Enquanto muitos se perguntam sobre o que vai acontecer às semanas da moda, as grandes capitais começam a abrir a agenda e a marcar a abertura da nova temporada. Na última terça-feira, o Council of Fashion Designers of America (CFDA) anunciou as datas para a próxima edição da Semana de Moda de Nova Iorque. A notícia fica marcada pelo encurtamento do calendário — vão ser três dias reservados às coleções do próximo verão, em vez dos dez ocupados pela última edição, em fevereiro.

Abreviado, o evento fica assim marcado para 14, 15 e 16 de setembro, com possibilidade de se estender por mais um dia caso seja necessário, segundo comunicou a organização. A substituição das plataformas físicas pelos formatos digitais e as precauções de saúde pública são os argumentos usados pelo CFDA para justificar a decisão.

Designers unem-se para ajustar semanas da moda. “Não vamos desperdiçar esta crise”

“Conseguimos ter a mesma quantidade de apresentações nestes três dias, uma vez que não precisamos de calcular intervalos entre desfiles para deslocações”, explicou Mark Beckham, responsável por marketing e eventos da organização, ao WWD. Quanto ao formato dos desfiles, a única certeza parece ser a de que estes não terão público no local. Nas próximas semanas, o CFDA estará a desenvolver uma plataforma que permita a marcas e designers (excecionalmente, também aos que não fazem parte desta estrutura) divulgar materiais das coleções e assim aumentar o alcance das apresentações.

Estas alterações ao calendário da Semana de Moda de Nova Iorque são, no entanto, provisórias. O futuro do evento a longo prazo continua incerto. O mesmo responsável prevê que alguns designers possam ficar ausentes desta edição, devido ao impacto negativo da pandemia nos seus negócios. Marc Jacobs poderá enfrentar algumas dificuldades em estabilizar as vendas da sua marca, propriedade da LVMH. Michael Kors já mostrou vontade de apresentar a coleção num evento isolado em outubro.

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Próximas paragens: Londres, Milão e Paris

Em setembro, esta será a primeira das quatro mais importantes semanas da moda mundiais. Londres é a paragem seguinte. À CNN, a organização afirmou que a edição de setembro se mantém e que o plano é torná-la um evento híbrido, com eventos físicos e apresentações em formato digital. No panorama londrino, a Burberry já manifestou o desejo de realizar um desfile convencional ao ar livre, que será transmitido em direto.

Ainda sem datas, a capital inglesa não parte do zero. Há cerca de duas semanas, converteu a semana de moda masculina num evento puramente digital. Através de uma plataforma criada para o efeito — uma espécie de Netflix com vídeos e imagens — foram os nomes menos conhecidos a destacar-se nesta montra inédita. As suas performances e colaborações falaram mais alto, numa semana de moda que praticamente não girou em torno da roupa.

A dupla portuguesa Marques’Almeida apresentou a coleção cápsula de edição limitada reM’Ade, com peças feitas a partir de restos de tecidos © Instagram

Enquanto isso, a capital da moda italiana quer voltar a montar uma passerelle convencional, depois de também ela ter optado pelas plataformas digitais para apresentar as coleções masculinas. O evento irá decorrer entre os dias 14 e 17 de julho e incluirá um desfile da Dolce & Gabbana com cerca de 200 pessoas a assistir. A mesma marca já anunciou um segundo desfile ao vivo para o início de setembro em Florença, durante a Pitti Uomo.

“A semana de moda digital nasceu como resposta ao distanciamento social e às restrições nas viagens impostas pela situação de saúde global”, afirmou Carlo Capasa, presidente da Camera Nazionale della Moda Italiana, em comunicado. Uma ferramenta pensada para apoiar o calendário tradicional e não para substitui-lo, segundo o mesmo responsável, que admitiu que a componente digital irá complementar os desfiles.

Antes disso, também em solo italiano, desfila a coleção cruise da Dior. O evento estava inicialmente marcado para o dia 7 de maio, na ilha de Capri. Na sequência da pandemia, foi adiado para 22 de julho. Sem público, vai ter lugar na região de Puglia.

Em Paris, a disposição é semelhante. A edição digital da semana de moda masculina arranca no dia 9 de julho e, durante cinco dias, serve de palco a quase 70 marcas e criadores, que apresentam as suas propostas para o verão de 2021. O rol inclui nomes incontornáveis da moda francesa como Louis Vuitton, Isabel Marant, Balmain, Loewe, Dior e Hermès. Esta última antecipa-se e, já no próximo domingo, transmite uma performance artística com o cunho da maison e em colaboração com encenador Cyril Teste.

O primeiro desfile de uma era ou o dia em que a Chanel trocou Capri por um estúdio em Paris

Sem Saint Laurent mas com uma nova plataforma digital de apoio às apresentações físicas, o calendário dedicado à moda feminina regressa de 28 de setembro a 6 de outubro. Numa entrevista ao Business of Fashion, Bruno Pavlovsky, presidente da Chanel, reafirmou o desejo de retomar o calendário de desfiles convencional, muito antes de a Fédération de la Haute Couture et de la Mode se ter pronunciado sobre o tema. Ao que tudo indica, vai mesmo acontecer.

As semanas da moda portuguesas

A pouco mais de três meses da próxima edição, a ModaLisboa concentra esforços no desenvolvimento das plataformas digitais. “Em sintonia com a movimentação das semanas de moda internacionais, a ModaLisboa está a fortalecer a sua aposta no digital, na experiência imersiva e na transmissão de emoção, mesmo que à distância”, refere Eduarda Abbondanza em declarações ao Observador.

Contudo, o evento não planeia abdicar de “momentos físicos” na cidade, que deverão manter-se, embora com menos público e ainda sem local confirmado. “O formato final destes momentos dependerá sempre da evolução da pandemia em Portugal, e em Lisboa, em particular”, remata a presidente da ModaLisboa.

Apresentação da designer Susana Bettencourt na última edição do Portugal Fashion © Ugo Camera

Ainda sem uma data fechada, mas também em outubro, o Portugal Fashion vai regressar à Alfândega do Porto. Ao Observador a organização afirma não ter ausências a registar no habitual alinhamento de criadores, admitindo que alguns deles possam optar por apresentar a coleção outono-inverno 2020/21, uma vez que a edição de março foi suspensa após o primeiro dia de desfiles.

Juntamente com marcas e designers, o Portugal Fashion está a trabalhar em formatos alternativos para apresentar das coleções, sempre com acesso limitado por parte de público e profissionais. O concurso Bloom vai realizar-se seis meses depois do previsto. Tal como na última edição, desfiles e apresentações serão transmitidos online.