O Signal, uma plataforma de comunicação encriptada, foi atirada para o centro de uma polémica com diversos ingredientes explosivos: planos detalhados de um ataque militar contra os houthis do Iémen, uma conversa secreta entre altos dirigentes da Casa Branca responsáveis pela decisão e um jornalista do The Atlantic convidado para aceder ao grupo e que assistiu a tudo.
Perante o caso — que levou a Casa Branca a confirmar que um jornalista tinha sido incluído num grupo onde o secretário da Defesa dos EUA, Pete Hegseth, e outros altos funcionários discutiram ataques contra o grupo — foram levantadas questões e soaram alarmes pela forma como a administração Trump pode estar a tomar decisões ultrassecretas numa aplicação de acesso público.
O jornal Politico ouviu especialistas e, de uma forma geral, as opiniões resumem-se da seguinte forma: o Signal é considerado uma das aplicações de mensagens mais seguras do mundo, entre aquelas que estão disponíveis para o público, mas não é o sítio indicado para discutir planos militares e para ter conversas que deixam a descoberto questões sérias de segurança ou mesmo segredos de estado.
O jornalista Jeffrey Goldberg, diretor da publicação norte-americana The Atlantic, já o tinha descrito como uma “imprudência chocante”. Mark Montgomery, diretor sénior do Centro de Inovação Cibernética e Tecnológica da Fundação para a Defesa das Democracias, ironiza: “Suponho que o Signal esteja uns passos acima de deixar uma cópia do plano de guerra na Embaixada da China, mas está muito abaixo dos padrões necessários para discutir qualquer elemento de um plano de guerra.”
O Politico recorda que o Signal até se tornou mais popular nos últimos meses, depois de ter sido noticiado, pelo The New York Times, que hackers chineses conseguiram aceder às comunicações telefónicas de Donald Trump e de JD Vance e entrar em redes norte-americanas. A dimensão do caso levou autoridades a recomendar o uso de plataformas encriptadas, designadamente o Signal.
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Apesar de o Signal ser considerado um dos sistemas mais seguros entre os concorrentes, os especialistas ouvidos pelo jornal concordaram que não pode ser usado como uma alternativa aos meios de comunicação governamentais, oficiais e mais seguros. Um ex-funcionário da Casa Branca considera o caso “inacreditável“, principalmente por saber que as pessoas em causa têm todos os meios para comunicarem de forma segura, onde quer que estejam.
Além disso, há um outro ponto destacado pelos especialistas e ex-funcionários ouvidos: se esta conversa estava a ser tida no Signal, é porque os protagonistas, altos funcionários da Casa Branca, estavam a usar os seus telemóveis pessoais e não dispositivos oficiais — o que pode proporcionar outros problemas de segurança cibernética. “Os telefones pessoais podem ser hackeados e é bem provável que serviços de inteligência estrangeiros estejam a vigiá-los”, alerta o ex-funcionário.
Também Jacob Williams, ex-funcionário da Agência de Segurança Nacional norte-americana, conclui que o Signal não está credenciado para serem transferidos dados classificados, como aconteceu.
Já Bennie Thompson, membro da Câmara dos Representantes dos EUA, nota que “nem é preciso dizer que os funcionários do governo não devem usar o Signal para discutir assuntos secretos reservados à sala de situação”. No mesmo sentido, Brian Mast diz tratar-se da “violação mais surpreendente” da história recente da segurança dos EUA.