Na tarde em que iam demiti-lo, António Costa chegou com a sua mulher para esperar o carro em que chegava o Presidente da República. As últimas horas antes da demissão anunciada do seu Governo foram passadas ao lado de Marcelo Rebelo de Sousa, na homenagem a Mário Soares, nos 99 anos do seu nascimento e na cerimónia que marcou a reedição do “Portugal Amordaçado”, escrito em ditadura pelo antigo Presidente. O legado do fundador do PS serviu-lhe para defender o seu próprio legado, de criador da “geringonça”. Até avisou os “herdeiros putativos de Soares” que ele apoiou a geringonça e que foi a “firmeza dos princípios” que lhe permitiu manter a “autonomia estratégica do PS”, coligando-se com quem fosse.

Num PS numa disputa eleitoral interna e com apoiantes de ambos os lados no auditório da Gulbenkian, o lado pedrunista não tardaria a sublinhar o que ali ouvira — foram várias as mensagens e interpretações ouvidas pelo Observador logo depois de Costa ter falado. Afinal, o candidato Pedro Nuno Santos tem feito saber que defender o legado de Costa é também defender a “geringonça” — que não esconde ter vontade de reeditar –, enquanto o candidato José Luís Carneiro tem dito que essa visão “limita a autonomia estratégica do PS”. A exata expressão em que Costa pegou para dizer que ela existe quando há “uma identidade tão firme” como a que Soares tinha.

E a deixa até lhe permitiu picar Marcelo, sentado na primeira fila, ao dizer que o otimismo de Soares — “na altura o otimismo gerava menos irritação“, atirou provocando risos na sala — e a natureza “tão firme e consolidada” lhe permitiu “ter toda a flexibilidade que a vida democrática parlamentar exige. Porque com uma identidade tão firme não tinha qualquer risco relativamente ao compromisso”. “Percebeu bem que era fundamental proteger essa autonomia estratégica do PS e que por várias vezes teve de lutar e empenhar-se pela defesa da autonomia estratégica do PS”, acrescentou depois de lembrar os três governos constitucionais liderados por Soares: um com o PS sozinho, outro com o CDS e outro ainda com o PSD, no Bloco Central.

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