Os empresários norte-americanos auscultados pela Reserva Federal (Fed) não compartilham o otimismo do governo de Donald Trump quanto a uma rápida recuperação da economia, a partir deste verão.

A Fed divulgou na quarta-feira o seu habitual ponto de situação sobre a economia norte-americana, designado por “Beige Book” (Livro Bege), que assenta nos contactos realizados pelas suas antenas nas 12 regiões em que dividem os EUA.

O documento detalha os estragos económicos causados pela pandemia do novo coronavírus, em abril e maio, quando também foram aprovadas medidas para lhes procurar responder.

Em mais este número do Livro Bege aponta-se que, “se bem que muitos contactos expressaram esperança de que a atividade económica em geral se vai reforçar com a reabertura das empresas, as perspetivas continuam muito incertas e a maior parte dos contactados está pessimista sobre o eventual ritmo da recuperação”.

Mesmo com a assistência da Fed e do apoio do Congresso, de cerca de três biliões (milhão de milhões) de dólares (2,7 biliões de euros), a economia entrou em forte crise e viu a taxa de desemprego subir até aos 14,7% em abril, no que é o maior valor desde a Grande Depressão dos anos 1930.

Medida pelo produto interno bruto (PIB), a economia conheceu uma contração de 4,8% no primeiro trimestre, em termos anualizados, e há economistas que já previram uma queda recorde de 40% neste segundo trimestre.

Sobre o eventual regresso dos trabalhadores que estão em layoff (redução temporária dos períodos normais de trabalho ou suspensão dos contratos de trabalho efetuada por iniciativa das empresas, com correlativos efeitos salariais), os empresários apontaram vários desafios, como “estado de saúde dos trabalhadores, acesso limitado a creches e subsídios de desemprego generosos”.

Desde que começou a atual pandemia, o banco central cortou a sua taxa de juro de referência para um mínimo histórico próximo de zero e colocou milhares de milhões de dólares no sistema financeiro, para garantir um fluxo ininterrupto de crédito.

A Fed apontou que as despesas de consumo caíram acentuadamente devido ao encerramento obrigatório de muitos estabelecimentos retalhistas, decisão que se mantém. As vendas de automóveis também se reduziram fortemente em relação às de há um ano.

O relatório da Fed referiu ainda um acentuado declínio na indústria norte-americana, com débeis produções, nomeadamente nos ramos relacionados com os setores de automóvel, aeroespacial e energia.

A economista Ksenia Bushmeneva, da TD Economics, considerou que este Livro Bege apresentou “um retrato negro de uma atividade económica em queda livre nos EUA”, durante o período considerado, até 18 de maio.

Apesar de o pior, em termos de encerramentos, já dever ter passado, tirar a economia da crise vai levar algum tempo, uma vez que a taxa de recuperação vai variar através dos Estados e das indústrias”, previu.

O banco da Fed em Boston informou que os seus contactos na indústria hoteleira indicaram uma quebra na taxa de ocupação de 80% na área da Grande Boston, em abril, devido ao cancelamento de várias convenções. No total, o número de noites perdidas é estimado em 200 mil.