Apresentado em Dezembro de 2017, o Senna surpreendeu por duas razões. Primeiro, porque nada fazia antever, nessa altura, que a McLaren abraçaria um projecto deste tipo para ampliar a sua gama de modelos. Segundo, porque o desportivo de Wooking enaltece uma configuração estética radical com uma mecânica e uma aerodinâmica a condizer, assumindo-se como uma “máquina infernal” que se presta a uma utilização quotidiana. Ou, escrito de outro modo, como um carro projectado para as pistas, mas que está autorizado a “passear” os seus 800 cv e 800 Nm de binário na via pública.

Na revelação do coupé, a McLaren tratou de explicar aos jornalistas que esta criação surgia em homenagem ao tricampeão brasileiro de Fórmula 1 Ayrton Senna. O fabricante britânico disse ainda que o Senna tinha sido projectado tendo em vista uma utilização em circuito, mas dotado com os requisitos necessários para que fosse matriculável.

Sabe-se agora que, por detrás destas explicações, há uma outra verdade que a McLaren não revelou e que, na prática, explica a dupla surpresa gerada pelo lançamento do Senna. O superdesportivo, de produção limitada a 500 unidades, cujas entregas se iniciaram em finais de 2018, foi a saída mais airosa para um projecto gorado, segundo informações avançadas pelo canal de YouTube ISSIMI.

Com o nome de código P15, o projecto que viria a dar origem ao Senna terá nascido com outras motivações: a McLaren pretendia não construir um modelo de estrada, mas sim um carro de competição. Mais, teria o específico propósito de vencer as 24 Horas de Le Mans, tal como outrora o fez com o F1. E daí a sua “estranha” imagem, no sentido em que parece estar divorciada das linhas da restante gama. Com efeito, o enfoque original da marca era construir um carro para vencer na corrida mais famosa do mundo, potente, mas também terrivelmente eficaz. E isso explica a subordinação das formas do Senna à aerodinâmica. Recorde-se que o desportivo britânico atinge 335 km/h e supera os 0-100 km/h em apenas 2,8 segundos, cortesia não só de um V8 biturbo de 4,0 litros, mas também de um peso-pluma e de um pacote aerodinâmico extremamente apurado. A ponto de conseguir gerar 800 kg de downforce a 250 km/h – um valor que impõe respeito num veículo com apenas 1198 kg a seco.

Sucede que o P15 ficou pelo caminho. A marca desistiu de fazer o carro de competição, mas não quis deixar de aproveitar o trabalho que já tinha desenvolvido. Em boa hora tomou semelhante decisão, pois de contrário não haveria na estrada tão radical desportivo – embora este tenha uma certa propensão para arder…  Aliás, de acordo com as revelações no vídeo que pode ver abaixo, embora o Senna tenha um ADN 100% de pista, essa sua genética teve de ser acalmada, tratando-se de um desportivo apto a rodar em estrada aberta. A asa traseira activa será, talvez, o exemplo mais revelador do redireccionamento do projecto, pois teve de ser modulada para… não partir a suspensão, tal é a carga aerodinâmica capaz de gerar.