“É muito complicado organizar uma comemoração do 1.º de Maio nestas circunstâncias. Será completamente diferente do que foi no ano passado e em anos anteriores”. A frase é de Libério Domingues, da União de Sindicatos de Lisboa, o homem responsável por organizar as celebrações do Dia do Trabalhador da CGTP na capital. Em tempos de Covid-19, e com restrições do estado de emergência ainda em vigor, os milhares e milhares de pessoas a encher os relvados da Alameda, junto à Fonte Luminosa, e na Avenida Almirante Reis, serão uma imagem do passado. Aliás, se tudo correr como planeado – e os eventos organizados pela CGTP, geralmente, correm como a organização quer – a celebração do 1º de Maio deste ano em Lisboa vai parecer uma enorme cerimónia militar.

A toda a largura dos relvados a organização vai colocar fitas a cada cinco metros, delimitando corredores para os quais serão encaminhados os representantes dos sindicatos. E mesmo estes terão de manter uma distância de 3 metros uns dos outros. Ainda assim, serão centenas, várias centenas de pessoas a formar o que, à distância, deverá parecer um enorme “batalhão” de sindicalistas alinhados. Todos os pormenores foram acertados em reuniões nas últimas semanas, incluindo com as autoridades de Saúde, com o Ministério da Administração Interna e com as forças de segurança. Libério Domingues explicou ao Observador como a CGTP organizou o mais atípico dos encontros do 1º de Maio, que não terá nem desfile, nem manifestação.

Sindicalistas e populares reunidos nas celebrações do Dia do Trabalhador de 2015, nos relvados da Alameda. Este ano será diferente, diz a CGTP.

“Este ano a CGTP deixou bem claro à população que a comemoração é diferente e em condições especiais, com a presença apenas de representantes dos sindicatos”, assume o coordenador da União de Sindicatos de Lisboa da CGTP. E quantos estarão? O número preciso apenas ficará fechado na noite de quinta-feira, quando se esgota o prazo para que os mais de 80 sindicatos afetos à Inter fornecerem os nomes das pessoas que vão estar presentes. “Seguramente mais do que 2 por cada estrutura sindical”, garantiu. “Centenas, várias centenas, mas não deverá chegar a mil pessoas”, ressalvou.

No que toca ao espaço habitual da celebração, a Alameda estará, como todos os anos, reservada para a festa. “Vamos ocupar o espaço relvado da Alameda, que será delimitado com fitas. Vão ser formadas fileiras com fita de cinco em cinco metros à largura de toda a Alameda. As filas estarão marcadas e numeradas e cada pessoa participante vão saber qual é a fila e o lugar que lhes está atribuído. E chegados ao local, vão ser encaminhados para o seu lugar”, diz Libério Domingues.

1º de Maio celebrado em local fixo e com número limitado de pessoas

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Regras que, faz questão de frisar o sindicalista, são mais restritivas do que as indicações de distância emitidas pela Direção-Geral de Saúde. Ora isto implica um “esforço muito grande, uma grande disciplina”. Até para que não haja “deslocações descontroladas” entre as filas e nos espaços perto. Ou seja, também implicará a mobilização de entre 30 a 40 elementos para controlar as pessoas. E nada de seguranças privadas. “Tudo gente nossa, da CGTP só para a organização, entre 30 e 40 pessoas.

Claro que tudo isto se passa num fim de semana prolongado em que vigora uma proibição de sair do concelho de residência. Ou seja, apenas os cidadãos com autorização específica ou em profissões de exceção poderiam sair, justificadamente, das zonas em que moram.

As celebrações do 1º de Maio, Dia do Trabalhador, no ano passado juntaram milhares de pessoas em Lisboa. Entre 20 e 30 mil, estimou a organização.

“Por causa da declaração do primeiro-ministro na semana passada [sobre a proibição de deslocação entre concelhos], cada um dos representantes sindicais terá uma declaração passada pela CGTP”, realça Libério Domingues. Motivos invocados? Quem se desloca a Lisboa (e às outras 23 localidades em que há encontros) virá em “atividade sindical”.

“Vamos ter especial atenção aos transportes públicos também. Vamos ter gente nossa com coletes da organização para que as pessoas não se aglomerem nas estações de metro. Não vamos impedir a circulação das pessoas (até externas ao evento, nomeadamente grande público), mas vamos deixar facilmente entendível que é uma celebração diferente”, sublinha o responsável.

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Já o uso da máscara no local da comemoração será “facultativo”. “Nas reuniões que tivemos no Ministério da Saúde não nos disseram nada disso acerca de ser obrigatório. Pelo contrário, a Diretora-Geral de Saúde [Graça Freitas] até afastou isso porque se trata de um espaço aberto. E a organização foi clara a desincentivar a presença de reformados, crianças e outras pessoas em grupos de risco relacionado com o novo coronavírus.

Ainda assim, a CGTP vai ter máscaras disponíveis para quem não tiver e quiser usar. “Mas claro que não vamos obrigar ninguém, quem quiser usa.

Isabel Camarinha, eleita este ano para substituir Arménio Carlos às frente da CGTP, discursará sozinha no palco montado na Fonte Luminosa.

Quanto ao evento em si, será curto. “Cerca das 15:15 a secretária-geral [Isabel Camarinha] discursa e de seguida não haverá desfile, não haverá nada. Cada representante vai à sua vida”. Em menos de uma hora a comemoração na Fonte Luminosa estará acabada, estima Libério Domingues. Ainda esteve em análise a possibilidade de Isabel Camarinha – que se estreia num 1º de Maio como secretária-geral – proferir o discurso a partir de um estúdio móvel, para ser transmitido por streaming, mas a solução escolhida será um pequeno palco. É certo que estará sozinha, sem os cerca de 30 elementos da Comissão Executiva – o órgão máximo da Inter – a seu lado. Mas estes estarão nas primeiras filas, claro.

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Também ao contrário de outros anos, salientou a organização, não haverá imensos autocarros estacionados na zona da Alameda, nem cortes de via. “As pessoas dali quase nem se vão dar conta”. E altifalantes para as palavras de ordem? “Isso sim, nem podia deixar de ser. Mas isso as pessoas da Alameda já estão mais do que habituadas ao 1º de Maio”, ri-se Libério Domingues.

Quem não se está a rir com o evento da CGTP na Alameda é a PSP de Lisboa, que vai mobilizar um dispositivo em rede por toda a cidade de Lisboa por causa disso. Fonte oficial do Comando de Lisboa salientou que o policiamento previsto não é direcionado especificamente à concentração, mas sim a garantir que são cumpridas as medidas de afastamento obrigatórias, incluindo a utilização das máscaras nos transportes públicos.

“Haverá um reforço do policiamento pela cidade, porque não sabemos onde é que as pessoas se vão concentrar para ir ter à Alameda. Podem juntar-se na Baixa ou em Alcântara, não sabemos”, disse a mesma fonte ao Observador.

Na operação estará envolvida a Divisão de Trânsito, a Divisão de Transportes Públicos, haverá patrulhamento normal e, de reserva, estará um subgrupo das unidades especiais de polícia, nomeadamente do Corpo de Intervenção, para eventuais problemas associados ao encontro. Também será feito um acompanhamento dos autocarros que vai trazer representantes sindicais da CGTP de Setúbal, especialmente na fase de largada de passageiros na Alameda.

Quanto à outra central sindical, a UGT, já indicou que vai comemorar o 1º de Maio por via digital e não realizará iniciativas presenciais.