Em junho de 2023, surgiu nas redes sociais um “comentário com 200 caracteres” que parecia ter sido escrito por um francês “de classe média”. O comentário criticava duramente o apoio da Europa à Ucrânia, descrevendo-o como uma “aventura estúpida”. Este alegado internauta também considerava que, ao apoiar-se financeiramente o esforço de guerra ucraniano, isso gerava “inflação” e a “queda da qualidade de vida” em França.
Segundo documentos a que o Washington Post teve acesso, esse comentário não foi publicado por um francês. Foi antes escrito por um russo, inserido numa estratégia que Moscovo desenvolveu para que aumente o descontentamento contra o apoio de França à Ucrânia.
A ideia, escreve o jornal norte-americano, partiu de Sergei Kiriyenko, um dos homens de confiança do líder russo, Vladimir Putin. Fazendo parte do gabinete da presidência russa, aquele político delineou uma estratégia para se criasse um clima de discórdia em França contra o apoio entregue à Ucrânia. Para isso, foi criada uma fábrica de trolls, que divulgava nas redes sociais comentários e publicações abertamente contra a ajuda militar a Kiev.
A mensagem subversiva que o Kremlin queria passar era que as sanções aplicadas contra a Rússia e a entrega de armas à Ucrânia estavam a prejudicar a economia francesa e a colocar o país “numa profunda crise económica e social”.
A intenção russa consistia em que aumentasse aqueles que estavam descontentes em “pagar a guerra de outro país”. O argumento não se ficava por questões económicas. Além disso, o Kremlin queria fomentar na sociedade francesa o “medo de uma confrontação direta entre a Rússia” e os Estados Unidos, que levaria ao “início da III Guerra Mundial com a participação da Europa”.
Segundo os mesmos documentos, a escolha de França para colocar em prática este modus operandi não foi ao acaso. O Kremlin apurou que o país numa situação politicamente instável. E havia ainda uma certa visão positiva da Rússia, uma perceção baseada nas sondagens, que indicavam que 30% dos franceses ainda viam com bons olhos Moscovo. Esta percentagem era a segunda maior da Europa, apenas superada por Itália.
Confrontado pelo Washington Post, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, negou a existência de um plano, defendendo que os documentos expostos pelo jornal eram “falsos ou lixo”. O responsável da presidência russa explicou que Sergei Kiriyenko se debruça sobre assuntos domésticos — e não internacionais. E argumentou que é “claro para todos os analistas que toda a Europa está a sofrer” com as sanções e o apoio à Ucrânia. “Não é necessária nenhuma propaganda para isso.”
No entanto, um relatório elaborado em junho de 2023 por uma comissão do Parlamento francês para tentar apurar as interferências estrangeiras no processo eleitoral francês mostrava que a Rússia estava a “conduzir uma campanha de desinformação do país” para “defender os interesses russos e para polarizar a sociedade democrática”.
E o documento também acusava o partido de extrema-direita, Rassemblement National, de manter “ligações privilegiadas com o Kremlin” e de ser uma “correia de transmissão” da propaganda russa. Na altura, a líder do partido, Marine Le Pen, negou estas acusações, garantindo que não havia qualquer prova da “influência russa” no partido.