Uma reunião à porta fechada com um representante do poder local para chutar para o Governo central e socialista as responsabilidades de uma “má gestão da pandemia”. Foi assim que Tiago Mayan Gonçalves prosseguiu a sua campanha presidencial, esta quarta-feira. Mas a reunião não foi com um autarca qualquer: foi com Rui Moreira, presidente da Câmara Municipal da sua cidade — o Porto — e autarca a que o agora candidato presidencial esteve ligado, dado que fez parte do seu movimento “Porto, o Nosso Partido”. Os dois conhecem-se há vários anos.

A audiência na Câmara Municipal do Porto, à porta fechada, começou às 15h e durou perto de 45 minutos. Mas o dia começou pela manhã, tendo sido passado durante algumas horas na estrada, entre Lisboa e Porto. Refeito do debate da noite anterior com todos os candidatos na RTP, Mayan Gonçalves e a sua pequena equipa de campanha rumaram ao Norte. Foi já aí que almoçaram, num restaurante junto à Câmara Municipal do Porto, com tripas para retemperar as forças do candidato.

A recolha de votos de confinados: “O cenário é Kafkiano”

O contacto com a população não tem sido muito nesta campanha, até porque as ações de rua não têm existido — foram preteridas por declarações aos jornalistas e tomadas de posição do candidato. Mas ainda assim a campanha garante que começam a sentir-se os efeitos do mediatismo televisivo e dos debates: há eleitores que se aproximam para dizer “Tiago, vou votar sim”, afiança a candidatura, e acontece haver eleitores que param o carro junto àquele em que segue o candidato, no trânsito, ainda para estranheza de um advogado que se estreia numa primeira grande campanha política.

A Covid-19 tem dominado a campanha, até pelas anteriores tomadas de posição de um candidato que foi veemente nas críticas ao Governo pela insistência em decretar Estado de Emergência sem que ainda assim consiga conter os contágios e em medidas como o recolher obrigatório às 13h no fim-de-semana. O tema voltou a marcar a agenda do dia de Tiago Mayan Gonçalves, já que à saída da própria reunião o candidato dizia aos jornalistas o que se discutira na Câmara do Porto: “Foi uma reunião muito rica. O primeiro objetivo essencial foi perceber o que está a ser feito a nível autárquico e local no combate à pandemia, as medidas em concreto. E também perceber o que vai ser feito no contexto em específico das eleições que vão decorrer e outras considerações gerais”.

Três frases proferidas e era altura de partir para um ataque mais declarado ao Governo e, por conseguinte, ao Presidente da República — que para Tiago Mayan Gonçalves é conivente e compactua com as decisões de Costa:

Tornou-se claro hoje que têm sido as autarquias a fazer grande parte do esforço prático no terreno de combate à pandemia. A Câmara Municipal do Porto foi um exemplo nesse contexto, a fazer o que devia ter sido feito pelo Governo central: identificar os grupos de risco, focar-se neles e dar respostas adequadas e diretas para esses grupos de risco. Como por exemplo, os idosos”, afirmou o candidato.

Já sobre o processo de “recolha de votos para quem está confinado”, que acontecerá no início da próxima semana, “o cenário é Kafkiano”, defendeu o candidato apoiado pela Iniciativa Liberal. “O cenário implica o presidente da Câmara Municipal do Porto ter de saber na próxima segunda-feira que pessoas estarão confinadas, nas próximas terça-feira e quarta-feira ir a casa das pessoas, com outros, recolher votos, desinfetar-se, recolher mais votos… quem concebe isto por decreto não percebe como se faz no terreno”, acusou.

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Voltando a apontar ao Governo, tal como fizera no debate, uma “total impreparação” na forma como (não) preparou a segunda vaga da pandemia, Tiago Mayan Gonçalves defendeu que a solução tem de passar por “assegurar a quem está no terreno mais meios e capacidades para fazer isto. Isto está sempre a ser suportado pelas autarquias. O Governo central lavou as mãos deste assunto”.

Confrontado com haver autarquias que, ao contrário da Câmara Municipal do Porto, afirmaram ter meios e recursos humanos para fazer esta recolha de votos a idosos e eleitores confinados, Mayan Gonçalves lembrou que “recolher dez votos é diferente de recolher oito mil, dez mil ou 16 mil”. Os principais problemas, sugeriu, estarão nas grandes autarquias — e o Governo não lhes deu resposta. “Há aqui um problema de quem não sabe o que é o terreno: o Governo central“.

@ ESTELA SILVA/LUSA

As eleições foram “mal preparadas” e o Governo levou o país a um “ponto de não retorno”, defendeu Mayan Gonçalves. “Estamos nesta pandemia há já mais de dez meses, sabíamos que ia haver uma segunda vaga. E a total impreparação do Governo para perceber o terreno e estes tipos de problemas é um fator de risco e de preocupação”.

O MP a vigiar jornalistas: “É um atentado à liberdade de imprensa”, diz Mayan

Questionado pelos jornalistas, o candidato pronunciou-se ainda sobre a notícia de que o Ministério Público mandou vigiar jornalistas e acedeu a contas bancárias por violação do segredo de justiça, avançada pelo Observador: “É um atentado à liberdade de imprensa, ao direito constitucional, ao exercício da liberdade de imprensa. Tem contornos ainda mais graves porque implica vasculhar contas bancárias, estar a gravar jornalistas”.

Há uma inversão total do que deve ser um foco de investigação, que deveria ser os prevaricadores”, que violam o segredo de justiça, e não “quem está a exercer o seu direito à liberdade de imprensa”, apontou o candidato, acrescentando: “O precedente é gravíssimo no atentado ao direito constitucional, à liberdade de imprensa”.

Ministério Público mandou vigiar jornalistas e acedeu a contas bancárias por violação do segredo de justiça

Estado de Emergência: Mayan contra ataque à UberEats e “fixação de preços”

A posição de oposição ao Estado de Emergência da Iniciativa Liberal — partido que apoia Mayan e do qual o candidato é fundador — continua a dar que falar. Questionado pelos jornalistas, o candidato admitiu que “chegámos a um onto de estarmos entre a espada e a parede”, entre a destruição económica e a destruição da saúde pública, porque “o Governo falhou em toda a linha”.

Estamos há dois meses e meio em Estados de Emergência consecutivos. Não é por falta de Estado de Emergência que estamos neste ponto, é por clara impreparação do Governo. E aliás os sinais dos números apontam que não é o dia de Natal o problema. E provavelmente cenários como o de concentrar pessoas nas compras em meios fins-de-semana contribuiu”, referiu ainda Tiago Mayan.

Vincando que o país, além de uma crise de saúde pública, enfrenta também “uma destruição económica e social sem precedentes no nosso país”, Tiago Mayan Gonçalves apontou mira a medidas que lhe “escapa” como “podem ser necessárias”, como “a fixação de preços e determinação de taxas e comissões em plataformas de venda online, como a UberEats, a Glovo, esse tipo de plataformas. Qual é a necessidade destas medidas? Qual a necessidade que o Presidente da República sentiu em ampliar isto desta forma?”

Uma posição clarificada é a ausência de oposição a “efetivas medidas de confinamento que se demonstrem ser necessárias” — mas com alguns ses. “O fecho de restaurantes, cabeleireiros, lojas e ginásios tem o efeito de diminuir os efeitos da pandemia? Isto não está demonstrado. Mas sendo demonstrado — vamos supor que o é —, o que o Governo tem de fazer é cobrir o custo disso. A decisão do Governo de mandar confinar pessoas e fechar atividades tem de ser por si assumida. Esse custo tem de ser assumido pelo Governo”, defendeu.

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O candidato rematou explicando o que será a sua campanha daqui em diante e o que significa a expressão forte de que não fará nada que esteja vedado ao cidadão comum: “Milhões de pessoas vão ter de continuar a sair de casa, a andar de transportes públicos, a ir para as fábricas, a trabalhar. Farei uma campanha equivalente ao que o cidadão comum pode fazer: irei trabalhar — na minha campanha —, mas farei como o cidadão comum que também não pode marcar grandes jantaradas, marcar uma grande festa num espaço fechado, fazer ajuntamentos. Não vou fazer isso, vou trabalhar”.

A reação à exposição de Costa sobre o confinamento: “Parecia acabado de tomar posse”

Já durante a noite, o candidato da Iniciativa Liberal reagiu à exposição de António Costa com os detalhes do novo confinamento geral. Em conferência de imprensa num hotel no Porto, Mayan Gonçalves apontou: “Hoje ouvimos o Primeiro-Ministro a falar praticamente uma hora e parecia que tinha acabado de tomar posse. Parece que não foi este Governo que esteve a gerir este processo da pandemia e nos trouxe a um ponto entre a espada e a parede”.

Quem desde março por preconceito ideológico não usou os privados e o setor social da saúde? Quem perdeu o rasto às cadeias de contágio? Quem determinou o cancelamento de cirurgias e consultas? Parece que foi outro Governo, mas foi este”, rematou.

“Ouvimos o Primeiro-Ministro [PM] durante 50 minutos e não ouvimos uma assunção de responsabilidade pela situação em que estamos neste momento. Ouvimos as medidas de sempre, as que já temos tido, à espera de resultados diferentes. Continuamos a não ouvir o que tem de ser ouvido”, referiu ainda.

O candidato deixou também perguntas retóricas: “Quando é que [Costa] assume a responsabilidade das suas decisões, ao determinar confinamento de pessoas e atividades, restaurantes, cabeleireiros, ginásios, lojas? Qual vai ser a forma direta e sem burocracias de compensar estes negócios? Se não [for feito], vamos enfrentar a destruição económica e social”.

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Voltando a criticar a tomada de medidas sem dados substanciais de especialistas que as suportem, Tiago Mayan Gonçalves também ripostou, quando questionado sobre a realidade dos políticos terem de decidir hoje não tendo muita informação técnica sobre a pandemia: “Não é por falta de informação que não nos podemos focar em grupos de risco ou que podemos perder de vista a destruição económica e social”. É preciso, defendeu, “reorientar a estratégia de combate à pandemia” para se planear “o regresso à normalidade constitucional” e ser mais seletivo na ação, com um foco maior na proteção dos grupos mais vulneráveis e de risco.

Já sobre o impacto do alívio de medidas no Natal — apoiado pela Iniciativa Liberal — e a sua relação com o aumento de casos, recusou responsabilidades: “Não vou aderir à narrativa que a culpa é dos portugueses. Não vou aderir a isso. A decisão sobre o suposto desconfinamento do Natal foi tomada por este Governo”. E lembrou que foi o Governo que, nesse período, decretou o recolher obrigatórios aos fins-de-semana às 13h, concentrando a atividade de compras de Natal dos portugueses “em meios fins-de-semana“.