O relatório feito pelo Instituto de Segurança Social sobre o surto de covid-19 num lar de Reguengos de Monsaraz foi elaborado tendo como última informação a visita de fiscais da Segurança Social a 11 de março, antes de ter sido decretado o Estado de Emergência e antes dos problemas de contágios verificados na instituição, revela o Expresso.

Foi este documento que a ministra da Segurança Social, Ana Mendes Godinho, remeteu para a Procuradoria-Geral da República, depois de terem morrido 17 pessoas na Fundação Maria Inácia Perdigão Vogado da Silva, por Covid-19, um dos maiores surtos em lares no país. Entretanto, a contagem aumentou para 18.

O documento a que o Expresso teve acesso identificou pequenas falhas, mas notou que o lar cumpria a lei em termos de recursos humanos, respeitando “os indicadores definidos para esta resposta social”. O único problema identificado dizia respeito a um “défice de ajudantes de cozinha”.

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O caso motivou descoordenação dentro do Governo. A ministra do Trabalho, em entrevista ao Expresso a 14 de agosto, garantiu que tinha pedido apenas “informação e análise sobre toda a situação e sobre todo o histórico” do lar de Reguengos e que a sua preocupação “não tem sido apurar as responsabilidades dos surtos”.

Só que António Costa, em entrevista posterior ao semanário, a 22 de agosto, referiu-se ao documento no âmbito de um “inquérito” aberto por Ana Mendes Godinho: “No dia 12 de julho, [a ministra] mandou abrir um inquérito; recebeu-o no dia 14 e no dia 16 comunicou ao Ministério Público”, respondeu o primeiro-ministro. Confrontado com a aparente contradição, António Costa não conseguiu esclarecer. “Pois, não sei. Acho que tive mais sorte do que vocês na pergunta que fiz à ministra. Na pergunta que fiz à ministra, a resposta que me deu foi esta”, disse o primeiro-ministro.

A ministra da Segurança Social é ouvida esta quarta-feira – numa audição conjunta com a ministra da Saúde, Marta Temido, no parlamento, precisamente sobre a resposta dada pelo Estado nos casos de contágios nos lares de idosos.