Os hábitos de consumo dos alunos do ensino público entre os 13 e os 18 anos são hoje “menos gravosos” que em 2019. Nos últimos quatro anos houve uma “descida generalizada” dos comportamentos de risco, mas nem tudo tem corrido bem. O consumo de analgésicos fortes sem indicação médica (usados para “alterar os sentidos”) duplicou, atingindo os 3%. Os maiores consumidores desta substância são estudantes do sexo feminino — e o mesmo acontece quando falamos de álcool, tabaco e tranquilizantes ou sedativos. Apenas o consumo de drogas ilícitas se mantém como uma prática mais comum entre rapazes.

Face a 2019, “as prevalências de ingestão de bebidas alcoólicas desceram consideravelmente mais entre os rapazes“, mas é de assinalar que o consumo desta substância diminuiu em todas as idades, exceto nos mais novos (de 13 anos).

Os dados constam do estudo sobre Comportamentos de Consumo de Álcool, Tabaco, Drogas e outros Comportamentos Aditivos e Dependências, divulgado esta terça-feira no site do ICAD (Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências). Os dados surgem no âmbito do European School Survey Project on Alcool and other Drugs (ESPAD), um estudo transversal aplicado em contexto europeu e que resultou da aplicação de um questionário entre os dias 15 de abril a 15 de maio de 2024.

Jovens que tiveram mais formação sobre álcool e droga tiveram consumos mais problemáticos

O estudo, feito a cada quatro anos, teve como amostra 11.083 alunos (entre os 13 e 18 anos) de 1.992 escolas do ensino público. E explora os padrões de consumo dos adolescentes no que toca ao álcool, tabaco, drogas ilícitas, medicamentos e jogo. Relativamente ao primeiro aspeto, em 2019 já se registava um “claro esbatimento das diferenças de género e uma tendência de aproximação do consumo de álcool, mas em 2024 esta já é uma prática mais feminina que masculina“, lê-se no sumário executivo a que o Observador teve acesso.

Segundo o relatório, “a maioria dos inquiridos (58%) ingeriu pelo menos uma bebida alcoólica ao longo da vida”, mas atualmente a ingestão diária desta substância “é pouco prevalente”, sendo que entre os consumidores atuais, a cerveja continua a ser “a bebida mais ingerida numa base diária ou quase diária (5%)”, por oposição ao vinho (2%).

Dos alunos inquiridos entre os 13 e 18 anos, 29% disse ter-se embriagado “ligeiramente ao longo da vida”, percentagem que cai para 22% relativamente ao último ano e 11% no mês anterior ao questionário. Face a 2019 houve um “decréscimo muito acentuado do consumo”: menos 7 p.p ao longo da vida; menos 11 p.p no último ano; e menos 9 p.p no mês anterior ao questionário.

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Cátia Andrea Costa
Editora de Atualidade
(CP — 7417)

Mais novos preferem cigarros eletrónicos

A seguir ao álcool, o tabaco é a segunda substância psicoativa mais consumida pelos alunos. Mas nos últimos anos o padrão alterou-se: “A experimentação de tabaco de combustão [o tradicional] e cigarros eletrónicos regista pela primeira vez um valor semelhante: 18%”.

Os mais velhos (acima dos 16 anos) preferem os cigarros tradicionais, um padrão que se altera quando falamos dos mais novos (entre os 13 e 15 anos), que consomem com mais frequência cigarros eletrónicos. O consumo do cigarro tem registado uma “descida cada vez mais acentuada”, revela o estudo. Isto porque a quebra acontece “às custas do decréscimo do consumo de cigarros tradicionais”.

Além de o tabaco e o álcool serem as substâncias mais consumidas pelos mais novos, são também aquelas que são consumidas mais cedo: 30% dos alunos inquiridos ingeriu “uma bebida alcoólica com 13 anos ou menos” — sendo que a cerveja é a bebida que os alunos consideram de mais fácil acesso. No que toca ao tabaco, 7% dos alunos com 13 anos ou menos fumou um cigarro de combustão e 6% um cigarro eletrónico.

OMS alerta para consumo de álcool e cigarros eletrónicos entre os jovens

Acesso a sedativos sem prescrição é “fácil” para mais de 10% dos alunos

Um dos “fenómenos” que surge como estudo como “mais prevalente” diz respeito ao consumo de medicamentos, especificamente no que toca a analgésicos. De acordo com os dados, 3% dos alunos inquiridos (ou seja, mais de 330 alunos) já tomou analgésicos muito fortes sem prescrição médica, com o objetivo de “alterar os sentidos”. O valor, apesar de baixo quando comparado a outras substâncias, duplicou num período de quatro anos.

Ainda no que toca à toma de medicamentos, o consumo, ao longo da vida, de tranquilizantes/sedativos e nootrópicos (suplementos conhecidos por “smart drugs” que têm como objetivo melhorar a capacidade cognitiva) com indicação médica “diminuiu de forma acentuada”, atingindo os 8% e 3%, respetivamente. Já no que toca ao consumo destas substâncias sem prescrição médica, a variação foi apenas ligeira, sendo que 5% dos inquiridos consome tranquilizantes/sedativos e 2% nootrópicos.

Segundo o estudo, 11% dos alunos considera fácil conseguir acesso a tranquilizantes/sedativos sem prescrição, valor que sobe ligeiramente para 16% quando falamos de nootrópicos.

Canábis é “menos prevalente”, mas continua a ser a droga ilícita mais consumida

Quando falamos na facilidade em aceder a drogas ilícitas, a canábis é a substância que os alunos consideram de mais fácil acesso (17%), sendo que a iniciação do seu consumo é das mais tardias (a par com a experiência de embriaguez severa).

De acordo com o estudo, a canábis “é de longe a substância ilícita mais consumida”: 7% dos inquiridos já a consumiram pelo menos uma vez na vida. Esta percentagem cai ligeiramente para 6% quando nos focamos em consumos no último ano e para 3% se falarmos do mês anterior à realização do estudo.

Face ao estudo de 2019, e mantendo o padrão, o consumo desta substância ilícita “tornou-se menos prevalente”: a descida do consumo da canábis “é bastante acentuada”, mas também o é quando falamos de outro tipo de drogas, lê-se no sumário executivo do estudo. Houve ainda uma diminuição da percentagem de consumidores de canábis diariamente, sendo inferior a 1%. Ainda assim, um em cada dez alunos inquiridos “adota um padrão de consumo diário ou quase diário”.

30% dos alunos passou pelo menos 4h por dia a jogar

Desde 2015 que este estudo analisa também outros comportamentos aditivos sem substâncias, como é o caso do jogo e do uso da internet. Os dados mostram que, face a 2019, há menos alunos a jogar em lotarias e a fazer apostas desportivas, sendo que preferem jogar cartas ou dados a dinheiro, ou em slot machines.

A maioria dos alunos inquiridos jogou jogos eletrónicos no último mês: 74% fizeram-no num dia sem aulas e 65% num dia com aulas. Segundo os dados, 39% dos alunos (ou seja, mais de 4.300) jogou este tipo de jogo “numa base diária ou quase diária”.

Um em cada três estudantes universitários jogou a dinheiro num espaço de 12 meses. Homens são os que mais jogam e preferem a lotaria

Se quisermos ir mais a fundo na análise, a percentagem de alunos que no último mês jogou pelo menos 4h por dia, é de 30% (em dias sem aulas) e de 10% (em dias com aulas). Numa análise por sexo e idades, os jogos eletrónicos “são práticas mais masculinas que femininas”, sendo que os alunos de 3.º ciclo são aqueles que mais jogam.

Já no que toca ao jogo a dinheiro — que não se limita apenas a apostas desportivas — “nos últimos 12 meses tornou-se mais prevalente”, lê-se no sumário. O aumento da relevância deste tipo de jogo faz-se “muito à custa de um grande aumento entre as raparigas e entre os alunos mais novos”, sendo que o jogo de eleição deixou de ser a lotaria ou as apostas desportivas, passando a ser “jogar cartas/dados a dinheiro e slot machines“.