Em Cobham, aldeia em Surrey, no Reino Unido, uma professora de história ficou detida sete horas e meia, e 24 horas sem ver as filhas, sob suspeita de ter furtado dois iPads. As autoridades perceberam depois que a mãe era a proprietária dos dispositivos reconhecendo-lhe o direito de os confiscar às filhas para que se pudessem concentrar mais nos estudos.
Tudo isto começou a 26 de março, quando a polícia de Surrey respondeu a uma chamada para atender a uma “questão de segurança” em Cobham, no decurso da qual um homem de 40 anos alertou para um possível furto de dois tablets, explicou mais tarde Aimee Ramm, responsável desta força de segurança em comunicado, citado pelo jornal local Surrey Live.
Os agentes localizaram os tablets na casa da mãe de Vanessa Brown, onde esta se encontrava. Problema: questionada sobre o paradeiro dos Ipads, disse nada saber, continua a polícia, no esclarecimento prestado depois de a polémica estalar. A professora “recusou-se a colaborar”, apesar de a polícia lhe ter pedido para “entregar os dispositivos e encerrar o assunto”. Acabou detida, mesmo não tendo sido revistada, levada para a esquadra onde lhe tiraram a mugshot (fotografia habitual feita a detidos na prisão), recolheram as impressões digitais e fecharam numa cela durante sete horas e meia. Só depois foram feitas buscas à casa e encontrados os Ipads.
Vanessa acabou por ser libertada sob fiança, mas com a condição de não contactar com as filhas, até que a investigação fosse concluída, o que a impediria de celebrar o dia da Mãe que se aproximava sem as filhas. O que não aconteceu: 24 horas após ter sido interpelada em casa da mãe, a polícia confirmou que os Ipads eram da professora que tinha o direito de os tirar às filhas e o caso foi encerrado.
[Já saiu o quarto episódio de “O Misterioso Engenheiro Jardim”, o novo PodcastPlus do Observador que conta a história de Jorge Jardim, o empresário que, na verdade, era um agente secreto que liderou missões perigosas em todo o mundo, tentou criar um país e deu início a um clã de mulheres aventureiras. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no YoutubeMusic. E pode ouvir aqui o primeiro episódio, aqui o segundo e aqui o terceiro episódio]
O que se passou deixou-a num “estado catatónico”, confessou à rádio britânica Leading Britain’s Conversation (LBC), referindo ser “traumático falar sobre este assunto”.
Indignada com o comportamento dos agentes policiais, a professora referiu que os polícias “em nenhum momento pensaram: ‘Isto é um pouco exagerado, confiscar temporariamente os iPads dela, aparecer em casa da mãe para tomar um café’. Foi uma reação completamente exagerada.”
Vanessa criticou ainda a abordagem feita em casa da mãe: “Foram de uma total falta de profissionalismo. Falavam com a minha mãe, que tem mais de 80 anos, como se ela fosse uma criminosa.”
Os contornos do caso tornaram-se ainda mais insólitos após os agentes se terem deslocado até à escola das filhas de Vanessa, tendo retirado uma das crianças do estabelecimento, alegando que se tratava de “preocupação com a segurança”.
A professora não deixou de criticar a celeridade da ação da polícia num caso destes comparando-o com outros. “Não consigo entender por que me detiveram tão rapidamente – talvez em menos de uma hora. Eles conseguiram enviar um carro da polícia para a escola das minhas filhas e mais uma ou duas viaturas para me deter… Sei que as pessoas estão a fazer denúncias de roubos, agressões e crimes muito violentos dentro e ao redor do nosso bairro — e não estão a receber resposta há dias.”
Apesar de o caso ter sido dado como concluído, a polícia de Surrey foi alvo de várias críticas — sobretudo depois de há uma semana um casal ter sido detido oito horas depois de ter feito comentários num grupo de pais no WhatsApp sobre a escola dos filhos.
Para o antigo Comissário da Polícia e da Criminalidade, Anthony Stansfield, “foi absolutamente desnecessário colocar uma respeitável professora de história de cinquenta anos numa cela durante sete horas. É pouco provável que ela tivesse fugido para o estrangeiro e espero que o chefe da polícia vá pedir desculpa pessoalmente à pobre senhora”.
Não houve pedido de desculpas, mas a polícia acrescentou um dado novo: “Houve um atraso de três horas entre o momento em que o seu advogado foi notificado e o momento em que estava pronto para atender a sua cliente”.
As justificações da polícia não convenceram alguns políticos como Richard Tice, vice-líder do Reform UK, que se insurgiu: “O mundo enlouqueceu. A polícia tem de apanhar os verdadeiros criminosos e não as mães que tomam conta dos seus filhos”.
Também Neil O’Brien, deputado e ministro-sombra conservador da Educação considerou que “isto é para lá de absurdo”. Os telemóveis das pessoas “são roubados a toda a hora e a polícia não dá seguimento, mesmo quando sabe onde eles estão, mas uma pessoa que cumpre a lei pode acabar numa cela durante horas a fio por ter tirado os iPads aos próprios filhos”, referiu.
E se um outro ministro sombra conservador, da área da Economia, disse que o episódio era “absolutamente louco”, Harry Miller, antigo agente da polícia que trabalha com o grupo de campanha de liberdade de expressão Fair Cop, afirmou que a polícia se está a tornar “semelhante à Stasi”.
Texto editado por Dulce Neto