Por si só é inofensivo, mas quando associado a outras substâncias e em contacto com calor pode ser explosivo — e até já foi usado em vários atentados no mundo ao longo dos anos. O nitrato de amónio, a substância que poderá estar na origem das explosões desta terça-feira em Beirute, no Líbano, costuma ser utilizado como fertilizante e está acessível comercialmente.

“É um sal que é muito utilizado para fins não explosivos. Talvez 80% da sua produção seja usada para fertilizantes“, explica Mário Calvete, professor de Química da Faculdade de Ciências e Tecnologia de Coimbra, à Rádio Observador.

Professor de química sobre explosão em Beirute. “O nitrato de amónio não explode sozinho”

“Não é muito fácil” encontrar esta substância no formato em que estava armazenada no porto da capital libanesa — que o docente descreve como “uns grãos relativamente grandes” — mas é possível encontrar nitrato de amónio “em qualquer farmácia agrícola” em Portugal. “Não está à venda na sua verdadeira pureza, mas está à venda, é facilmente obtido.”

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Esta substância torna-se perigosa quando em contacto ou com outras substâncias ou com “fontes de ignição” ou com calor. “Às vezes a própria chama não é suficiente para provocar a ignição do nitrato de amónio. Como é muito utilizado em fertilizantes, obviamente que teríamos que  ter grandes cuidados nas explorações agrícolas para manusear e não é necessário nenhum cuidado especial para o manusear”, acrescenta o docente.

Ele não explode por si próprio, isso é impossível. Tem de estar muito mal armazenado para poder explodir por si próprio”, indica ainda Mário Calvete

O nitrato de amónio é, aliás, considerado um “percursor” por se tratar de uma “matéria-prima” na fabricação de explosivos, explica o capitão João Cordeiro, comandante do Centro de Inativação de Explosivos e Segurança em Subsolo da Unidade de Intervenção da GNR ao Observador.

Obviamente que têm de ser adicionados outros ingredientes para que a substância, que por si só não é explosiva, se transforme numa explosiva ou que origine uma mistura explosiva.”

Mário Calvete diz que esteve a observar as imagens do momento da explosão e está em crer que estaria a decorrer um incêndio nas proximidades do local onde estariam 2.750 toneladas de nitrato de amónio, admitindo que possa mesmo ter ocorrido uma explosão. Esta substância quando, em contacto com outras que sejam “mais quentes”, pode levar à produção de gases e isso a ocorrer dentro de um espaço fechado como um armazém, seria “suficiente” para provocar a destruição a que se assistiu esta terça-feira.

O docente da Faculdade de Ciências e Tecnologia de Coimbra faz mesmo um paralelismo com uma fuga de gás numa casa. “Se estiverem todas as janelas abertas, o gás é relativamente inócuo, mas se as janelas estiverem fechadas, ganha uma concentração que basta uma pequena faísca para tornar o gás explosivo.”

João Cordeiro destaca ainda outro elemento que pode ter facilitado as explosões: a humidade. Isto porque o nitrato de amónio “tem uma enorme capacidade de captar água” e se a humidade se entranha na substância, pode levar à sua “decomposição”, tornando-a “mais suscetível” quando em contacto com outros elementos, “como o cobre”. “[Isso faz] com existam reações químicas que dão origem a substâncias que podem ter grande sensibilidade ao impacto e ao calor e originar uma explosão“, explica o comandante da Unidade de Intervenção da GNR.

Seria necessário um conjunto de fatores para haver detonação

João Cordeiro sublinha que se trata de meras suposições e que só quando estiver concluída a investigação  — que, segundo as autoridades políticas libanesas, deverá ocorrer nos próximos cinco dias —  ao que efetivamente aconteceu é que será “sensato dizer algo mais preciso”. “Não temos a confirmação das quantidades, das substâncias e de outros fatores”, afirma o capitão.

Com base nas suposições que se levantam, teria de estar reunido um conjunto de situações muito particulares para originar uma detonação.”

“A explosão de que estamos a falar será uma explosão química de uma dimensão muito grande, que tem uma série de efeitos associados, nomeadamente uma onda de choque, com projeções e fragmentações originadas por essa explosão, um efeito térmico e luminoso e até outros efeitos como produção de gases e de fumos”, refere o comandante da GNR.

Uma onda de choque, acrescenta João Cordeiro, que “até sugere em dado momento um cogumelo” e que pode ter efeitos “maioritariamente aéreos”, mas também no solo e subaquáticos, provocando danos estruturais “a altas distâncias”. Estas explosões provocaram um sismo de magnitude 3.5 na escala de Richter e foram ouvidas e sentidas no Chipre, que está “a mais de 200 quilómetros de distância, via Mediterrâneo”, refere a Al Jazeera.

Quantos aos gases, esses poderão ser tóxicos. Segundo Mário Calvete, apesar de o nitrato de amónio não ser tóxico, o mesmo já não se pode dizer dos gases provocados por estas explosões e chama a atenção para a nuvem de cor “avermelhada”, que surge nas imagens, e que decorre do facto de a substância ter sido aquecida “repentinamente”.

“O nitrato de amónio se for aquecido suavemente, decompõe-se em gases que não são tóxicos. O problema é quando se decompõe em gases mais tóxicos, como o dióxido de nitrogénio, que foi o que aconteceu neste caso, que é um gás vermelho”, indica o especialista em Química. Esses gases vão viajar “durante algum tempo pela atmosfera” e “muito provavelmente” irão provocar chuvas ácidas.

TOPSHOT-LEBANON-BLAST

A nuvem “avermelhada” de que fala Mário Calvete

Do atentado em Oklahoma ao de Anders Breivik em Oslo

De acordo com Mário Calvete, não é comum haver uma concentração tão grande de nitrato de amónio. Aliás, qualquer quantidade acima de uma tonelada “tem de ser vistoriada de mês a mês”, considera o professor universitário. “Menos do que isso é arriscado.”

Ainda assim, o especialista em Química não acredita que as explosões no porto de Beirute tenham sido provocadas por um atentado e recorda o incidente que ocorreu em 2015, no porto da cidade Tianjin, na China, e que fez mais de 100 mortos.

À data, o Ministério de Segurança Pública chinês adiantou que o armazém onde se deram várias explosões continha três mil toneladas de químicos, entre eles 800 de nitrato de amónio.

Armazém em Tianjin tinha 3.000 toneladas de produtos perigosos

Um outro acidente com esta substância foi o que ocorreu, em 2001, numa fábrica de produtos químicos em Toulouse (França), que fez 31 mortos e que, à semelhança do que aconteceu em Beirute, provocou um sismo de 3.2 na escala de Richter.

Já João Cordeiro recorda atentados terroristas onde foi utilizado o nitrato de amónio. Foi o caso do ataque a um edifício federal em Oklahoma, nos Estados Unidos, em 1995 e que provocou a morte a 168 pessoas. Timothy McVeigh, autor do atentado que foi executado em 2001, utilizou uma bomba com anfo, uma “mistura explosiva” de nitrato de amónio com gasóleo.

Em 2009, a ETA recorreu ao amonal, que resulta da “junção de nitrato de amónio com alumínio”, para um atentado contra um quartel da Guardia Civil. A bomba, segundo o El País, foi colocada numa viatura e não fez vítimas mortais.

O capitão indica ainda que Anders Breivik, em 2011, utilizou nitrato de amónio e “uma outra substância combustível” para a bomba colocada junto a um edifício governamental em Oslo, na Noruega. Este atentado fez 8 mortos, além das 69 pessoas que morreram na ilha Utoya.

UE regula comercialização de nitrato de amónio

Tendo em conta que se trata de uma componente que se obtém facilmente e que tem sido utilizada para fins criminosos, o comandante do Centro de Inativação de Explosivos e Segurança em Subsolo da Unidade de Intervenção da GNR refere que a União Europeia criou diretrizes, “que já se encontram implementadas no espaço europeu”,  de forma a “regulamentar a comercialização” do nitrato de amónio. Esta substância só pode ser adquirida “em concentrações muito reduzidas e que praticamente impossibilitam” o seu uso para atividades criminosas, além de que o comprador passa a ser “monitorizado”.

Isto limita logo muito a sua utilização para fins que não aqueles que se pretendem”, afirma João Cordeiro.

Mário Calvete, por sua vez, não acredita que exista em Portugal um local que tenha o volume de nitrato de amónio como havia no armazém em Beirute.