A Comissão Europeia anunciou esta quarta-feira ter aprovado por maioria a aplicação de “contramedidas comerciais contra os Estados Unidos”, citando tal medida como sendo uma resposta “à decisão tomada em março pelos EUA de impor direitos aduaneiros sobre as importações de aço e alumínio provenientes da UE”.
Segundo Bruxelas, estas tarifas — aprovadas por maioria pelos 27 Estados-Membros da UE — entrarão em vigor a 15 de abril, com a Comissão Europeia a sublinhar a sua “clara preferência por encontrar soluções negociadas com os EUA, que sejam equilibradas e mutuamente benéficas”, considerando as tarifas impostas pela administração de Donald Trump “injustificadas e prejudiciais”.
O único país a quebrar a unanimidade na votação destas medidas foi a Hungria, tendo o ministro dos Negócios Estrangeiros do país confirmado este sentido de voto nas redes sociais, justificando que as tarifas europeias de retaliação vão causar ainda mais “dano” à economia europeia, devido à inflação que vão causar. “A escalada não é a solução”, admitiu Péter Szijjárto, acrescentado que a única resposta eficaz será “a negociação, não a retaliação”.
Today Hungary is voting against the @EU_Commission’s proposal to impose counter-tariffs on the US. Escalation is not the answer. Such measures would cause further damage to European economy and citizens by raising prices. The only way forward is negotiations, not retaliation.
— Péter Szijjártó (@FM_Szijjarto) April 9, 2025
Apesar do comunicado da Comissão Europeia não explicitar que tipo de “contramedidas” serão aplicadas a partir da próxima terça-feira, fontes europeias já confirmaram à agência Lusa e à Reuters, entre outros órgãos de comunicação, que consistirão em tarifas de 25% sobre produtos norte-americanos.
Segundo a Reuters, as tarifas vão incidir sobre produtos como milho, trigo, cevada, arroz, motociclos, aves de capoeira, fruta, madeira, vestuário e fio dentário. Já o website Politico, tendo tido acesso a um documento interno da UE, menciona tabaco, soja, amêndoas, chocolate branco, polietileno, sumo de laranja e metais como aço e alumínio.
Tudo combinado, estas importações perfizeram um valor de 21 mil milhões de euros em 2024, o que significa que a retaliação da União Europeia vai ser ainda assim inferior às tarifas impostas inicialmente pelos EUA, já que estas — colocadas sobre as exportações de metais do espaço europeu — totalizaram 26 mil milhões de euros no ano transato.
De destacar que, ao contrário do que tinha sido inicialmente sugerido, o whiskey bourbon e os vinhos norte-americanos escapam, para já, às tarifas da UE, alegadamente porque países como a França fizeram pressão para retirá-los do pacote. Em causa está o facto de, entrando estes produtos nas contramedidas, Trump poderia concretizar a ameaça de retaliar com uma tarifa de “até 200%” sobre os vinhos, champanhes e outras bebidas espirituosas europeias, como escreve o El Mundo.
Como tem sido avançado pela imprensa europeia, as medidas retaliatórias da UE foram escaladas em três fases. A primeira, já mencionada, tem início a 15 de abril e consistirá na cobragem de direitos aduaneiros sobre produtos que já tinham sido alvo em 2018 de medidas semelhantes (entretanto suspensas em 2021). Aqui incluem-se algumas frutas e legumes frescos e enlatados, tabaco, papel higiénico e motociclos como as famosas Harley Davidson, bens que representam um total de 3,9 mil milhões de euros.
Caso a guerra comercial continue, a segunda fase terá início a 16 de maio, passando a incluir um rol ainda mais alargado de produtos, como ovos, carne de aves de capoeira e de bovino, óleos vegetais como o óleo de girassol e de palma, margarina, bolachas, açúcar, citrinos, peças de aço e alumínio, madeira e têxteis. Aqui está o grosso do valor comercial em que consistem estas tarifas, com as importações destes bens a totalizarem 13,5 mil milhões de euros.
Por fim, já quase no fim do ano, a 1 de dezembro, a última fase estender-se-á à soja e às amêndoas com e sem casca, representando mais 3,5 mil milhões de euros. A UE fez saber no seu comunicado que todas estas contramedidas “podem ser suspensas em qualquer altura, caso os EUA concordem com um resultado negociado justo e equilibrado”.
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Atacar os EUA “onde dói mais”
Uma análise mais aprofundada ao documento a que o Politico teve acesso, no entanto, demonstra que o intuito da União Europeia terá sido bastante mais cirúrgico do que apenas retaliar contra as tarifas de Trump.
Os produtos norte-americanos visados por este pacote de contramedidas parecem ser especificamente alguns de importância central para a saúde económica de estados norte-americanos liderados por republicanos — em particular por alguns dos mais próximos aliados do presidente dos EUA.
Um dos exemplos é a soja, cuja exportação parte maioritariamente — 82,5% do total — do Louisiana, o estado natal do Presidente da Câmara dos Representantes, Mike Johnson.
Segundo o Politico, a UE também está a visar particularmente “a carne de vaca do Kansas e do Nebraska, as aves de capoeira do Louisiana, as peças de automóveis do Michigan, os cigarros da Florida e os produtos de madeira da Carolina do Norte, da Geórgia e do Alabama”. Além disso, ataca também “gelados do Arizona, lenços da Carolina do Sul, cobertores elétricos do Alabama, gravatas e laços da Florida e máquinas de lavar roupa do Wisconsin”.