Pouco passava das 21 horas desta terça-feira, quando, em pleno comício em Tavira, o presidente do Chega se sentiu mal depois de ter bebido água. Depressa levou à mão à garganta e ao peito (do lado esquerdo), o que poderia indiciar um problema grave, a nível cardiovascular, por exemplo. No entanto, o pior não se confirmou. André Ventura sofreu um episódio de espasmo esofágico associado a um pico de tensão arterial e ao stress, disse ao Observador fonte médica do Hospital de Faro.

André Ventura repetiu também o eletrocardiograma que já tinha feito ainda na ambulância, em Tavira, que confirmou que não havia alterações no ritmo cardíaco — o que permitiu despistar a hipótese de enfarte agudo do miocárdio. O líder do Chega foi ainda sujeito a uma TAC e a análises clínicas. Por estar em jejum, levou ainda soro.

Os espasmos esofágicos, associados ao refluxo, “são contrações desorganizadas do esófago”, normalmente associados à ingestão de alimentos (água ou comida), “que podem provocar dor no peito e dificuldade em engolir”, explica ao Observador o gastroenterologista Rui Tato Marinho. No caso do episódio que afetou André Ventura, o médico admite que o espasmo do esófago tenha sido provocado pela apressada ingestão de água, segundos antes de o líder do Chega se ter sentido mal.

As horas duras de Ventura até ao internamento. Sentiu-se mal, quis regressar minutos depois e foi travado pelos médicos

“Nalguns casos, pode haver o que chamamos impacto alimentar, que acontece quando a pessoa engole alguma coisa (água, por exemplo) em que ocorre uma contração do esófago, que não deixa passar o que está a tentar ingerir”, sublinha o especialista.

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Os espasmos esofágicos ocorrem em pessoas que tenham refluxo gástrico (uma patologia caracterizada pela subida de ácido do estômago para o esófago), provocando alterações na “motilidade esofágica”, isto é, dos movimentos do esófago. O refluxo gástrico é uma patologia muito comum, atingindo cerca de dois milhões de pessoas em Portugal, estima Rui Tato Marinho. Estas situações podem ser potenciadas em períodos de maior stress e também podem estar associadas à adoção de uma dieta alimentar desequilibrada (com ingestão de alimentos ricos em gordura e bebidas gaseificadas).

O também professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa explica que o refluxo gástrico, “pela azia e pela dor que provoca, pode confundir-se com um enfarte agudo do miocárdio“, uma vez que pode “provocar uma dor muita intensa no peito” — exatamente o que poderá ter acontecido no caso de André Ventura, que levou a mão ao peito, indiciando uma dor localizada.

Em ambiente hospitalar, o despiste de enfarte é feito através de “eletrocardiograma e análises”, explica Rui Tato Marinho. “Se houver enfarte, há alterações nos dois casos”, diz o médico. “Se for tudo negativo, poderá pedir-se uma endoscopia. E depois há estudos específicos, como a manometria esofágica, que permite medir a pressão ou o ácido do esófago. Mas são exames que não se fazem em contexto de urgência”, completa o especialista.

O tratamento pode incluir alterações na dieta, medicamentos que ajudem a relaxar o esófago, como relaxantes musculares ou bloqueadores dos canais de cálcio. Nos casos mais graves, pode ser necessária uma cirurgia.