Não foi uma das inaugurações do grupo Vila Galé em 2024, mas foi uma mudança que fez diferença para o grupo. A sede passou do Campo Grande para Oeiras. E Jorge Rebelo de Almeida, presidente do grupo hoteleiro, que também se mudou para o concelho, não podia estar mais satisfeito. “Aconselho todos a morar fora de Lisboa. Ainda por cima [Oeiras] é um concelho que está limpo. Lisboa, que era uma cidade limpa, passou a estar suja”, afirmou esta terça-feira durante uma conversa com jornalistas para apresentar os resultados do grupo em 2024. Carlos Moedas, presidente da autarquia lisboeta, não escapou às críticas.

“Lisboa tem um presidente que é europeu e que faz uma grande conversa mas que se tem esquecido de limpar a cidade. O que me preocupa, porque já temos queixas de turistas que dizem que a cidade passou a estar suja. Os turistas têm razão para se queixarem mas, mais do que os turistas, quem mora na cidade tem razão para se queixar porque a cidade está suja. E ainda tem um problema acrescido: passamos a pagar mais uma taxa turística agravada mas nem assim chega para limpar a cidade”, apontou. A taxa turística em Lisboa duplicou no ano passado de dois para quatro euros, e a taxa de chegada por via marítima (aplicada aos passageiros de cruzeiros) passou de um para dois euros.

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No seguimento do comentário, Jorge Rebelo de Almeida defenderia, no entanto, que “as taxas turísticas não são para aplicar para resolver problemas de despesa corrente das câmaras. A taxa turística quando apareceu era para ser utilizada em ações específicas”, disse, dando o exemplo do Museu do Tesouro Real no Palácio da Ajuda. “Aí até faz sentido. A obra do lixo deve sair do orçamento da Câmara, que a Câmara tem dinheiro, desde logo porque gasta muito dinheiro mal gasto. Não é a de Lisboa, são todas. Dão arejo ao papel que é uma coisa parva”, comentou.

Imigração. “Estão a meter-se vários problemas na mesma panela”

O grupo Vila Galé fechou o ano passado com um valor total de receitas a rondar os 290 milhões de euros, que compara com os 275 milhões registados no ano anterior. Os lucros só deverão ser conhecidos em abril, mas o grupo antecipa um crescimento face a 2023, ano em que o resultado líquido se cifrou em 73 milhões de euros.

Segundo Gonçalo Rebelo de Almeida, o grupo teve mais custos no ano passado, sobretudo nas componentes de energia e alimentos. Mas o maior aumento do lado da despesa foi com os recursos humanos, na casa dos 10%. “Se calhar queremos ter menos pessoas e pessoas mais bem remuneradas”, afirmou o administrador do Vila Galé. “Não é gastar mais, é investir mais nas pessoas. Se calhar temos menos dificuldades em arranjar pessoas” face à generalidade do setor, que se debate com a falta de mão de obra, considera.

A base estável de trabalhadores do grupo em Portugal é composta por cerca de 1700 pessoas, das quais 87% são portugueses, indica o gestor. Dos estrangeiros, a maior parte (cerca de 300) são brasileiros, muitos dos quais vindos dos hotéis do grupo no Brasil. Para a época alta, o grupo contrata cerca de 600 pessoas. Nessa base variável, 80% são portugueses.

Apesar de não se debaterem com o problema da mão de obra, os responsáveis sabem que é “o grande desafio do setor” e que são necessários imigrantes para colmatar as falhas. Sobre o debate em torno da imigração que tem dominado a atualidade, Gonçalo Rebelo de Almeida considera que “estão a meter-se vários problemas na mesma panela”.

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“Portugal precisa de aumentar a população ativa, porque a curva demográfica é assustadora” sublinha. “A certa altura metem-se problemas de legalização, habitação, criminalidade e gente a mais tudo na mesma panela. São problemas que têm de ser tratados de forma separada”, defende. “Precisamos de mais gente. Gente a mais para trabalhar que venham contribuir para o nosso sistema de Segurança Social. É indiscutível”. Agora, “só faz sentido receber estas pessoas se tivermos condições. E aqui temos de garantir agilidade no processo de avaliação. O que vemos é um drama, o conjunto de pessoas à espera nesta indefinição… Não se pode manter pessoas dois ou três anos nesta incerteza”. Depois, acrescenta, “do ponto de vista das empresas, ficamos na dúvida se é ou não legal contratar. Isto vai fazer com que as empresas deixem de contratar estas pessoas que não têm já um visto efetivo de residência. A certa altura, se for para recusar [os vistos] que recusem rápido”.

Gonçalo Rebelo Almeida destaca ainda que para comportar o aumento de pessoas é preciso garantir habitação, transportes, escola e saúde. “As empresas têm de assumir que as pessoas que estamos a formar na área do turismo não são suficientes para dar resposta” à procura, conclui. Neste momento, e ao contrário do que acontecia em 2022, há mão de obra, mas é preciso formá-la. E nesta “competição por um bem escasso” tem-se assistido a uma melhoria das condições, garante. Segundo Gonçalo Rebelo de Almeida, o turismo hoje paga melhor do que setores como o retalho ou a construção civil.

Cinco aberturas em 2025 e muitos problemas com a Cultura

Em 2024, os números do grupo Vila Galé foram, no geral, “positivos”. Em Portugal, a taxa de ocupação aumentou 4% e os número de hóspedes cresceu 5%. O aumento do número de hóspedes foi maior porque as estadas são mais curtas, explicou Jorge Rebelo de Almeida. O valor das receitas em Portugal aumentou 9% para 172 milhões de euros, num ano em que o preço médio cresceu 8%. No bolo total das receitas o grupo contou pela primeira vez com a unidade que abriu no ano passado em Espanha, em Isla Canela, que contribuiu com 6,6 milhões de euros. Já o Brasil fechou o ano com receitas em torno dos 682 milhões de reais, cerca de 110 milhões de euros.

Em Portugal, o grupo notou mudanças nos mercados emissores de turistas. Os portugueses continuam a dominar, com uma quota que varia entre os 40% e os 45%. Os EUA cresceram 30% e o Canadá e a Alemanha registaram aumentos em torno dos 20%. Houve “alguns sinais de retoma” dos mercados asiáticos e alguma contração de Espanha (menos 5%) e França (menos 10%). Sobre os turistas americanos, Gonçalo Rebelo de Almeida destaca que “ficam mais tempo” e vão além de Lisboa e Porto, o que é “positivo”.

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Só que estes novos mercados enfrentam o “constrangimento” das limitações do aeroporto de Lisboa. A pouca margem da Portela e o tempo que falta para inaugurar Alcochete “leva a que tenhamos de pensar em soluções intercalares como Beja ou Sintra”, diz Jorge Rebelo de Almeida. Mas também obriga a pensar num “melhor aproveitamento dos slots, como banir alguns que não sejam essenciais e trazer outros que sejam importantes. Penso que o nosso ministro das Infraestruturas está tão preocupado como nós e estará em busca dessas soluções para não ficarmos com um vazio que trave o desenvolvimento turístico”, sugere.

O que não se verificou em 2024, ao contrário do que receavam os responsáveis, foi uma quebra de portugueses no Algarve no verão. Nem a abertura em Isla Canela “canibalizou” o Algarve. O destino cresceu e os principais clientes da unidade espanhola também foram portugueses, mas não houve uma transferência, ressalvam.

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Além da abertura em Espanha, o grupo inaugurou no ano passado uma unidade na Figueira da Foz e parte de um projeto em Ponte de Lima — a adega do Castelo de Curutelo, adquirido pelo grupo em 2022. O projeto, no qual o grupo prevê investir 20 milhões de euros, tem sofrido várias “tropelias”, diz o presidente do grupo, por parte de “gente que tem pouco que fazer e entretém-se a chatear quem faz muito”. A obra chegou a estar embargada por ordem do Ministério da Cultura mas o embargo foi levantado e o grupo prevê inaugurar o hotel este ano.

Não foi o único entrave que o grupo teve no Ministério tutelado por Dalila Rodrigues. “Temos cinco projetos encalhados na Cultura”, revela Jorge Rebelo de Almeida. Um desses projetos fica em Miranda do Douro, está “pronto há dois anos” e que, espera o presidente do Vila Galé, poderá avançar este ano. Outro é o Paço Real de Caxias. O grupo fez uma intervenção no edifício “com autorização da Câmara de Oeiras, porque chovia lá dentro. Interviemos para salvar património de de desaparecer e fomos acusados pelo Património Cultural de intervir em violação do decreto não sei quê”, revelou o presidente do grupo.

“Falei com a senhora ministra na semana passada, pareceu-me extremamente empenhada em ajudar-nos a resolver estas dificuldades. Mas a máquina burocrática que temos na Cultura e noutros serviços do Estado é difícil de superar. Faz falta mais empenho para que estas coisas se resolvam rapidamente”, apela.

Nas contas de 2024 integra ainda, pela primeira vez, o hotel que o grupo abriu em Cuba. “Há ajustes que têm de ser feitos”, admite Gonçalo Rebelo de Almeida. Em primeiro lugar, porque o destino está com “défice de promoção”. Além disso, há constrangimentos ao nível do fornecimento de alimentos. Mas o grupo já está a ser desafiado para abrir outros hotéis em Cuba, em Havana ou Varadero. “Está em cima da mesa”.

Para 2025 os números são, para já, “positivos”. O grupo não prevê um crescimento muito expressivo mas antecipa um aumento nas taxas de ocupação e nas receitas. O Vila Galé espera abrir cinco novas unidades este ano. Além do Curutelo (a 25 de abril), será inaugurado um novo hotel em Elvas (um investimento de seis milhões) e dois no Brasil. O primeiro em Ouro Preto, numa quinta com mais de 200 hectares, e outro em Belém do Pará, que vai abrir em outubro, a tempo da COP 30, onde vão estar presentes mais de 100 líderes mundiais.

Em carteira o grupo tem, além do projeto de Miranda do Douro, a recuperação da Quinta da Cardiga (“quando a aprovarem, vai ser demorado com certeza”), na Golegã, e um hotel em Penacova que terá como tema o humor (a ideia partiu de Fernando Alvim e do ex-secretário de Estado da Cultura Nuno Artur Silva, revelou Jorge Rebelo de Almeida). Há ainda outro projeto, em Santarém, sobre o qual há poucos detalhes. “Fomos lá na semana passada e o presidente da Câmara apanhou-nos e tirou uma fotografia e escreveu: ‘Vila Galé garante que vai fazer esta obra’. Que é a recuperação do quartel de cavalaria de Santarém de onde saíram os tanques para fazer o 25 de abril. Eu disse ’25 de abril sempre, temos de vir fazer isto'”.

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No Brasil, o grupo vai desenvolver dois hotéis boutique em Coruripe e outro em São Luís do Maranhão.

Gonçalo Rebelo de Almeida garante que o grupo ainda não desistiu de expandir a operação em Espanha e que tem feito prospeção em cidades como Madrid, Barcelona, Sevilha ou Bilbau. A busca é por unidades que já existam e não por projetos por desenvolver. “Espanha já é um mercado consolidado”. E pode levar tempo. “Demorámos 13 anos a encontrar uma boa oportunidade no Rio de Janeiro e 19 anos em São Paulo. Se quisermos negócios, podemos fazer a qualquer altura. Não tem sido essa a nossa estratégia e às vezes demora mais tempo”. O Vila Galé conta atualmente com 32 hotéis em Portugal, 11 no Brasil, um em Espanha e um em Cuba.