O Conselho Nacional do CDS aprovou este sábado o apoio à candidatura presidencial de Marcelo Rebelo de Sousa por 153 votos a favor, 34 contra e 28 abstenções. Uma vitória clara mas com travo amargo para Francisco Rodrigues dos Santos, que acabou duramente criticado por alguns dos pesos pesados do partido. De Adolfo Mesquita Nunes a Nuno Melo, foram muitas as vozes que lamentaram aquilo que consideram ser falta de visão estratégica da direção do partido ao não apresentar uma alternativa a Marcelo. Uma por uma, Rodrigues dos Santos foi tentando rebater as acusações e acabou com uma certeza: “Estou muito tranquilo com a estratégia que segui até aqui“.
Antes, durante as intervenções dos conselheiros, foi Nuno Melo a ser o mais violento nas críticas ao Presidente da República. De acordo com o que apurou o Observador, o eurodeputado do CDS aproveitou a reunião do órgão máximo do partido entre congressos, que decorreu por videoconferência, para apontar várias falhas a Marcelo, nomeadamente o facto de nunca ter hesitado “em andar de braço dado com António Costa“.
Se no plano da substância o mandato de Marcelo Rebelo de Sousa merece uma nota negativa, Nuno Melo não deixou de criticar também a forma como o Presidente da República exerce o seu papel. “Eu não gosto de ver o meu Presidente da República semi-nu, a banhos ou a levar vacinas”, chegou a dizer o eurodeputado, antes de acusar Marcelo de ter “convicções de plasticina“. “Não tenho entusiasmo nenhum com Marcelo Rebelo de Sousa.”
A intervenção do eurodeputado acabou por ficar marcada, aliás, por uma discussão com Filipe Anacoreta Correia, que conduzia os trabalhos. Melo escolheu como fundo do ecrã uma fotografia tirada durante um festival de música onde se viam Marcelo, Ferro Rodrigues e Fernando Medina. Anacoreta Correia advertiu o eurodeputado e pediu-lhe que retirasse a imagem e Melo acabou a queixar-se de estar a ser alvo de um “ato de censura deplorável“.
“Isto é o pior que pode acontecer a um partido político”
Adolfo Mesquita Nunes, antigo vice de Assunção Cristas, também não poupou críticas à atual direção do partido. Recorde-se que o democrata-cristão chegou a ponderar avançar com uma candidatura presidencial, recolheu apoio de algumas figuras ligadas ao PSD, Iniciativa Liberal e, inclusivamente do CDS, mas acabou por desistir da ideia assim que percebeu que a sua candidatura não agradava a Francisco Rodrigues dos Santos. “Não me passaria pela cabeça lançar uma candidatura contra a vontade da direção do meu próprio partido”, recordou este sábado.
Em maio, depois de tornada pública a intenção de Adolfo Mesquita Nunes de avançar com uma candidatura presidencial, membros da direção do CDS torceram o nariz à hipótese e apressaram-se a lançar alternativas que consideravam mais adequadas, como José Ribeiro e Castro, Bagão Félix, ou mesmo Manuel Monteiro, cujo processo de refiliação ainda não estava sequer concluído. Mesquita Nunes usaria esse desconforto por parte da direção para alegar, mais tarde, que não tinha condições políticas para avançar.
Chegados até aqui, e mesmo admitindo que o apoio a Marcelo é um ato legítimo, Adolfo Mesquita Nunes lembrou que o partido, nomeadamente Francisco Rodrigues dos Santos, passou os últimos meses a distanciar-se de Marcelo Rebelo de Sousa quando, afinal e à 25ª hora, veio a declarar o apoio ao atual Chefe de Estado. Tudo, acredita, por manifesta falta de opções e falta de preparação. “Isso é o pior que pode acontecer a um partido político: não ter alternativas“, lamentou.
Mesquita Nunes acredita que uma candidatura própria do CDS a Belém poderia “fazer crescer o partido” e “condicionar a candidatura do Chega“, partido que “humilha diariamente” o CDS. Não foi isso que aconteceu e o “CDS ficou a meio caminho”: sem candidato próprio e a apoiar um candidato que causa “desconforto” à base eleitoral do partido.
Uma posição semelhante, aliás, à de João Almeida, deputado do CDS e adversário de Rodrigues dos Santos nas últimas eleições internas. De acordo com o que apurou o Observador, o democrata-cristão repetiu várias vezes a pergunta: “Somos o único partido que não tem uma candidatura da sua área. Pergunto: enquanto partido, fizemos tudo para evitar isso? Estamos a discutir uma condenação e não uma opção.”
Para João Almeida, o CDS apresenta-se nas próximas presidenciais como um partido com “corda ao pescoço” ao lado de um candidato que “foi o homem da geringonça” e “protagonista do pântano” em que vive o país. “A grande figura da geringonça não é António Costa; é Marcelo Rebelo de Sousa. É uma figura central do pântano em que se transformou a democracia“, criticou o deputado.
“A direita democrática e popular não se pode rever neste pântano, nem pode deixar para os populistas a denúncia e a crítica a este pântano. Se o tivéssemos feito, certamente tínhamos conseguido gerar uma candidatura na nossa área política que combatesse o pântano, que representasse a direita democrática e popular e que, neste momento, nos desse a opção que não temos”, afirmou ainda.
“O CDS decidiu não se fazer representar”
Também Cecília Meireles, também deputada do CDS, fez um balanço negativo do mandato de Marcelo Rebelo de Sousa e lamentou o facto de o partido não ter optado por uma candidatura própria, sobretudo num contexto em que se precisa de afirmar à direita — Chega e Iniciativa Liberal terão candidatos próprios. Para a democrata-cristã, há um risco sério de a união das direitas acontecer sem o CDS. “E o partido deve meditar sobre a gravidade disso“, notou.
Sobre o argumento usado por alguns dirigentes do partido — o facto de ninguém da família do CDS ter manifestado o desejo de concretizar uma candidatura presidencial –, Cecília Meireles criticou aquilo que considera ser uma desculpa de mau pagador. “Uma direção dirige, conduz. Isto não era uma inevitabilidade“, afirmou a deputada, já depois de ter criticado a direção do CDS por ter tentando anular o debate sobre presidenciais discutindo a estratégia a pouco mais de um mês das eleições.
“Gostava de olhar para o boletim de voto nas presidenciais e me sentir representada, e isso não vai acontecer, e não vai acontecer porque o CDS decidiu não se fazer representar.”
Telmo Correia, líder parlamentar do CDS, também questionou outro dos argumentos usados pela direção para justificar este apoio: o facto de Marcelo ser católico. “Faz dele uma espécie de candidato ungido, levado pela fé“, ironizou o democra-cristão.
O deputado não deixou de lembrar que a decisão de apoiar Marcelo já tinha sido admitida por Assunção Cristas há um ano — o que lhe valeu muitas críticas internas. “Como é que levámos um ano para chegar à mesma conclusão a que ela tinha chegado?“, provocou Telmo Correia.
O líder parlamentar classificou o mandato de Marcelo, que se pôs numa posição de ser “permanentemente o defensor do Governo”, como uma “enorme deceção” “Que garantias recebemos de isto não será assim para um segundo mandato? À primeira caem todos; à segunda só cai quem quer.”
A defesa de Francisco Rodrigues dos Santos
No final, o líder do CDS tentou rebater todas as críticas que lhe foram dirigidas e para dizer que não tem “rigorosamente nenhuma dúvida” de que o partido deve apoiar Marcelo de forma “cabal“, questionando o que terá mudado assim tanto para que muitos no partido dissessem agora que o Presidente não fazia parte da família política do CDS.
Sobre a questão do calendário, e o facto de o CDS ter deixado para a segunda semana de dezembro o anúncio do apoio ao atual Presidente da República, Francisco Rodrigues dos Santos argumentou que fez aquilo que disse sempre que ia fazer: esperar pela definição de todos os candidatos, ouvir o partido e tomar uma decisão. “Seria muito estranho que estivéssemos a antecipar o calendário“, chegou a dizer.
Rodrigues dos Santos disse também que o partido teve de concentrar energias na campanha nos Açores e que não fazia sentido discutir presidenciais quando enfrentava umas eleições consideradas decisivas. O líder do CDS não resitiu, aliás, a fazer uma provocação aos críticos, que chegaram a dizer que os Açores era “um teste à liderança do partido”. “Superado“, acrescentou o democrata-cristão.
O democrata-cristão reconheceu que outras decisões seriam igualmente legítimas, mas chamou a si a responsabilidade. “Acontece que a direção do partido foi eleita em congresso por 65% dos votos“, recordou.
À acusação de Cecília Meireles, que tinha dito que a direção do partido estava a tentar “anular o debate” sobre as presidenciais, Rodrigues dos Santos lembrou que Assunção Cristas tinha manifestado o apoio a Marcelo ainda em 2o19 e sem consultar os órgãos do partido. E nessa altura, aqueles que agora o criticam, “não disseram rigorosamente nada” sobre o gesto de Cristas.
Em relação ao facto de se ter instalado a perceção de que o partido só apoia Marcelo porque foi incapaz de patrocinar uma candidatura própria, Rodrigues dos Santos desvalorizou a tese e defendeu que o “CDS estará do lado dos vencedores”. “Quem não tem candidato é o PS, não o CDS.”
O presidente do partido reservou largos minutos da sua intervenção final para responder a Adolfo Mesquita Nunes, que muitos no CDS apontam como a melhor alternativa a Rodrigues dos Santos. Ora, o líder do CDS repetiu que Mesquita Nunes “nunca informou, nem comunicou à direção do partido a sua vontade de ser candidato a Presidente“, nem “nunca esclareceu se queria ou não ser candidato”.
“Até julguei que fosse um boato. O que esperava é que viesse falar comigo. Mal seria que um presidente do partido andasse a fazer políticas com base em notícias de jornais”, disse.
Mesquita Nunes acabaria por descartar qualquer hipótese de avançar depois de ler na comunicação social que membros da direção do CDS não aprovavam uma eventual candidatura presidencial. E fê-lo em declarações ao Expresso, facto registado por Rodrigues dos Santos.
“Estranhei que Adolfo Mesquita Nunes tenha querido falar primeiro ao Expresso do que à direção do partido”, criticou o líder do CDS, repetindo várias vezes que era “mentira” que a direção do partido tenha vetado a possível candidatura de Mesquita Nunes.
Mesmo a terminar, Rodrigues dos Santos voltou a usar as palavras de Cecília Meireles para responder à deputada e aos demias críticos. “Cabe à direção dirigir, e é por isso que vamos apoiar Marcelo Rebelo de Sousa. É esta a posição de quem dirige.”