“O que foi anunciado é um avanço, mas podemos ir mais além e aguardamos pormenores oficiais”, comentou Ricardo Bramão, diretor da Aporfest – Associação Portuguesa de Festivais de Música. Também numa primeira reação ao calendário de desconfinamento anunciado esta quinta-feira pelo Governo, Álvaro Covões, da produtora Everything is New, afirmou que “finalmente há um projeto de retoma da atividade e de abertura gradual”. “É uma luz ao fundo do túnel e só espero que o túnel não seja muito comprido”, referiu Álvaro Covões, responsável pelo festival NOS Alive.

O “plano de transição do estado de emergência para o estado de calamidade” foi apresentado pelo primeiro-ministro a meio da tarde desta quinta-feira, em conferência de imprensa a seguir a um Conselho de Ministros no Palácio da Ajuda, em Lisboa. O plano deverá sair sob a forma de diploma nesta sexta-feira em Diário da República. Minutos antes de António Costa ter falado, o ministro da Economia, Pedro Siza Vieira, já tinha adiantado na Assembleia da República as datas principais da reabertura da economia.

À noite, o primeiro-ministro acrescentou em entrevista à RTP que “há uma grande probabilidade de [os festivais de verão] não se realizarem”. Costa disse que pode haver uma transição dos festivais para espaços com lugares marcados, como um estádio de futebol. “Se estiver cada um na sua cadeira, o risco obviamente é menor”, afirmou.

Os promotores destes eventos falaram com o Observador antes da entrevista de Costa à RTP e não foi possível um segundo contacto. Apenas João Carvalho, da produtora Ritmos, que organiza o Primavera Sound e o Paredes de Coura, disse primeiramente que aguarda “com expectativa” as novidades governamentais da próxima semana e mais tarde acrescentou, perante as afirmações do primeiro-ministro na estação pública: “Se houver condições, fazemos os festivais, se não, não fazemos. Somos pessoas sérias e responsáveis.” Por enquanto, o Paredes de Coura mantém-se agendado para 19 a 22 de agosto.

É o seguinte o calendário para a retoma planeada pelo Governo na área cultural:

  • 4 de maio (próxima segunda-feira): reabrem bibliotecas e arquivos; lojas de rua com área até 200 metros quadrados, incluindo as livrarias;
  • 18 de maio: lojas de rua até 400 metros quadrados; monumentos nacionais; museus públicos e galerias de arte; jardins de museus;
  • ao longo do mês de maio: “proibição de eventos ou qualquer ajuntamento que envolva mais de 10 pessoas”;
  • 1 de junho: salas de cinemas, salas de teatro e auditórios, mas com “lugares marcados, lotação reduzida e distanciamento físico adequado”; lojas com mais de 400 metros quadrados e lojas de centros comerciais.

O primeiro-ministro disse na conferência de imprensa que apesar da reabertura a partir de 4 maio devem ser observadas “regras de disciplina e autocontenção”, como o distanciamento social, e que pretende tornar obrigatório ao uso de máscaras faciais em “locais fechados onde haja elevado número de pessoas”.

Especificamente sobre a cultura, reconheceu que este foi “dos primeiros setores encerrados” no contexto das medidas de contingência face à pandemia do novo coronavírus e que é também um dos setores “mais duramente atingidos”.

No que respeita aos festivais de música, cujos principais promotores foram recebidos nos últimos dias pelo Presidente da República e pelo Governo, só na próxima semana vai ser feita uma avaliação, acrescentou o chefe do executivo. Tudo indica, porém, com base na informação conhecida nesta quinta-feira, que pelo menos durante maio não podem realizar-se quaisquer eventuais musicais de massas, devido, precisamente, à proibição de aglomerações de mais de 10 pessoas.

Tendo em conta a abertura moderada de salas de espetáculos prevista a partir de 1 de junho, Ricardo Bramão acrescentou que a partir daí os festivais “deixam de estar impedidos de acontecer, porque nem todos são fora de portas e nem todos envolvem multidões”. Deu como exemplo o festival Dancefloor, em Braga, previsto para 24 e 25 de julho. “É um festival dentro de portas e pode acontecer se cumprir as novas normas”, interpretou o diretor da Aporfest, descrita como a organização mais representativa da área dos festivais de música em Portugal, com mais de 600 associados.

Salvador Sobral esteve em 2018 no EDP Cool Jazz

Karla Campos, diretora do festival EDP Cool Jazz, mostrou-se “desiludida” por não terem ainda sido divulgados pormenores sobre os festivais. “Era muito importante que pudéssemos ter algo concreto, até para transmitirmos essa informação ao nosso público e aos artistas que temos em cartaz. Percebo que para o Governo também seja difícil dizer mais por agora, mas precisamos mesmo de decisões concretas”, sublinhou.

A edição de 2020 do EDP Cool Jazz não foi cancelada, como aconteceu com muitos outros festivais. Continua a ter 3 de julho como primeira data, ao ar livre em Cascais, mas segundo Karla Campos “o cancelamento é uma hipótese em cima da mesa”. Transferir o festival para um auditório fechado, onde possam ser observadas regras de distanciamento entre espectadores, “descaracterizaria o festival e o seu modelo financeiro”.

Álvaro Covões notou que “é preciso aceitar com tranquilidade uma abertura faseada” do país. “Pessoalmente, sempre defendi desde o início desta crise que tínhamos de retomar a nossa economia e os nosso trabalhos. Os próximos passos em relação aos festivais serão sempre baseados em decisões de saúde pública, não apenas na vontade política. As notícias para já são boas. Estamos à espera de respostas e vamos tê-las, porque há um compromisso entre o Governo e os promotores”, afirmou, em referência às conversas desta semana com o Governo. A Everything is New participou numa reunião na terça-feira como membro da APEFE – Associação de Promotores de Espetáculos, Festivais e Eventos, cujos 40 associados consideram representar 90% dos bilhetes para espetáculos vendidos em Portugal.

Contactada, a assessoria de imprensa da promotora Música no Coração, responsável pelos festivais Super Bock Super Rock e MEO Sudoeste, transmitiu ao Observador que é cedo para fazer comentários. O mesmo aconteceu com a Sons em Trânsito, gestora do Teatro Capitólio, em Lisboa.

“Neste momento, qualquer abertura abertura é um ato cívico”, no entender de Paulo Branco, da Medeia Filmes

Paulo Branco: “Menos de um terço não compensa”

Na área do cinema, com as salas a poderem reabrir de forma condicionada a 1 de junho, o empresário Paulo Branco, da Medeia Filmes, adiantou ao Observador que no dia 10, Dia de Portugal, o Cinema Nimas, em Lisboa, voltará a ter portas abertas. Quanto às outras salas da Medeia espalhadas pelo país (Setúbal, Figueira da Foz, Coimbra), “tudo depende ainda de decisões das autarquias, porque operamos em parceria”, disse.

“É bom saber que em junho já estaremos a funcionar, mas agora é preciso saber qual a capacidade mínima que o Governo autoriza. Sabemos que temos de abrir com todas as precauções, mas menos de um terço da capacidade não compensa. Aliás, neste momento qualquer abertura é mais um ato cívico do que outra coisa, porque em termos financeiros não teremos grande retorno. As pessoas não vão ganhar já amanhã a confiança necessária  para um regresso ao cinema”, comentou Paulo Branco.

Rui Galveias, coordenador do Sindicato dos Trabalhadores de Espetáculos, do Audiovisual e dos Músicos (CENA-STE, afeto à CGTP) afirmou que são duas as “grandes preocupações” da estrutura. “Uma é garantir que a retoma será feita com toda a segurança e cuidado, para que os trabalhadores e o público não contribuam para o descalabro da epidemia. As salas de teatro e cinema têm de ter planos de contingência adequados. A outra preocupação é que esta reabertura dos teatros e dos cinemas, que queremos muito, não pode fazer esquecer que muito trabalhadores continuam sem trabalho. Houve redução de pessoal no plateau de produções de cinema e televisão, há muita gente em lay-off e as companhias independentes não têm trabalho no imediato”, disse.

Sabe-se, porém, que o teatro Nacional D. Maria II e o Teatro da Trindades, em Lisboa, não tencionam voltar à atividade normal já a 1 de junho, disseram os respetivos diretores artísticos à agência Lusa, na quinta-feira à noite.

Segundo Rui Galveias, está marcada para terça-feira, dia 5, uma reunião do CENA-STE com a ministra da Cultura, Graça Fonseca, onde o sindicato apresentará “um plano de emergência de curto e de médio prazo”, bem como “reflexões sobre problemas estruturais do setor da cultura, que continua com uma grande maioria de trabalhadores debaixo de uma situação desgraçada”.

Quanto ao setor do livro, a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL) informou em comunicado na quinta à tarde que as livrarias podem reabrir a 4 de maio “independentemente da sua dimensão, ou seja, mesmo aquelas com uma área superior a 200 metros quadrados”. O horário de abertura “tem que ser após as 10h00 da manhã”. A informação da APEL resulta de uma reunião com o Ministério da Cultura, de acordo com o comunicado. “Uso obrigatório de máscaras e manutenção do distanciamento social de dois metros” são outras das regras.