional Ultramarino (BNU), instituição entretanto integrada na Caixa. Entre 1993 e 2000 desempenha funções de vice-presidente do banco público, trabalhando com os presidentes Rui Vilar e João Salgueiro.

Saiu da administração da Caixa no final de 2000, uma passagem que acabou por recordada no ano passado e não pelas melhores razões, quando Vieira Monteiro teve de explicar na comissão parlamentar de inquérito ao banco público, as circunstâncias de uma operação contratada enquanto tinha responsabilidades da área financeira e veio a custar perdas relevantes à Caixa.

Boats Caravela. A operação “mistério” que nem a administração que a aprovou consegue explicar

Mas, ao contrário do que aconteceu com outros antigos gestores da Caixa, Vieira Monteiro não viu a sua idoneidade para exercer cargos na banca afetada por este episódio e manteve todos os cargos que tinha na banca.

O gestor bancário regressa ao Crédito Predial Português para a administração, quando este banco passa para a esfera do Santander na sequência do negócio Champalimaud e assume um cargo na comissão executiva do Banco Totta e Açores que integrou o CPP e que hoje é o Santander Portugal.

A passagem no ano passado pela comissão parlamentar de inquérito à Caixa não foi a primeira vez que o então presidente do Santander Totta esteve no Parlamento a dar explicações sobre temas polémicos.

Em 2013, Vieira Monteiro foi à comissão parlamentar de inquérito aos swaps (produtos financeiros de alto risco) vendidos a várias empresas públicas, durante a crise financeira. O Governo de Passos Coelho e Maria Luís Albuquerque recusou fazer um acordo com o Santander Totta, optando por ir para tribunal, e Vieira Monteiro esteve no papel difícil de defender contratos que causaram muitos milhões de euros de prejuízos a empresas do Estado quando o país estava sob emergência financeira.

O banqueiro manteve-se sempre firme sobre a legalidade dos contratos, o que veio a ser confirmado por um tribunal de Londres, e veio a chegar a um acordo já com o Governo socialista que lhe garantiu o cumprimento destas obrigações financeiras por parte das empresas.

Swaps. Governo faz acordo com Santander antes da provável derrota final em Londres

Durante os anos da crise, o Santander Totta, com o respaldo da casa-mãe e sob a liderança de Vieira Monteiro, foi o banco que melhor resistiu: sem ajudas do Estado e sempre com lucros. Ganhou músculo e dimensão, sobretudo após a compra do Banif. O negócio feito à pressa no final de 2015 e sob pressão europeia foi polémico por causa da intervenção direta das autoridades europeias a favor da venda ao grupo espanhol e voltou a levar Vieira Monteiro ao Parlamento.

A integração do Banco Popular em Espanha e Portugal pelo grupo Santander, foi mais uma nota na direção daquilo que alguns chamaram, com uma nota de preocupação, a espanholização da banca portuguesa.

“Excelente profissional” e muito respeitado em todo o setor

Nuno Amado, que trabalhou com ele vários anos no Santander Totta, destaca a excelência profissional. “Era um dos melhores que o país tem, tinha”, sublinhou à rádio Observador o atual chairman do BCP. Amado lembra a “carreira excecional” que começou no antigo BPA (Banco Português do Atlântico) ainda antes do 25 de abril, um banco conhecido como a “escola dos ministros” da qual saíram, por exemplo, Miguel Cadilhe, Artur Santos Silva, fundador do BPI e Rui Vilar, antigo presidente da Caixa e atual chairman.

Nuno Amado: “Vieira Monteiro era dos melhores profissionais da banca que Portugal tinha”

Faria de Oliveira, que trabalhou com Vieira Monteiro na Associação Portuguesa de Bancos (APB), à qual preside, assinala que fazia parte de uma “geração muito, muito competente” com uma “carreira brilhante” que deixava uma marca pelos cargos onde passava. Tinha grande competência técnica, mas também era muito inovador, disse à Rádio Observador. Realça ainda a “firmeza de carácter e uma “personalidade muito forte” na liderança das instituições. Estava sempre disponível para colaborar, mas dava sempre a opinião “de forma muito intensa”.

Faria de Oliveira: “Vieira Monteiro teve uma carreira brilhante”

Já António Ramalho, presidente executivo do Novo Banco, reagiu no Twitter, frisando que Vieira Monteiro “geriu tantas crises com sucesso” e “sucumbiu no início de outra”. “Esta crise vai exigir muito sangue e suor mas também algumas lágrimas. Adeus Vieira Monteiro.”

Carlos Tavares, presidente do Montepio, trabalhou com igualmente com Vieira Monteiro em vários bancos e fez questão de deixar a nota de pesar.

“Foi com grande pesar que recebi a notícia do falecimento de António Vieira Monteiro, profissional que admiro e com quem tive oportunidade de trabalhar e que deixa marcas de competência na gestão da banca no nosso país em diversos tempos e instituições”.

A morte de Vieira Monteiro foi lamentada pelo Banco de Portugal que assinala a “prestigiante carreira profissional no sector financeiro”, ao mesmo tempo que manifesta a “perda e de consternação. O Governador e os membros do Conselho de Administração do Banco de Portugal expressam à família o seu mais profundo pesar.

Também a Universidade Nova, onde o banqueiro exerceu vários cargos, sendo atualmente membro do conselho geral lembra o presidente do Conselho de Administração do Santander como “um homem que esteve sempre do lado das soluções”. E acrescenta: “António Vieira Monteiro tinha um forte sentido de responsabilidade social, tendo estado sempre disponível para apoiar a Universidade NOVA de Lisboa”.

Esteve de quarentena antes de ser internado

Prestes a fazer 74 anos, António Vieira Monteiro, presidente do conselho de administração do Santander, morreu esta quarta-feira devido a uma infeção pelo novo coronavírus.

O presidente do conselho de administração (chairman) do banco terá contraído o coronavírus no decorrer de um período de férias recente, na altura do carnaval, numa estância de esqui no norte de Itália, apurou o Observador. Ao regressar a Portugal foi logo posto em quarentena em casa — devido não a sintomas, mas ao local de onde tinha vindo – e não terá, por isso mesmo, passado pelo seu local de trabalho no Santander. Passados dias desenvolveu os vários sintomas associados à Covid-19 e foi internado no Hospital Curry Cabral, em Lisboa.

No entanto, segundo as fontes ouvidas pelo Observador, terá morrido no Hospital de São José, para onde foi transferido.

Dois dos seus filhos estão também infetados com Covid-19, avançou a TVI. O Observador também já soube que houve vários infetados que estiveram com Vieira Monteiro nesta viagem de família, mas que todos estão a recuperar bem.

Foi a segunda vítima mortal do novo coronavírus em Portugal.

Coronavírus. Vieira Monteiro esteve de quarentena antes de ser internado