Durante a investigação à rede de cidadãos búlgaros que nos últimos anos levavam a cabo ações de espionagem a favor da Rússia a partir do Reino Unido, foram referidas duas mulheres “misteriosas” que teriam participado em operações de vigilância pela Europa. A BBC revelou, esta segunda-feira, que a identidade de ambas: Cvetelina Gencheva e Tsvetanka Doncheva, as duas igualmente de nacionalidade búlgara.

Gencheva e Doncheva fazem parte do mesmo grupo de Katrin Ivanova, Vanya Gaberova e Tihomir Ivanchev, os três cidadãos búlgaros que no início do mês foram considerados culpados de envolvimento numa conspiração para espiar — crime que tem uma pena máxima de 14 anos de prisão — pela Rússia a partir do Reino Unido. Descrita pelas autoridades como “uma operação altamente sofisticada que ameaçava vidas”, a rede, que levou a cabo ações de espionagem entre 2020 e 2023, vigiava pessoas e locais visados pela Rússia um pouco por toda a Europa, incluindo jornalistas de investigação — em particular, de espionagem russa — ou uma base militar norte-americana na Alemanha. Os três admitiram participar em operações de vigilância, mas garantiram que não sabiam que eram em proveito da Rússia.

“Cvetka”, a espia do aeroporto relacionada com a vigilância a jornalistas

Conhecida como “Cvetka” ou “Sveti”, Cvetelina Gencheva vive em Sófia, na capital de Bulgária, e foi identificada através das redes sociais depois de ter interagido com Katrin Ivanova no Facebook. Segundo a BBC, era funcionária numa companhia aérea a aproveitou o seu trabalho no aeroporto para obter dados de voos privados de pessoas visadas pela rede.

Desta forma, os espiões sabiam quais os voos que as vítimas iam apanhar e faziam por conseguir ficar sentados em lugares próximos — o suficiente para terem visão para os ecrãs dos seus telemóveis. Assim, chegaram mesmo a identificar o número do pin do telemóvel do jornalista russo Roman Dobrokhotov que, assim como o jornalista búlgaro Christo Grozev — que também era alvo de uma vigilância —, contribuiu para expor o papel da Rússia em ataques com agentes químicos contra os opositores do Kremlin Sergei Skripal (2018) e Alexei Navalny (2020).

Gencheva fazia parte de uma equipa que foi enviada para Berlim para espiar Roman Dobrokhotov e era membro de um chat com três dos condenados por espionagem no processo do Reino Unido — o líder da rede de espionagem, Orlin Roussev, Biser Dzhambazov e Katrin Ivanova. A espia forneceu também pormenores do voo do jornalista Christo Grozev e foi encarregada de recolher o máximo de informações possível sobre as viagens do russo Kirill Kachur.

Três cidadãos búlgaros considerados culpados por espiar para a Rússia

Durante a investigação, a BBC teve acesso ao disco rígido do líder da rede, Orlin Roussev, que continha capturas de ecrã de dados de viagem de um software conhecido como Amadeus. No LinkedIn, Gencheva tinha o mesmo software como uma das suas competências. Depois de terem identificado Cvetelina Gencheva, uma fonte confirmou à BBC que os serviços de segurança búlgaros confirmam que a mulher está ligada à rede de espionagem.

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“Tsveti”, a mulher de Viena

Também identificada através das redes sociais, Tsvetanka Doncheva, conhecida como “Tsveti”, esteve envolvida na espionagem a Christo Grozev em Viena. Segundo a investigação, ocupou o apartamento em frente ao do jornalista búlgaro, que mantinha sob vigia através de uma câmara. Detida pela polícia austríaca em dezembro, aos investigadores disse que tinha vigiado o jornalista a pedido de uma amiga de longa data, Vanya Gaberova.

Inicialmente, disse à polícia que tinha sido enganada pelos restantes membros do grupo, que primeiro lhe disseram que estavam a realizar um “projeto de estudantes” e, mais tarde, que estavam a trabalhar para a Interpol. Mas os investigadores austríacos dizem que é “incompreensível” que Doncheva tenha acreditado em tais “histórias duvidosas”. De acordo com a investigação, em Viena, encontrou-se com pelo menos três dos condenados por espionagem no processo do Reino Unido — Vanya Gaberova, Biser Dzhambazov e Katrin Ivanova. Altos funcionários austríacos, incluindo o chefe dos Serviços Secretos, Omar Haijawi-Pirchner, estavam entre os selecionados para serem vigiados por Doncheva, assim como a jornalista de investigação austríaca Anna Thalhammer, que escreveu sobre espionagem russa.

Noticiados primeiramente pelas revistas austríacas Profil e Falter, os documentos do tribunal revelam que Doncheva é “fortemente suspeita de ter cometido o crime de espionagem secreta em detrimento da Áustria” e que recebia instruções do austríaco Jan Marsalek, um “intermediário” dos serviços de informação russos, e de Orlin Roussev. Terá sido o primeiro a dar-lhe instruções para espiar Anna Thalhammer e Doncheva já veio admitir ter fotografado o local de trabalho da jornalista e ter tentado observá-la a partir de um restaurante próximo.

Doncheva foi ainda contratada para conduzir uma campanha de propaganda anti-Ucrânia, na qual tinha de espalhar autocolantes por vários locais, como o memorial de guerra soviético de Viena, com o objetivo de fazer com que os apoiantes da Ucrânia parecessem neonazis.

Ao contrário dos seis espiões condenados no Reino Unido, Doncheva e Gencheva não se encontram detidas e não foram condenadas por qualquer crime. O pedido do Ministério Público austríaco de prisão preventiva de Doncheva foi rejeitado e a mulher foi libertada. Os documentos do tribunal austríaco afirmam que “não há risco” de Doncheva fugir uma vez que está “socialmente integrada” no país e cuida da mãe, e que o risco de novos crimes não é particularmente elevado, dada a prisão no Reino Unido de outros envolvidos.