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Leão XIV é o primeiro Papa dos EUA e o primeiro da Ordem de Santo Agostinho. Embora tenha nascido num subúrbio de Chicago, o novo líder da Igreja Católica passou vários anos no Peru, primeiro como missionário e depois como arcebispo, escolhido por Francisco. Sobre o seu antecessor, deu uma entrevista emotiva nas horas que se seguiram à morte: garantiu ver nele um “exemplo” para o seu trabalho como missionário e não só.
Robert Francis Prevost, o nome que usava até esta quinta-feira, é descrito em vários perfis como um dos homens da confiança do Papa Francisco, que morreu em abril. O trabalho missionário e a defesa de uma vida simples são apontados como pontos comuns entre os dois Papas, que se encontravam todas as manhãs de sábado até à morte de Francisco.
O irmão do Papa Leão XIV, John Prevost, acredita que terá sido a dedicação “a ajudar os mais pobres e desafortunados” que terá dado início à relação entre Francisco e Leão. “Acho que foi assim que a amizade dos dois começou”, contou John Prevost, de 71 anos, ao Daily Herald.
A admiração por um homem que queria “viver autenticamente”
Numa entrevista dada logo depois da morte de Francisco, o ainda cardeal Prevost disse ter conhecido o seu antecessor quando Bergoglio era arcebispo de Buenos Aires. “Sempre tive a sensação de que era um homem que queria viver autenticamente, com coerência, o Evangelho”, afirmou, citado pelo Vatican News. “Quando eu era prior geral dos Agostinianos, muitas vezes, durante as visitas aos meus irmãos na Argentina, quando [Francisco] era ainda cardeal, tive a oportunidade de o encontrar e de falar com ele, de forma informal e sobre questões mais institucionais.”
O Papa Leão XIV chegou ao Peru em 1985, para uma missão da Ordem de Santo Agostinho em Chulucanas, refere um perfil do Vatican News. Passou dois anos neste local. Em 1987, regressou aos EUA, para dirigir uma missão em Olympia Fields. Em 1988, voltou ao Peru, com passagens e missões por Trujillo, Chulucanas, Iquitos e Apurímac.
Já em 1998, regressou aos EUA, mais concretamente a Chicago, onde teve vários cargos. Em 2013, Prevost reencontrou Francisco na primeira missa pública deste último. “Questionava-me sobre se se lembraria de mim e quando chegou e entrou na sacristia, ao ver-me, reconheceu-me logo e começámos a falar“, disse ao Vatican News. “No fim do meu mandato, naquele mesmo ano, pensámos em convidar o Papa a presidir à missa” na basílica de Santo Agostinho. “Com grande surpresa de todos”, aceitou. Em novembro de 2014, o Papa Francisco escolheria Robert Francis Prevost para ser administrador apostólico da diocese de Chiclayo, no Peru.
Já no Peru, “perguntava-me: ‘Como estás? Como estão a correr as coisas?'”, relata Prevost. “Deu tanta coisa à Igreja, os seus gestos de vizinhança falam por si com tanta eloquência.” Em 2018, Francisco visitou o Peru e encontrou-se com uma fiel cega de 99 anos, que percorrera uma grande distância para ver o então Papa. Robert Francis Prevost lembrou-se dessa história: “Ele desceu do carro, aproximou-se dela e cumprimentou-a. Deixou-nos exemplos deste género: na sua belíssima humanidade, quis viver e transmitir o Evangelho.
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Nesta entrevista em que partilhou várias memórias com o Papa Francisco, Robert Francis Prevost destacou ainda a última visita a do argentino à prisão Regina Coeli, na Quinta-feira Santa de 18 de abril. Um gesto “que fala tanto: querer andar, mesmo com os problemas de saúde, as dificuldades que tinha, para fazer como todos os anos, celebrar este dia tão importante na vida da Igreja com os reclusos e comunicar, assim, esta proximidade, este amor que Jesus nos deixou a todos”, considerou o novo Papa.
À AFP, o padre Juan de Dios Rojas recordou Leão XIV como “um homem bom, mesmo para aqueles que eram maus”. Dios Rojas contou à agência que o novo Papa tem pontos em comum com o antecessor argentino, como “ser muito atento aos outros e procurar todas as formas de tentar chegar a quem precisa”.
Os encontros semanais e a admiração profunda
Em 2019, o Papa Francisco confia uma nova missão ao bispo: ser administrador da diocese de El Callao. Apesar das restrições para conter a pandemia, o Papa visitou sopas dos pobres com frequência, recorda um perfil da AFP. “Mostrava a sua proximidade e simplicidade com as pessoas”, disse o atual bispo de El Callao, Luis Alberto Barrera.
Barrera mostrou o simples escritório onde Prevost trabalhava em El Callao, decorado com pouco, à exceção de uma fotografia do agora Papa Leão XIV com Francisco. “Ele é uma pessoa muito simples que se adapta a tudo, como qualquer bom missionário”, citou o Buenos Aires Times.
Em 2023, o Papa Francisco decide chamar Robert Francis Prevost ao Vaticano. Em janeiro desse ano, Francisco nomeou-o para ser prefeito do Dicastério de Bispos e presidente da Comissão Pontifícia para a América Latina, promovendo-o a arcebispo.
Francisco e Leão XIV encontravam-se todos os sábados de manhã, devido ao cargo deste último no Dicastério. “Até ao fim, tudo quis fazer pelo seu ministério, ao trabalho, ao serviço da Igreja”, frisou Prevost. “Ao início [a reunião] era às 8 da manhã. Mas às vezes eu chegava às 7h30 e ele já me esperava, por isso comecei a ir mais cedo e ele também se antecipava.” Segundo o agora Papa, Francisco deu-lhe um conselho importante: “Não percas o sentido de humor, é preciso sorrir.”
“Que a paz esteja com todos vocês.” O primeiro discurso de Leão XIV na íntegra
Em setembro de 2023, Francisco dá uma nova missão a Prevost: ser cardeal. E, em fevereiro deste ano, foi promovido à Ordem dos Bispos, que se integra no Colégio Cardinalício e funciona como órgão consultivo do Sumo Pontífice. Segundo a CNN, o Papa Francisco deu sucessivas novas funções de responsabilidade crescente ao norte-americano porque “o respeitava e tinha muita consideração por ele”, declarou Christopher Lamb, correspondente da CNN no Vaticano.
Em fevereiro, o cardeal Prevost teve funções de destaque no Jubileu das Forças Armadas, na Praça de São Pedro, escreve o Vatican News, um momento relevante. Durante o mais de um mês que o Papa Francisco esteve hospitalizado em Roma, Prevost presidiu ao rosário pela saúde do Papa, na Praça de São Pedro, a 3 de março. Nas semanas que se seguiram à hospitalização de Francisco, “encontrámo-nos algumas vezes, e nessas ocasiões pude constatar a sua coragem: dava tudo de si próprio para servir a Igreja”, contou ao mesmo site. Ao querer “uma Igreja pobre, que caminha com os pobres, que serve os pobres”, “acredito que o Papa deixou um exemplo muito grande ao mundo”, salientou. “A mim, pessoalmente, sim, para o meu trabalho como bispo no Peru, e em tantas outras coisas.”