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Isabel Camarinha tem 59 anos e, por isso, só poderá fazer um mandato como secretária-geral da CGTP

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Isabel Camarinha tem 59 anos e, por isso, só poderá fazer um mandato como secretária-geral da CGTP

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Isabel Camarinha. A nova líder que tem a vida toda na CGTP /premium

Trabalha há 40 anos na CGTP e foi subindo aos poucos na hierarquia. E a família? Também está na intersindical: é casada com um dos dirigentes mais antigos. A vida da nova líder Isabel Camarinha.

“Aqui há tempos”, Rosário Miranda, dirigente do Sindicato dos Trabalhadores do Comércio, Escritórios e Serviços (CESP), estava numa reunião de direção com a então presidente do sindicato, Isabel Camarinha, e o tema do XIV Congresso da CGTP (que se realizou este fim-de-semana) veio à baila. “Falou-se no Congresso, como ia ser, e eu disse assim: ‘Ó Isabel, és tu que vais [para a liderança]?’” E ela começou a rir-se e disse: ‘Tu és tola…’”.

Estaria a esconder o jogo dos camaradas do CESP? Não estava mesmo a pensar nesse cenário, que só ficou claro na última semana antes do conclave? Rosário Miranda acredita que “talvez não estivesse nos planos dela”, mas a verdade é que Isabel Camarinha é desde este sábado a nova secretária-geral da CGTP, a primeira mulher (não operária, ainda para mais) nesse cargo desde que existe a central sindical, há 50 anos.

Mas quem é Isabel Camarinha, a mulher de 59 anos que a partir de agora manda nos destinos da maior central sindical do país? Com 40 anos na intersindical, Isabel Camarinha tem uma vida dedicada à CGTP, onde começou como funcionária, ajudou a criar a Interjovem e passou depois para cargos, cada vez mais altos, em vários sindicatos afetos à central, sobretudo no setor do comércio e serviços. E família? Também está na CGTP. Casou-se com Fernando Maurício, um dos funcionários mais antigos e chefe do departamento internacional da intersindical.

“A Isabel sabe bem de que lado da barricada está”

“Em frente aos patrões aparece uma outra Isabel Camarinha! Determinada e afoita naquilo que é essencial. Há sempre uma barreira que nos vai separar [os trabalhadores dos patrões] e o nosso local na barricada está bem definido. E o da Isabel também”.

A frase pertence a Cristina Monteiro, dirigente do Sindicato dos Trabalhadores do Comércio, Escritórios e Serviços (CESP), o mesmo que Isabel Camarinha liderou nos últimos quatro anos e que lhe garantiram um lugar, por inerência de funções, na comissão executiva da CGTP.

Quem conhece bem Isabel Camarinha parece convergir numa ideia comum à frase de Cristina Monteiro: a nova responsável máxima da maior central sindical em Portugal é conciliadora com os seus e intransigente perante os patrões.

Isabel Camarinha assume a liderança da intersindical depois de três décadas de braços de ferro com as grandes distribuidoras e outras empresas ligadas ao comércio e aos serviços. Segue para o lugar de Arménio Carlos com uma negociação a meio: um novo contrato coletivo de trabalho para o setor. E deixa histórias de ambos os lados da barricada.

“As lutas surtiram efeito”, recorda Ana Paula Rodrigues, que também trabalhou nos últimos anos com Isabel Camarinha no CESP. Enquanto presidente da entidade, Isabel Camarinha conseguiu, por exemplo, “aumentos a partir de janeiro para toda a gente” no Pingo Doce. A cadeia do grupo Jerónimo Martins esteve várias vezes na mira da dirigente sindical, sobretudo quando a empresa decidiu lançar uma grande promoção de descontos no dia 1 de maio de 2012. Isabel Camarinha prometeu:

“Vamos tomar todas as medidas que estiverem ao nosso alcance, porque estamos perante uma atitude de concorrência desleal em relação aos outros grupos (económicos), além de que foram cometidas imensas ilegalidades contra os trabalhadores”.

E até admitiu apresentar queixa na Autoridade da Concorrência. Um ano antes, Camarinha tinha dado a cara pela greve dos trabalhadores contra a decisão das cadeias de distribuição de abrir portas a 1 de maio, dia do Trabalhador, um dos poucos três dias no ano (juntamente com o Natal e o Ano Novo) em que o setor não estava parado.

Rosário Miranda, que também partilha há muitos anos as lides sindicais com Isabel Camarinha, salienta que a nova líder da CGTP é “muito ativa nas lutas”, tendo acumulado “muita experiência” tanto nas negociações com as empresas como no contacto com trabalhadores.

Cristina Monteiro, que também é dirigente do CESP e trabalha para a Sonae há 30 anos como operadora especializada, prefere destacar a capacidade de fazer pontes entre as várias opiniões que por vezes chocam internamente. “As coisas são discutidas entre nós e as coisas às vezes até aquecem, como é normal no auge da discussão. E eu vejo uma Isabel que tenta sempre tirar a melhor parte de cada um dos lados para que as pessoas consigam convergir, ir buscar aqui e ir buscar acolá, para irmos todos no mesmo sentido”, recorda a sindicalista.

Mas este lado mais plácido de Isabel Camarinha não retira uma das características mais vincadas da nova líder da CGTP: “Tudo o que é direito do trabalhador, ela insiste, insiste, insiste e não sai daquilo”, elogia Ana Paula Rodrigues: “É persistente, muito convicta, muito assertiva”.

O outro lado da barricada confirma que Isabel Camarinha “não sai daquilo”, mas chama-lhe outra coisa: cartilha. A contraparte do CESP na mesa de negociações com as grandes empresas de distribuição é, na grande maioria das vezes, a APED, a Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição. E apesar de Isabel Camarinha ter delegado na dirigente Célia Lopes as negociações com a APED, do lado dos patrões a nova secretária-geral da intersindical é bem conhecida.

Tem a cartilha da CGTP e não sai dali. ‘É isto que queremos, 90 euros de aumento em todas as posições’. Mas é uma pessoa afável, articulada, com bom discurso, menos seca do que Arménio Carlos, sem dúvida”, diz ao Observador uma fonte ligada às negociações. Ligada às negociações pelo lado dos patrões, claro, e pedindo anonimato.

Outra dirigente sindical, Joana Marques, diz que essa característica não é particular a Isabel Camarinha, e sim  comum a toda a gente na central. “Firme nas negociações? Isso é a postura da CGTP… Nós somos assim, a CGTP é firme nas suas decisões e não entramos em florzinhas à volta, para meter uns pozinhos e parecer que é bonito”. ”E tem de ser essa a postura de quem nos está a representar, seja a Isabel, seja quem for. Tem de saber ser solidário, saber estar presente e saber ser firme. Porque é isso que os trabalhadores também querem”, diz. Joana Marques sabe bem do que fala. “A Isabel conhece-me desde pequena. Temos algumas histórias, mas prefiro não partilhar”.

“Firme nas negociações? Isso é a postura da CGTP... Nós somos assim, a CGTP é firme nas suas decisões e não entramos em florzinhas à volta, para meter uns pozinhos e parecer que é bonito”. ”E tem de ser essa a postura de quem nos está a representar, seja a Isabel, seja quem for."
Joana Marques, dirigente sindical sobre a postura da nova secretária-geral da CGTP

Perante a insistência, Joana Marques desata o rol dos elogios. “É alguém com quem conseguimos falar, que está lá. Tem sempre um sorriso na cara. E a mim agrada-me especialmente o facto de ela ser mulher… Talvez por nunca ter havido nenhuma mulher [como secretária-geral da CGTP]. E estava na altura de haver uma. Não desfazendo em quem esteve antes, mas acaba por ser uma mais-valia o facto de ela ser mulher. É uma força diferente para a luta continuar”.

Aliás, do lado do movimento sindical não se poupa no adjetivo. Isabel Camarinha é “muito humana, excelente pessoa, extremamente humilde” e “muito prestável”, garante Rosário Miranda. “Disponível”, “boa ouvinte, conciliadora”.

Sobre o percurso de Isabel Camarinha na CGTP, à qual se juntou ainda antes de completar 20 anos, Joana Marques sintetiza: “Olhe, não é alguém que vem assim do nada”. Que é como quem diz, é não se chega à liderança da central sem um certo pedigree.

Isabel Camarinha integrou as listas do PCP nas legislativas e europeias, mas sempre em lugares não elegíveis

LUSA

De facto, não. O percurso de Isabel Camarinha foi feito exclusivamente do mundo sindical. Trabalhou como técnica administrativa no Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Administração Local e Regional, Empresas Públicas, Concessionárias e Afins (STAL), entre 1991 e 2009. E como dirigente sindical (desde 1991) integrou direção do Sindicato dos Trabalhadores do Comércio, Escritório e Serviços de Lisboa (CESL) e posteriormente a direção do Sindicato dos Trabalhadores do Comércio, Escritório e Serviços de Portugal (CESP), desde a sua criação, há 22 anos.

Em 2016 foi eleita presidente do Sindicato dos Trabalhadores do Comércio, Escritórios e Serviços de Portugal (CESP) e coordenadora da Federação Portuguesa dos Sindicatos do Comércio, Escritórios e Serviços (FEPCES). Ascende agora à liderança da CGTP, no seio da qual acompanhou a criação da InterJovem.

Isabel Camarinha também casou “dentro” da intersindical. O seu marido, Fernando Maurício, é um dos funcionários mais antigos da central, chefe do departamento Internacional. Aliás, quando no último dia do Congresso um ativista palestiniano subiu ao palco para se dirigir às centenas de sindicalistas, foi Fernando Maurício quem leu a versão portuguesa do discurso. Ambos têm uma filha.

A nova líder da CGTP, aliás, destacou a conciliação da vida profissional com a familiar como uma das prioridades para o seu mandato, isto além do aumento dos salários e o fim dos horários “desregulados”. “É curioso porque estamos todos preocupados com o aumento da natalidade, mas depois os trabalhadores não têm condições para constituir família e para terem filhos. É uma contradição“, defendeu a líder da CGTP aos jornalistas minutos depois ter sido eleita.

“Talvez não estivesse nos planos dela, porque aqui há tempos estive numa reunião de direção com ela e falou-se no congresso, como ia ser, e eu disse assim: “Ó Isabel, és tu que vais?” [para a liderança?] E ela começou a rir-se e disse: “Tu és tola…"
Rosário MIranda, dirigente sindical

Isabel é, claro está, militante do PCP, partido pelo qual integrou as listas para as legislativas e para as eleições europeias, ainda que em lugares não elegíveis. Não pertence (ainda) ao Comité Central.

E é uma pessoa ambiciosa? Ninguém se atreve a dizer, sobretudo porque Isabel Camarinha, aos 59 anos, apenas poderá cumprir um mandato à frente da CGTP, pela mesma razão que Arménio Carlos agora se despede (o líder da intersindical não exerce funções se estiver em idade de reforma, ou seja, acima dos 66 anos).

Quem parece confiar na escolha é o homem que agora sai da liderança, que exerce desde 2012.

“Para ter sido proposta [pela anterior comissão executiva] é porque houve o reconhecimento de que estava preparada. Estando preparada, sabe também que pode contar com o apoio de todo o coletivo”, disse o secretário-geral cessante em declarações à Lusa. Adiantou, porém, que também “o contributo individual de cada um é determinante para que o coletivo seja ainda mais forte e possa implementar as grandes orientações que a CGTP definiu”.

A nova líder da CGTP abandona a presidência do CESP, a meio de negociações sobre o contrato coletivo de trabalho

MÁRIO CRUZ/LUSA

Coletivo, coletivo, coletivo. A mesma palavra pela qual alinha Ana Avoila, outra mulher histórica no movimento sindical e que vai sair das funções na Intersindical. Mas Avoila recorda outro facto: Isabel Camarinha não é uma teórica, uma mulher de estar sentada à secretária.

“É uma mulher do terreno, com grande experiência do que é o mundo do trabalho e, portanto, está à altura” do cargo. (…) A Isabel certamente vai responder pelo coletivo, pelas decisões coletivas e é isso que interessa”, concluiu Ana Avoila, à Lusa.

De facto, Isabel Camarinha é a mulher que tem aparecido em frente aos piquetes de greve dos trabalhadores das grandes superfícies. Mas nada que a faça ser uma cara conhecida na casa dos portugueses. Mais uma vez, Joana Marques desvaloriza.

Isabel Camarinha ao lado do homem que vai substituir à frente da central sindical

João Pedro Morais/Observador

Pode não ser muito conhecida da opinião pública, mas é bastante conhecida no movimento sindical. Em todas as lutas ela está lá, isso para mim é o que importa”.

Orlando Gonçalves, também dirigente do CESP [afecto à CGTP] e funcionário do Sindicato dos Bancários Sul e Ilhas (que pertence à UGT), destaca um inusitado ponto positivo no percurso de Isabel Camarinha. “Vem [de um sindicato que representa trabalhadores] do setor privado. Os últimos secretários-gerais da CGTP têm vindo mais do público”, diz Orlando Gonçlalves. E isso traz uma outra visão ao movimento.

E salienta que é “uma pessoa querida por todos”. “Uma vez estávamos a fazer um almoço e ela não estava lá… e eu tirei uma foto em que estavam os trabalhadores, estávamos todos numa pausa, a almoçar. E eu estava-lhe a mandar por mensagem as fotos, com mensagens a perguntar ‘onde é que tu andas? Que estamos aqui todos a divertirmo-nos’, recorda o dirigente. “E ela responde: ‘Nunca mais voltam a marcar coisas sem eu saber, que eu também quero participar!'”. Era uma “raiva” fingida, claro. Que deixa saudades.

“A Isabel hoje sai, mas os trabalhadores daqui de Lisboa querem marcar um almoço de despedida com ela, para estarem com ela mais uma vez em confraternização. É uma pessoa muito querida por todos”, conclui.

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