No Dia Mundial das Florestas, que se assinalou a 21 de março, a Rádio Observador instalou-se, durante uma tarde, no Raíz – Instituto de Investigação da Floresta e do Papel, em Aveiro, e convidou vários especialistas a falar sobre o trabalho que levam a cabo, bem como a desconstruir algumas ideias feitas sobre o tema. Quase sempre objeto de notícia pelas piores razões (os incêndios que devastam milhares de hectares todos os anos), o setor florestal português, segundo dados apurados pela Estratégia Nacional para as florestas, contribui anualmente para a economia com 982 milhões de euros — 876 milhões dos quais associados à produção —, gerando cerca de oitenta mil empregos, sobretudo em regiões desvalorizadas do ponto de vista económico, no interior do país.
O primeiro convidado da emissão especial à conversa com o host do Observador, Nelson Ferreira, foi Carlos Pascoal Neto, ex-professor catedrático da Universidade de Aveiro (de que foi vice-reitor) e diretor geral do Raiz. Falou sobre a necessidade de fomentar as boas práticas de silvicultura e de melhorar o conhecimento da população sobre o tema, afirmando mesmo que “há um défice de literacia florestal em Portugal”.
Seguiu-se Alexandre Gaspar, coordenador do laboratório piloto do Raiz, que falou dos novos negócios que estão a ser testados neste momento, com destaque para os bioprodutos, cada vez mais presentes nas nossas vidas, quer em casa, quer na atividade industrial.
Investigadores na área, Sérgio Fabres e Daniela Ferreira, vieram à antena falar sobre o trabalho que desenvolvem em torno do eucalipto, espécie que consideram ser injustiçada pela opinião pública. Deslindaram os meandros da investigação que realizam e que inclui estudos de camadas de solo e seleção de árvores em função da sua capacidade de resistência para formação de “famílias”. Também na área científica, Catarina Gonçalves explicou como já é possível “combater as pragas que atacam a floresta apenas com produtos biológicos”.
Um dos maiores desafios que se coloca à atividade florestal é a sua gestão, quer pública, quer privada. Sérgio Gomes, diretor da AFOCELCA, mostrou como essa gestão tem um papel a desempenhar numa melhor e mais eficaz proteção contra incêndios. E como pode ser também a melhor amiga dos bombeiros, quando o pior acontece.
Num país, como o nosso, em que 97% da área florestal pertence a privados, Bruno Freitas veio a estúdio falou sobre a importância de assegurar apoio, formação e esclarecimento aos proprietários. Essa é a função da empresa que dirige, a Sfera Ultimate, especializada em serviços florestais.
Curador da Quinta de São Francisco, onde está instalado o Instituto Raiz, João Ezequiel estabeleceu a ponte entre o trabalho científico e a sua divulgação junto do grande público. E apresentou como exemplo o projeto Floresta do Saber, que está aberto a estudantes de vários níveis de ensino, do pré-escolar ao ensino superior.
Em representação do setor empresarial, Paulo Santos explicou quais os objetivos do Clube dos Produtores Florestais Navigator, de que é coordenador. Criado em 2023, este organismo visa desenvolver o sentido de entreajuda nestes profissionais, nas várias fases de trabalho, da produção ao transporte. Isto porque, como frisou, “ainda falta muita gestão ativa à nossa floresta”.
O apoio ao proprietário florestal esteve ainda em foco na conversa com Luís Sarabando, diretor técnico da Associação Florestal do Baixo Vouga, que identificou algumas das principais dificuldades sentidas, sobretudo pelos pequenos proprietários, além de ter deixado algumas das medidas que as podem minorar.
A terminar esta tarde temática, Eduardo Sá, na habitual rubrica “Porque sim não é resposta”, falou do medo ancestral desencadeado pelas florestas junto dos mais novos, quase sempre incentivado por lendas tradicionais e contos de fadas . O psicólogo admite que importa desmitificar esta ideia e fomentar uma maior ligação das crianças à natureza.