“Percebeu o nome?” Tilly, de 40 anos, uma romana de gema que vive em Paris e que voltou a casa por estes dias para testemunhar um momento de especial significado para o povo da cidade de Roma, teve alguma dificuldade em identificar o homem que acabara de ser anunciado como sucessor do Papa Francisco pelo cardeal francês Dominique Mamberti, a quem coube a tarefa de proferir o célebre Habemus Papam. “Robert Prevost, dos Estados Unidos. Escolheu o nome Leão XIV”, esclarecemos. O olhar de surpresa da italiana foi revelador: “Não estava à espera.”
“Já ouvi falar dele, que é da mesma linha do Papa Francisco. Não era o mais falado. O nome dele surgiu nos últimos dias, mas é uma grande surpresa”, comentava Tilly, na Praça de São Pedro com os pais, que vivem em Roma. Para os romanos, até mesmo para os não-crentes, a figura do Papa é um grande motivo de orgulho. À exceção de alguns curtos períodos da história, há dois mil anos que o chefe da Igreja Católica vive no Vaticano, dentro da capital italiana — e os romanos sentem o Papa, cuja voz tem um alcance e uma influência global como poucas outras, como sua. Por isso, o funeral do Papa Francisco (que atraiu cerca de 400 mil pessoas a São Pedro) e o conclave para a eleição do seu sucessor foram motivos mais do que suficientes para que esta italiana viajasse para Roma com o objetivo de estar presente na Praça de São Pedro.
Desde 1978 que a Igreja Católica não é liderada por um italiano — e, no país onde se situa a capital do Catolicismo, isso tem sido sentido com cada vez mais desconforto. Não era segredo para ninguém que, depois de um polaco, um alemão e um argentino, os italianos queriam novamente um Papa italiano. A imprensa italiana multiplicou-se em nomes nos últimos dias, com especial destaque para o secretário de Estado Pietro Parolin, o arcebispo de Bolonha Matteo Zuppi ou o patriarca de Jerusalém Pierbattista Pizzaballa. A campanha em torno de Parolin tornou-se especialmente evidente esta semana. No fim de contas, foi eleito um norte-americano — o primeiro da história —, mas não um qualquer: aquele que era considerado, nos corredores da Igreja, como o menos americano dos americanos.
▲ O recém-eleito Papa Leão XIV na sua primeira aparição pública após o conclave
REUTERS
“Espero que ele seja da mesma linha do Papa Francisco, mesmo que saibamos que vai haver algumas mudanças”, disse Tilly ao Observador, no fundo da Praça de São Pedro, segundos depois do anúncio da eleição papal de Robert Francis Prevost, enquanto ainda se esperava a primeira aparição do novo Papa. Sobre o nome escolhido, Leão XIV, Tilly e os pais dizem não ter grande ideia do que poderá significar. “Vamos tentar saber mais. Esperávamos um Pio ou um João Paulo. Vamos tentar saber mais sobre ele, conhecê-lo melhor, saber porque é que escolheu este nome”, diz a italiana, sobre um nome que foi usado pela última vez há mais de um século, por Leão XIII (1878-1903). “Sendo um nome muito antigo, será uma escolha mais conservadora?”, questionava-se a italiana.
Minutos depois, o próprio Leão XIV, aparecendo pela primeira vez perante o mundo, deixaria evidente que traz consigo um programa de pontificado muito longe da perspetiva conservadora temida por Tilly. Sob fortíssimos aplausos, o novo Papa surgiu na varanda da Basílica de São Pedro para a sua primeira intervenção, um misto de improviso com notas que trazia previamente preparadas, o que convida a nova especulação: terá preparado o discurso nos últimos minutos ou já tinha aproveitado a hora de almoço para o fazer, ao aperceber-se que as votações da manhã mostravam que a sua eleição se afigurava inevitável?
Um discurso em que a continuidade levou a maioria dos aplausos
De qualquer dos modos, o primeiro discurso de Leão XIV, que foi mais longo do que as primeiras palavras de Francisco, em 2013, foi significativamente programático. O primeiro Papa oriundo dos Estados Unidos mostrou que pretende ser uma figura da continuidade com o pontificado de Francisco — que lembrou várias vezes com referências diretas e indiretas —, mas também com a história recente da Igreja. Evocou os apelos de João Paulo II para que os católicos não tenham medo de se assumirem no mundo e, sobretudo, deixou claro com o nome que escolheu que pretende que a Igreja, sob a sua liderança, se mantenha especialmente atenta aos mais frágeis, aos mais pobres e aos trabalhadores.
As primeiras palavras de Leão XIV, em italiano, foram evidentemente bergoglianas: “Que a paz esteja com todos vocês. Irmãos e irmãs, esta é a primeira saudação do Cristo ressuscitado, o bom pastor que deu a vida pela Igreja de Deus. Queria também que esta saudação de paz entrasse no vosso coração e chegasse a todos, onde quer que estejam, a todos os povos na Terra inteira, que a paz esteja convosco. Esta é a paz de Cristo ressuscitado, é uma paz desarmada e paz desarmante, humilde e que irá perseverar e que vem de Deus, Deus que nos ama a todos, incondicionalmente.”
Durante o seu pontificado, Francisco não se cansou de denunciar o absurdo da guerra e da corrida ao armamento. Num papado marcado pela escalada das tensões em vários pontos do mundo, Francisco procurou sempre que a Igreja Católica pudesse ser um fórum para a paz. Ofereceu os jardins do Vaticano para um encontro entre líderes de Israel e da Palestina, enviou emissários a Kiev e a Moscovo e colocou a influente diplomacia vaticana ao serviço da paz. Mas, mesmo perante os líderes ocidentais, nunca se cansou de alertar que a solução para um mundo a atravessar uma “terceira guerra mundial aos pedaços” não estava no armamentismo — e foi criticado, por exemplo, por ter demorado a condenar a Rússia no início da guerra, enquanto procurava não queimar pontes diplomáticas que pudessem ajudar a pôr um fim ao conflito.
Para Francisco, tudo se resumia na “cultura do encontro”, esta ideia eminentemente humana de que todos os conflitos podem ser superados se dois seres humanos se sentarem frente-a-frente reconhecendo que, antes de qualquer discórdia, estão unidos por uma mesma humanidade. O encontro de Trump e Zelensky na Basílica de São Pedro no funeral de Francisco foi um último ato desta diplomacia bergogliana — e a verdade é que, dias depois, o acordo de minerais entre EUA e Ucrânia foi finalmente assinado. No funeral do Papa Francisco, de resto, o momento em que o cardeal Giovanni Battista Re lembrou como o Papa argentino condenava duramente toda a vontade de ir para a guerra, que “deixa sempre o mundo pior do que estava”, atraiu um dos maiores e mais sentidos aplausos da celebração.
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Esta quinta-feira, a Praça de São Pedro voltou a irromper em fortes aplausos com o apelo de Leão XIV a uma “paz desarmada e desarmante” — uma referência, aliás, profundamente em linha com a Doutrina Social da Igreja, segundo a qual “o enorme aumento das armas representa uma ameaça grave para a estabilidade e a paz” e “todo e qualquer acúmulo excessivo de armas ou o seu comércio generalizado não podem ser justificados moralmente”. Nesse sentido, o próprio nome escolhido pelo norte-americano é significativo, homenageando Leão XIII, o Papa que é considerado o pai da Doutrina Social da Igreja. Com a encíclica Rerum Novarum, publicada em 1891, Leão XIII pôs a Igreja Católica a falar sobre a “condição dos operários”, debruçando-se amplamente sobre o mundo do trabalho, os direitos humanos e a necessidade de a Igreja ter uma proposta social para apresentar ao mundo. A partir da Rerum Novarum, vários Papas das décadas seguintes, com grande destaque para João Paulo II, voltaram de forma mais alargada aos temas dos direitos dos trabalhadores e da justiça social, contribuindo para consolidar aquilo que hoje é um corpo abrangente de textos conhecido como Doutrina Social da Igreja.
Na Praça de São Pedro, as palavras em italiano de Leão XIV foram escutadas atentamente, entrecortadas com fortes aplausos em momentos de grande significado. O maior aconteceu quando o Papa passou à segunda ideia, lembrando “aquela voz fraca, mas sempre corajosa, do Papa Francisco”. Num momento de profundo simbolismo, Leão XIV recordou que, no Domingo de Páscoa, o dia antes de morrer, Francisco surgiu para abençoar Roma e o mundo (literalmente, o significado da bênção Urbi et Orbi). “Deixem-me continuar essa bênção”, afirmou Leão XIV. Também aqui, a escolha da formulação “continuar” não terá sido inocente: Leão XIV pretende dar seguimento não só à bênção, mas a muito do pontificado do Papa Francisco.
▲ Robert Prevost foi criado cardeal em 2023 pelo Papa Francisco
AFP via Getty Images
Noutros passos da sua intervenção, Leão XIV não escondeu o tom bergogliano da sua mensagem. Depois de, logo no início, ter dito que Deus ama “todos incondicionalmente”, voltou a repetir a ideia de que a Igreja deve ser “missionária, que constrói pontes, diálogo, sempre aberta a receber, como esta praça, de braços abertos, todos, todos aqueles que precisam da nossa caridade, presença, diálogo e amor”. A repetição daquele “todos” suscitou vibrantes aplausos numa Praça de São Pedro apinhada — e é inevitável que nos faça recordar do célebre “todos, todos, todos”, o grito que resumiu o pontificado de Francisco, lançado em Lisboa durante a Jornada Mundial da Juventude de 2023.
“Por isso, sem medo, juntem-se de mão dada a Deus e entre nós vamos avançar. Somos discípulos de Cristo, Cristo veio antes de nós, o mundo precisa da Sua luz, a humanidade precisa dele como uma ponte de forma a chegar a Deus e a chegar ao Seu amor”, afirmou ainda Leão XIV perante uma multidão em êxtase por ter acabado de testemunhar a eleição de um novo pontífice. “Ajudem-nos também, a uns e outros, a construir pontes com diálogo, encontro, unindo-nos todos para sermos um só povo sempre em paz. Obrigado, Papa Francisco.”
Outro passo do discurso de Leão XIV foi particularmente significativo. “Queremos ser uma Igreja sinodal, que caminha, que procura sempre a paz, procura sempre a caridade, estar perto especialmente dos que sofrem”, disse o novo Papa, recolhendo novamente fortes aplausos. A palavra “sinodal” não foi colocada ali por acaso. Horas antes da eleição do novo Papa, o veterano jornalista irlandês Gerard O’Connell, profundo conhecedor da dinâmica interna dos conclaves e vaticanista há quatro décadas, dizia ao Observador que o grande “teste do algodão” desta eleição era justamente a questão da sinodalidade: “ Queremos este estilo de Igreja ou queremos voltar ao estilo anterior? Para muitos cardeais, este é o ponto decisivo.”
Efetivamente, a questão da sinodalidade tem sido um dos grandes pontos de discórdia entre diferentes sensibilidades na Igreja. A palavra, do jargão eclesiástico, tem origem nos termos gregos “syn” (em conjunto) e “hodos” (caminho), e traduz, essencialmente, a ideia de que a Igreja é um conjunto de pessoas que caminham em conjunto, onde as questões que dizem respeito a todos são decididas por todos. Francisco testou os limites e levou o conceito da sinodalidade a novos patamares, abrindo o Sínodo dos Bispos à participação e à votação dos leigos ou reformando a Cúria Romana para permitir que os leigos pudessem assumir cargos de liderança anteriormente reservados a cardeais. Isto não caiu bem em todos os setores da Igreja — e nas reuniões pré-conclave houve cardeais que acusaram Francisco de desrespeitar as tradições da Igreja ao relativizar o poder do clero, permitindo o acesso de leigos (homens e mulheres) a cargos de autoridade; seria em torno dessa oposição que se estaria a desenhar uma campanha a favor da eleição pontifícia do cardeal Pietro Parolin.
Perante a multidão em Roma e no mundo, Leão XIV fez questão de assinalar que não ia voltar atrás nos caminhos abertos por Francisco: a Igreja é mesmo para ser sinodal, isto é, aberta à participação de todos. Mesmo todos. Num sinal curioso de que a sinodalidade poderá estar no topo das prioridades do novo Papa, logo nas primeiras horas após a eleição, a atual subsecretária do Sínodo dos Bispos, a irmã Nathalie Becquart (primeira mulher nomeada para o cargo e um dos rostos da reforma implementada por Francisco) já divulgava publicamente nas suas redes sociais fotografias de um encontro com Leão XIV.
Na sua intervenção, contudo, Leão XIV também não esqueceu aqueles que se poderão situar mais longe das ideias de Francisco. Aliás, num primeiro momento, o facto de ter surgido na varanda de São Pedro com a murça vermelha, a estola e a cruz dourada evocou de imediato a eleição de Bento XVI (contrastando com a de Francisco, que preferiu a simplicidade da batina branca) e atraiu logo alguns comentários positivos entre alguns grupos que estavam na Praça de São Pedro. Simultaneamente, também não se esqueceu de referir, sobretudo no agradecimento que fez aos cardeais, a necessidade de construir uma “Igreja unida” — uma referência especialmente significativa quando se tem em conta que os apelos à unidade foram, nas últimas semanas, uma das grandes bandeiras dos setores mais conservadores, que acusavam Francisco de provocar desunião entre os católicos com ideias menos ortodoxas. Leão XIV deixou, num primeiro momento, um sinal de que não pretendia hostilizar nenhuma ala da Igreja contemporânea, profundamente polarizada.
Ao mesmo tempo, o novo Papa fez questão de recordar a ordem religiosa de que é membro, a Ordem de Santo Agostinho, cujos membros são conhecidos como agostinhos ou agostinianos. “Sou um filho de Santo Agostinho, um agostiniano, que disse: ‘Convosco sou cristão e para vós sou bispo.’ Neste sentido podemos caminhar todos rumo à pátria que Deus nos preparou”, afirmou Leão XIV, um Papa que é considerado um dos menos americanos entre os cardeais americanos — e traz atrás de si uma longa experiência de missionário.
Nascido em 1955 em Chicago, o jovem Robert Francis Prevost estudou desde a infância num seminário dos agostinianos, mas antes de seguir a carreira eclesiástica ainda se formou em matemática, e chegou a dar aulas de física e matemática. Só mais tarde é que entrou nos estudos teológicos, onde também se evidenciou, sendo enviado para Roma para estudar direito canónico.
Já formado, seguiu para o Peru em missão, onde ocupou vários cargos de liderança pastoral, incluindo, anos mais tarde, o de bispo de Chiclayo (e, no discurso inaugural, não esqueceu os seus antigos diocesanos, a quem se dirigiu em espanhol). Pelo meio, trabalhou em vários cargos diocesanos, foi superior geral dos agostinianos e, no Peru, foi um importante construtor de pontes entre a ala mais à esquerda da teologia da libertação e a ala próxima do Opus Dei, como recorda o vaticanista John Allen. O último cargo que ocupou antes da eleição pontifícia foi o de prefeito do Dicastério para os Bispos, uma importante posição na administração de Francisco. Nas palavras do mesmo vaticanista, aquele cargo, “responsável por aconselhar o Papa na escolha de novos bispos por todo o mundo” é “uma ótima forma de fazer amigos na hierarquia católica”, o que poderá ter ajudado na eleição. Amplamente visto como um progressista e adepto da linha do Papa Francisco para criar uma Igreja aberta a todos, Prevost foi o homem que os cardeais — que, na sua maioria, queriam prosseguir com o legado do Papa Francisco — consideraram ter o perfil certo para dar continuidade a essa missão, um perfil de cariz essencialmente pastoral (no qual o principal candidato, Pietro Parolin, manifestamente não encaixava).
“Esperamos que fale tanto da paz como o anterior”
Antes de Leão XIV surgir na varanda de São Pedro, o tempo que se viveu no Vaticano, sob um sol escaldante e com poucas sombras, foi de grande expectativa. Depois do fumo negro da manhã, a ansiedade para saber se, à semelhança de 2005 e 2013, este conclave ficava resolvido na tarde do segundo dia era grande. O serviço de imprensa do Vaticano tinha deixado um alerta para que os jornalistas prestassem atenção à chaminé a partir das 17h30, já que por volta dessa hora poderia sair fumo branco, caso a quarta votação tivesse sucesso (se fosse necessário seguir para a quinta, só depois das 19h haveria fumo, branco ou negro).
Passaram as 17h30, passaram as 17h50 (a hora a que, em 2005, saiu o fumo branco relativo à eleição de Bento XVI) e passaram as 18h00. A maioria dos jornalistas estava já a preparar-se para esperar mais uma hora ou duas pelo fumo do final da tarde quando, subitamente, poucos minutos depois das 18h00, a multidão na Praça de São Pedro irrompeu numa explosão de aplausos e gritos. Não havia margem para dúvidas: estava a sair fumo branco da chaminé.
Em poucos minutos, a Praça de São Pedro, que já estava praticamente cheia, ficou totalmente lotada. Nas imediações do Vaticano, milhares de pessoas esperavam à sombra, nas esplanadas e cafés, observando as televisões e os ecrãs gigantes instalados pelas autoridades italianos. Era expectável que, quando houvesse fumo branco, toda essa multidão se precipitasse para uma praça já cheia — e foi justamente o que sucedeu. A partir da zona de jornalistas onde o Observador estava, foi possível observar milhares de pessoas a correr a partir das entradas laterais da Praça de São Pedro e da Via della Conciliazione, em busca de um lugar privilegiado para ver o que se ia passar na hora seguinte.
Começava, ali, a grande espera. O padre português Rui Santiago, antigo provincial dos missionários redentoristas em Portugal e um dos atuais responsáveis pela zona sul da Europa desta congregação, era um dos muitos fiéis presentes na praça. Não veio de propósito: para esta semana já estavam marcadas reuniões europeias da congregação e o sacerdote não perdeu a oportunidade de passar pela praça. “Vim sobretudo pelo ambiente, não para ver quem é o Papa, porque isso vê-se muito melhor na televisão”, contou ao Observador, durante aquela hora de espera em que já sabíamos que havia Papa, mas não sabíamos quem era.
▲ O fumo branco saiu da chaminé da Capela Sistina poucos minutos depois das 18h
VATICAN MEDIA HANDOUT/EPA
“É muito engraçado ver a maneira como as pessoas correm, se movem, parece que há uma espécie de um frémito para ser testemunha de alguma coisa que não se sabe bem o que é. Certamente, ninguém vem a correr para ver quem é o Papa. Toda a gente tem telemóvel, toda a gente pode ver. Na gelataria onde está a comer o gelado, está lá uma televisão. É o fenómeno da multidão”, diz. “É o universo em que nós estamos, com super-tecnologia em todo o lado, helicópteros em cima, drones a filmar tudo, montes de câmaras, super-tecnologia com tudo e estamos todos a olhar para uma chaminé. Uma chaminé que bota fumo!”
Ainda antes de saber o nome do escolhido, Rui Santiago lançava os seus desejos: “Espero um Papa que mereça esta Igreja, mais do que outra coisa.” Ruptura ou continuidade? “Não consigo aceitar a hipótese da ruptura, da não-continuidade”, responde o sacerdote. “Por outras palavras, ainda que tivéssemos um Papa que explicitamente e ostensivamente quisesse a ruptura, a Igreja já é suficientemente crescida, nós batizados somos suficientemente crescidos para seguirmos na continuidade. Já lá vai a papolatria.” Acima de tudo, o padre português pedia um Papa que o surpreendesse “poeticamente”.
“Um Papa que seja capaz de trazer uma linguagem inspirada para o mistério da realidade”, esclarece. “Alguém, como diz Jesus, que no meio do mundo em que vivemos, saiba olhar para o mistério mais além das pedras que caem em cima de pessoas. E que também saiba ver os lírios do campo e dizer que é preciso olhar para eles. Gostava muito, porque gosto muito de conhecer pessoas que me surpreendem poeticamente.”
A conversa entre o Observador e o sacerdote foi interrompida por uma grande agitação entre a multidão presente na Praça de São Pedro. Rapidamente se percebeu o motivo: havia movimentações na cortina vermelha colocada na varanda da Basílica de São Pedro. Segundos depois, o cardeal Dominique Mamberti surgiu perante o povo a anunciar o nome de Robert Prevost como Leão XIV. Feito o anúncio, o padre português já tinha um nome concreto para colocar no perfil que estava a desenhar segundos antes.
Numa primeira reação, Rui Santiago apontou dois pontos positivos: “Primeiro, não esperava que escolhessem, a seguir a um jesuíta, um outro membro de uma congregação religiosa, de uma ordem. Acho um sinal muito positivo de abertura da Igreja. Em segundo lugar, a escolha do nome Leão XIV parece-me muito clara no sentido de querer um pontificado que tem a ver com a Doutrina Social da Igreja, com Leão XIII e com a Rerum Novarum, que é claramente considerado o início da Doutrina Social da Igreja. Portanto, uma presença missionária de diálogo com a sociedade.”
Ali ao lado, mesmo ainda sem saber muito sobre o novo Papa, a italiana Tilly garante que, no momento histórico que a humanidade vive hoje, os romanos têm ainda mais orgulho em ter na sua cidade uma voz que possa ser uma consciência moral global. “Foi muito importante para nós estar aqui a representar o nosso apoio ao Papa”, diz a italiana, agarrada ao telemóvel enquanto tenta, com pouco sucesso (devido à grande dificuldade em aceder à rede móvel na saturada Praça de São Pedro), descobrir qualquer coisa sobre Leão XIV. “O Papa é uma pessoa que tem alguma coisa a dizer a este mundo neste momento. Vamos sentir muita falta do Papa Francisco e esperamos que este fale tanto da paz como o anterior.”