Quando Luís Valente, engenheiro eletrotécnico de 30 anos, ingressou no projeto da iLoF, já estavam quatro anos de caminho feito. Quatro anos de pesquisa e trabalho, que resultaram em “tecnologia pura”, explica ao Observador, mas sem ter aplicação no mundo real. “Havia a parte de laboratório, alguns resultados de deteção de nanoestruturas, principalmente na área dos microplásticos, mas não havia uma ideia de negócio para a iLoF (ou laboratório inteligente na fibra)”, conta.

A experiência profissional fê-lo passar por diversos desafios antes de ter a ideia para a startup portuguesa que o Financial Times selecionou como um dos sete negócios mais transformadores para a área da saúde em 2020 e que a base de dados CB Insights destacou como uma das 150 empresas mais promissoras da saúde digital.

Aos 18 anos, durante a licenciatura que tirou na Faculdade de Engenharia, da Universidade do Porto, começou pelo suporte técnico na área da tecnologia. Passou depois pela área das matérias primas brutas, cadeias de abastecimento e transitou de seguida para um papel mais comercial, construindo relações internacionais importantes, que seriam decisivas na experiência profissional. Foi nesse intermédio que surgiu a oportunidade de colaborar com o Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência (INESC-TEC).

“Foi a primeira vez que tive contacto com tecnologia da área da saúde, uma coisa com a qual não tinha experiência. Tive contacto com tecnologia portuguesa desenvolvida por doutorados, em áreas tão diversas como a saúde cardiovascular, ferramentas para ajudar no tratamento do Parkinson, e uma das tecnologias com a qual também contactei –- e que estava a ajudar a levar para o mercado –- era a iLoF”, lembra.

O projeto, que começou no trabalho das cientistas Joana Paiva e Paula Sampaio, e à qual se juntou a consultora estratégica Mehak Mumtaz, deu a Luís Valente a oportunidade de o pôr em movimento além do espaço do laboratório.

A equipa começou a trabalhar no projeto em segredo desde o início de 2019

“Acontece muitas vezes no meio académico teres uma ideia fantástica, mas não conseguires resolver o problema de negócio. Esta era uma tecnologia com resultados muito interessantes e que tive o prazer de tentar levar para o mercado”, contou ao Observador. Pelo meio, a startup tecnológica portuguesa Veniam fez-lhe um convite de trabalho “que não podia recusar”, mas Luís acabaria por deixar a posição na empresa sete meses depois para se dedicar inteiramente à iLoF.

“Operámos [com a iLoF] em stealth [em segredo] desde o início de 2019, mas fiquei para sempre ligado ao projeto. Em meados de 2019, fizemos um caminho de financiamento para a ideia, angariámos um pouco mais de 2 milhões de euros de um consórcio europeu, conseguimos o financiamento em junho de 2019 e é aí que começamos a operar sob o nome iLoF”, diz.

Startup nascida no Porto recebe 2 milhões de euros para combater a doença do Alzheimer

O objetivo da startup portuense que opera também em Oxford, no Reino Unido, é “mais do que tecnologia, tem a missão de mudar a forma como os tratamentos personalizados para doenças complexas são desenvolvidos e utilizados”, explicou o engenheiro português.

Inicialmente focado no combate ao Alzheimer, através da inteligência artificial e da fotónica, com um “sistema portátil” que serve de arquivo a “impressões digitais” e permite “testes rápidos e pouco invasivos, o projeto cresceu em importância e fez com que o plano se alargasse.

“Neste momento, já temos parcerias com alguns hospitais e empresas de Biotech em Portugal e não só. Estamos em condições de ajudar empresas no desenvolvimento de medicamentos personalizados. Portanto já não estamos só a desenvolver o produto, mas estamos em condições de criar impacto de mercado”, diz.

Volvido um ano desde o arranque, e mesmo sob as condicionantes da pandemia de Covid-19, o engenheiro garante que o balanço de trabalho é positivo. Em julho, a startup decidiu responder a um desafios dos seus parceiros clínicos e começou a adaptar a sua plataforma para prever a evolução clínica de pacientes infetados com Covid-19 em internamento hospitalar.

“Foi um ano horrível para muita gente, mas não posso deixar de reconhecer que foi um ano muito positivo para nós. Conseguimos as primeiras receitas com parceiros internacionais, conseguimos que empresas farmacêuticas paguem pelo que estamos a desenvolver. Foi o ano em que fizemos crescer a equipa e, acima de tudo, trouxemos para a empresa dois players que foram a Microsoft Ventures e a Mayfield, que permitiram que começássemos a trabalhar com hospitais e empresas de Biotech nos Estados Unidos”, diz.

Startup com ADN português capta 1 milhão de dólares de investimento da Microsoft e Mayfield

Em julho de 2020, a iLoF  fechou outra ronda de investimento, de um milhão de dólares (880 mil euros), com o fundo de capital de risco da Microsoft, o M12, e a investidora global Mayfield. O objetivo na altura era o de desenvolver um sistema de inteligência artificial que criasse uma biblioteca digital de biomarcadores de doenças, que assim ajudasse a encontrar uma cura para a doença de Alzheimer.

Impulsionados pelas várias distinções que receberam – Luís e Joana fazem parte da edição de 2020 da conceituada lista de 30 Under 30, da revista Forbes, que premeia jovens promissores; a distinção do Financial Times, que seleciona a iLoF como um dos sete negócios mais transformadores na área da saúde ou a distinção da CB Insights como uma das 150 empresas mais promissoras da saúde digital –, a iLoF tem, segundo Luís, planos ainda maiores para 2021, que começam com o recrutamento para várias posições.

“Dois mil e vinte foi um ano horrível para muita gente, mas não posso deixar de reconhecer que foi um ano muito positivo para nós. A iLof tem planos ambiciosos para possivelmente duplicar a equipa nos próximos 12 meses, e é por isso que estamos a recrutar para várias áreas, nomeadamente na data Science, IA, até mesmo na área da física e da biologia”, diz.

A iLoF (que quer dizer laboratório inteligente na fibra) tem sede no Reino Unido, em Oxford, mas implementou o centro de tecnologia no Porto. Também em 2020, foi a startup vencedora dFemale Founders Competition – um concurso promovido pelo M12, pela Mayfield e pela capital de risco de Melinda Gates, a Pivotal Ventures.  

A tecnologia da startup de Joana Paiva e Luís Valente deteta biomoléculas em nanoescala no sangue, que criam algo semelhante a impressões digitais óticas. Desta forma, consegue captar perfis biológicos e biomarcadores em nanoescala de utentes relacionados com várias doenças (que ficam na sua biblioteca digital), através de um trabalho conjunto com empresas de biotecnologia, farmacêuticas e hospitais.

*Tive uma ideia! é uma rubrica do Observador destinada a novos negócios com ADN português.