Os socialistas vão para campanha eleitoral com o caso que envolve o primeiro-ministro no bolso, pronto a usar. Em entrevista à RTP, esta segunda-feira, o líder do PS disse que nestas eleições vão ser discutidas “diferenças de projeto”, mas “também diferenças de liderança” e que a campanha não vai poder “ignorar o que nos trouxe a ela, que foram dúvidas sobre a ética e a transparência do primeiro-ministro”.
O líder socialista acredita que não será possível “fazer campanha sem falar” do tema da Spinumviva, mesmo que não tenha de “ser central e ocupar todo o espaço central”. Mas é nele que vai apoiar-se para marcar diferenças em relação ao atual primeiro-ministro, repetindo a frase que já disse: “Precisamos de primeiros-ministros honestos“. Confrontado com críticas internas, nomeadamente do socialista Fernando Medina, que atirou, numa declaração de voto relativa à moção de confiança, ao debate de “insinuações e calúnias”, o líder do PS apoiou-se antes na posição que diz ser maioritária no PS sobre a necessidade de eleições.
Medina avisa para riscos de novas eleições e critica debate de “insinuações e até calúnias”
O assunto das relações empresariais com o Estado também toca no líder socialista, tendo em conta a empresa do seu pai e de um sócio deste, a Tecmacal, que também faz contratos públicos. Mas quando confrontado com esse assunto, Pedro Nuno Santos considera que não se pode “fazer de conta que estamos a falar da mesma coisa. A empresa é do meu pai, do sócio dele, não é minha da minha mulher ou do meu filho. Não tenho capacidade de influência sobre a empresa”, garantiu na RTP.
Assume ainda que a atual lei que regula estas questões “resolve os riscos de incompatibilidade ou dúvida — incompatibilidade não existe nenhuma”, assegurou, no entanto, o líder do PS sobre a empresa que pertence ao seu pai. Insistiu que o caso é “diferente” do de Luís Montenegro, mas ainda assim garantiu que “não participará em decisões que dependam do primeiro-ministro” sobre a Tecmacal se chegar ao cargo.
No dia em que se soube que o ex-primeiro-ministro socialista José Sócrates vai a julgamento no início julho, o atual líder do PS garante que o PS “já resolveu o tema” e que “a autoavaliação” no partido é “uma tarefa constante e permanente”. Recusou ainda “fazer juízo de comparação entre os dois casos”, quando foi questionado sobre se Sócrates e Montenegro são semelhantes, referindo apenas que “as realidades são diferentes”.
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Atualizar programa de 2024
O PS prepara-se para entregar um programa apenas com alguma “atualização, com novas propostas” em relação ao que foi a votos há um ano: “Não vamos deitar no lixo um programa que tem um ano”. As áreas prioritárias serão a economia — onde pretende lança um novo relatório Porter, uma ambição que já tinha referido –, a habitação e a saúde, mas neste último tema o líder do PS evita comprometer-se com as PPP, por exemplo, sobre as quais vai repetindo apenas não ter” nenhum dogma”.
Quando questionado sobre as anunciadas pelo Governo, Pedro Nuno Santos diz que “as cinco PPP anunciadas e mais 170 para centros de saúde” foram avançadas “sem nenhum estudo ou justificação”. “Não considero sequer que tenha sido implementada qualquer PPP, foi um anúncio panfletário de quem não conseguiu resolver problema nenhum” na saúde, disse, seguro de que nenhuma vai estar ativa na altura da eleições — para evitar ter de dizer o que fará nesse caso.
Sobre a economia voltou a defender que seja elaborado “um novo relatório Porter, que identifique os setores e as área tecnológicas onde o país deve apostar para dinamizar a economia” — já o defendeu nas últimas legislativas. Já na área da Defesa, defende que o investimento nessa área “tenha consequências na economia” do país e não se compromete com mais do que está no Orçamento: “Para lá dos 2% do PIB tem de ser bem analisado porque não podemos pôr em causa o estado social.”
Quanto a cenários de governabilidade, Pedro Nuno Santos diz que só está a trabalhar com o “cenário de vitória”, rejeitando que, com o PS à frente nas eleições, o quadro parlamentar fique mais complexo ainda. “Quando o PSD excluiu o Chega de qualquer solução também decidiu governar nas mesmas condições em que o PS governaria ou governará”, argumentou.
A entrevista terminou com o tema das presidenciais, com o socialista a garantir que não está à espera da disponibilidade de ninguém “em particular” na área do PS e que decidirá quando tiver mais do que notícias sobre putativos candidatos. Já sobre o almirante, desejou que não beneficie com a crise política e recusou a ideia de que não se trata de um político: “A partir do momento em que decide ser candidato a Presidente da República está a decidir ser político. Não há democracia parlamentar em nenhum país do mundo que se faça sem partidos políticos.”