O MillenniumBCP obteve 146,3 milhões de euros em lucros nos primeiros nove meses do ano, anunciou o banco esta quinta-feira. No período homólogo os resultados tinham superado os 270 milhões, pelo que existe uma redução de cerca de 45% – consequência sobretudo do facto de o banco ter reforçado imparidades em 173,6 milhões de euros (mais 46% do que no mesmo período de 2019). Apesar destes lucros, diz Miguel Maya, é uma rentabilidade dos capitais próprios inferior a 4% que “não deve preocupar os responsáveis políticos” (em resposta a uma questão do Observador sobre as palavras de Rui Rio, que considerou que os bancos terem “lucros avultados” este ano seria uma “vergonha” e uma “ingratidão” para com os portugueses).

Parte dessas imparidades está relacionada com a crise pandémica, com o banco a colocar de parte provisões para precaver incumprimentos relacionados com a crise, e também provisões relacionadas com a questão do crédito concedido na unidade polaca indexado a francos suíços. Em sentido contrário, o banco reduziu em 545 milhões as exposições a ativos não rentáveis (NPE) em comparação com o final de 2019.

Entre os 146,3 milhões de euros em lucros, 91,9 milhões foram obtidos em Portugal (-27%) e o restante nas operações internacionais.

O banco indicou, em conferência de imprensa na sede no Tagus Park, Oeiras, que fez chegar à economia cerca de 17.000 operações de linhas de crédito Covid-19, 32% de quota de mercado. A carteira de crédito performing, isto é, dos créditos que estão a ser cumpridos normalmente, aumentou em 2,4 mil milhões em comparação com setembro de 2019. “Foi um trimestre muito difícil, onde o banco demonstrou que tem uma capacidade de resiliência muito grande e estamos preparados para um trimestre que vai ser muito difícil e o nosso sucesso dependerá do sucesso dos nossos clientes”, disse o presidente do BCP.

A margem financeira baixou 0,3% “num contexto muito adverso”, disse Miguel Maya, presidente do BCP, na conferência de imprensa – 1.149,6 milhões de euros. E as comissões também tiveram uma quebra ligeira – 0,2% – para 518,1 milhões. E o mesmo para os custos operacionais (recorrentes), menos 0,1% para 805,0 milhões.

Sobre as moratórias, Miguel Maya diz 20% da carteira de particulares do banco está em moratória (e 80% fora da moratória). Destes, 91% têm a ver com credito à habitação e 9% de crédito pessoal. Já nas empresas, 17% está em moratória, dos quais 31% em setores mais vulneráveis ao impacto da pandemia. “Não é que não haja preocupação, fazemos um seguimento muito próximo mas temos confiança e conhecemos muito bem o portefólio da casa”, diz o presidente do BCP, recusando que o fim das moratórias seja um problema.

“O risco não está nas moratórias. O risco está em retirar os apoios aos clientes antes de a atividade económica retomar. Seria como tirar água antes de acabar o deserto”, disse Miguel Maya, repetindo a sua confiança de que “este deserto vai terminar: A ciência (vacina e tratamentos) vai resolver. A questão é quando”, confiou.

A bem da economia portuguesa temos de conseguir que as empresas sejam viáveis sejam apoiadas, e acontece o mesmo com as famílias. A economia vai recuperar. Não seria entendível que não fizéssemos um esforço para apoiar as famílias. Estamos cada vez mais confiantes de que as coisas vão melhorar, com a vacina e os tratamentos”.

Sobre o Novo Banco, Miguel Maya diz que não está concluído mas, sim, “está a ser analisado um empréstimo” ao Fundo de Resolução. “O BCP tem intenção de participar num empréstimo e não estamos a fazer favores a ninguém, estamos a fazer uma análise pela nossa própria cabeça e a avaliar o risco”, disse o presidente do BCP.

E, perante as sugestões do Bloco de Esquerda que os bancos entrassem diretamente no capital ou financiassem diretamente o Novo Banco, Miguel Maya foi taxativo: “Não estamos a equacionar nenhum financiamento do Novo Banco direto [sem passar pelo Fundo de Resolução]. Vi isso escrito mas nunca sequer foi abordado pela administração do BCP nem estou a ver como é que isso seria feito ou poderia resolver qualquer problema”.

Questionado pelo Observador sobre as palavras de Rui Rio, quando disse que seria um “insulto e uma vergonha” que os bancos tivessem “lucros avultados” este an, Miguel Maya recusa que se possa considerar estes lucros avultados. “Não creio que o dr. Rui Rio considerasse um ROE [return on equity] abaixo de 4% lucros avultados… Acho que não são estes níveis de rentabilidade que devem preocupar nenhum dos responsáveis políticos”, disse Miguel Maya.

“Não me passa pela cabeça que [um ROE de menos de 4%] seja a interpretação que possa ser dada, seria abusiva. Obviamente que se tivéssemos rendas e lucros, retornos elevados… nós estamos a falar de retornos que ficam abaixo do custo do capital para a banca”, argumentou o presidente do BCP. “E, portanto, seguramente que todos os responsáveis políticos que querem um sistema financeiro privado, forte, sabem que o sistema financeiro tem de ser rentável”, acrescentou. “Não são rentabilidades como estas que devem preocupar nenhum dos responsáveis políticos, seguramente”, rematou.

BCP com 125 mil créditos com moratória no final de setembro

O BCP tinha mais de 125 mil créditos a famílias e empresas com moratórias no final de setembro, envolvendo um valor total de empréstimo de quase nove mil milhões de euros, segundo o comunicado colocado pelo banco na CMVM.

Nas contas dos primeiros nove meses do ano, o banco liderado por Miguel Maya indicou que tem mais de 125 mil operações com moratórias, envolvendo créditos no valor total de 8,9 mil milhões de euros. Em 30 de setembro, o BCP tinha, em clientes particulares, 59.560 operações de crédito com moratória ao abrigo da lei do Governo e ainda 41.554 moratórias privadas (ao abrigo das regras da Associação Portuguesa de Bancos).

Ou seja, há mais de 101 mil créditos de particulares com moratórias que, no total, têm um valor de 4,2 mil milhões de euros, sendo 91% do valor referente a crédito à habitação. Já os créditos de empresas com moratórias são 23.909, envolvendo num valor total de 4,7 mil milhões de euros.