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Rui Rio não demorou muito tempo a dizer ao que vinha. Naquela que foi a sua primeira participação no congresso do Movimento Europa e Liberdade (MEL), a “Aula Magna da Direita”, o líder social-democrata foi claro: “Se isto fosse um congresso das direitas eu não conseguiria entrar. Teria sido barrado. O PSD não é um partido de direita.”

Rio chegou sensivelmente às 19h45 e, quando entrou no auditório do Centro de Congressos em Lisboa, foi recebido de forma efusiva por Pedro Passos Coelho, que assistia à tertúlia que ainda decorria. Ao contrário do que aconteceu com André Ventura, o antigo primeiro-ministro levantou-se e deu um abraço ao seu sucessor na presidência do PSD. Os dois trocaram algumas palavras de circunstância, com aparente boa disposição.

Na sua intervenção, Rui Rio começou por centrar-se nos problemas estruturais do país, nomeadamente o “brutal endividamento externo” e o “brutal endividamento público”, que toldaram o crescimento do país e conduziram Portugal à estagnação.

Segundo Rio, no entanto, o PS, que governo 14 anos desde o fim do cavaquismo (em 1995), continua sem querer aprender com o passado. “Temos de fazer diferente. Mas o PS não o faz. Na governação atual, o PS travou o défice. Mas como? Enganou o PCP e enganou o Bloco de Esquerda através das cativações”, criticou o líder social-democrata.

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Rio reconhece que Costa não quer reformar. Direita pergunta: “então” para quê insistir?

De resto, o presidente social-democrata voltou à bandeira de sempre: o país precisa de reformas estruturais e essas reformas só serão conseguidas se existir diálogo entre os dois maiores partidos do regime, PS e PSD. Sem nunca responder diretamente aos críticos e às críticas dos líderes dos outros partidos à direita, Rio fez a defesa da sua estratégia de construção de pontes. “Se formos mais ambiciosos, se quisermos ter outro país, temos de ter a consciência que temos de fazer reformas estruturais que ninguém consegue fazer sozinho.”

“A cultura dominante não é a cultura do diálogo democrático. Existe a ideia de que uma oposição forte nunca coopera, só diz mal, está sempre contra. E quando coopera tem de se tirar e pôr alguém que venha falar mais alto”, lamentou o social-democrata.

“O problema”, denunciou Rio, é que “o PS não quer reformar nada, o PS é a corporização do sistema”. Perante a crítica, houve quem, na plateia, soltasse um “então…!?”, sugerindo que era tempo de Rio abdicar da ideia de conversar com António Costa.

Rio não deixou de responder. “O PS não quer contrariar o discurso politicamente correto porque o politicamente correto é a arma do imobilismo. É obviamente muito difícil. Mas a luta não é virar as costas. António Costa não aproveita esta oportunidade para rasgar novos horizontes ao país. Mas é nossa obrigação tudo fazer”, insistiu.

Passos não quis comentar discurso de Rio, mas aplaudiu de pé

O líder social-democrata recuperou várias reformas estruturais que serão necessárias para ultrapassar os “equistamentos do regime”, nomeadamente da Segurança Social, do desenvolvimento do interior, para a política de natalidade, do sistema educativo, da Justiça e para revitalização do regime político.

No final do discurso, que Passos aplaudiu de pé, os dois, líder e antecessor, deixaram o centro de congressos de Lisboa juntos, trocando alguns comentários.

Questionado pelos jornalistas, o antigo primeiro-ministro escusou-se a fazer comentários sobre a intervenção do líder do PSD e disse, mais uma vez, que não queria ser “ator” neste congresso.