Luís Marques Mendes considera que as medidas económicas anunciadas pelo Governo para responder à crise provocada pelo novo coronavírus poderão ser “ainda muito insuficientes” e, se não forem alteradas, muitas empresas correm o risco de chegar ao fim do mês sem conseguir pagar salários. Além disso, o comentador considera que se Mário Centeno sair do Governo estará “a desertar” — o primeiro-ministro não devia aceitar a saída, diz, e se aceitar e a propuser deveria ser o Presidente da República, Marcelo de Sousa, a vetá-la.

Num comentário feito à distância, o antigo líder do PSD e atual Conselheiro de Estado começou por sugerir no espaço semanal que tem na SIC que esta não é uma altura para ter como prioridade a estabilidade económica.

“Temos de ter uma hierarquias de valores. Em primeiro lugar, a prioridade absoluta, inegociável, não relativa, tem de ser salvar vidas”, começou por dizer, notando ainda que todos os esforços têm de ir para tentar conter a propagação da pandemia: “Temos primeiro de combater a tempo e horas — e com firmeza — a epidemia da saúde para a seguir resolver a epidemia financeira. Quanto mais rápidos e eficazes formos a combater epidemia da saúde, mais rapidamente combateremos epidemia financeira“.

Ainda assim, depois de uma crise de saúde na qual vê uma luz ao fundo do túnel — sobre números recentes, disse que não se podendo “facilitar e embandeirar em arco”, estes “dão confiança” quanto à resposta ao surto —, virá uma crise económica. “Vai ser uma crise séria. Não vai ser uma crise que passa rapidamente, vai ser longa e forte”, notou.

Relativamente às medidas económicas anunciadas pelo Governo, o comentador político considerou que são “bem intencionadas”, mas poderão ser “muito insuficientes”. Isto porque, apontou, é preciso resolver “problemas de liquidez das empresas” e a experiência de tentar resolvê-las com linhas de crédito “não é fantástica”. Além disso, deixou várias críticas ao modelo de lay-off proposto pelo Governo, que permite às empresas suspenderem contratos com trabalhadores — cobrindo o Estado parte dos salários — se mostrarem que tiveram uma redução de produtividade nos dois meses anteriores devido ao novo coronavírus.

É uma medida positiva, mas a forma como foi apresentada foi uma confusão. Assim não é uma simplificação, é uma complicação. A medida está apresentada nesta perspetiva: as empresas com redução têm direito [ao lay-off], mas têm de provar que a quebra de rendimento é reportada aos dois meses anteriores. Isso só se aplica se se ficcionar que a crise começou em janeiro. A crise começou agora em março. Ou só se poderá apresentar o pedido em maio? Não faz sentido nenhum, devia ser aplicação imediata. De outra forma, chegamos ao final do mês e as empresas não têm dinheiro para pagar salários. Aí não se defende o emprego”, considerou.

Marques Mendes deixou ainda críticas à ação pouco interventiva de Mário Centeno, ministro das Finanças, até ao momento: “Sentiu-se a ausência de uma palavra forte, firma, clara do ministro das Finanças. É muito intrigante”.  Até porque nas Finanças a crise “não vai ser de três meses” porque a parte económica vai ser “muito mais longa”.

Dados os meses que se avizinham até ao final de 2020, o Conselheiro de Estado pronunciou-se sobre uma eventual saída do Governo de Mário Centeno, que segundo o jornal Expresso foi chamado a Belém por Marcelo Rebelo de Sousa para discutir uma eventual saída do Executivo. Disse Marques Mendes: “Se fosse primeiro-ministo, não deixava que um ministro das Finanças este ano saísse do Governo, porque a crise vai ser longa. Sair do Governo nesta altura não é sair, é desertar”. Se António Costa aceitar a saída e a propuser a Marcelo, “o Presidente da República não devia aceitar“.