Em vez de estar na sala de partos a “segurar a mão” da mulher, o ativista pró-Palestina Mahmoud Khalil — cuja detenção tem originado protestos nos EUA — foi obrigado a acompanhar o parto do seu primeiro filho por telefone. O testemunho do palestiniano foi apresentado em tribunal na passada quarta-feira, após um juiz federal de Nova Jérsia ter admitido que a sua detenção e deportação seria “provavelmente inconstitucional”. As declarações do jovem fazem parte de um conjunto de novas provas que a sua equipa jurídica apresentou em Nova Jérsia e que acompanham o pedido de providência cautelar apresentado (que exige a sua libertação imediata).

“Em vez de segurar a mão da minha mulher na sala de parto, estava agachado no chão do centro de detenção, a sussurrar-lhe através de um telefone enquanto ela estava em trabalho de parto sozinha”, contou Mahmoud Khalil citado pelo The Guardian. O nascimento do seu primogénito aconteceu em abril. E, no testemunho que agora partilhou, conta que ouviu “a dor” a mulher pelo telefone. “Tentei confortá-la enquanto outros 70 homens estavam a dormir à minha volta. Quando ouvi os primeiros gritos do meu filho, enterrei o rosto nos meus braços para que ninguém me visse chorar.”

Para o licenciado na Universidade de Columbia, nos EUA, os dois “danos mais imediatos e viscerais” da sua detenção foram ter perdido o nascimento do seu filho e ter sido afastado da mulher: “Não poder vê-los, abraçá-los, falar com eles livremente, desfrutar de tudo o que imaginei que seriam os nossos primeiros dias como família, é devastador.” E afirma ainda que tem sofrido “ofensas à sua dignidade e reputação, enfrentado dificuldades pessoais e familiares, temido constantemente pela sua segurança” e o seu futuro profissional tem sofrido “danos graves”.

[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 3.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui e o segundo aqui.]

Khalil foi detido por agentes federais de imigração a 8 de março em Nova Iorque, após ter participado em manifestações pró-Palestina na Universidade da Columbia. O jovem acabou por ser transferido para um centro de detenção de imigrantes no estado do Louisiana, mas a sua detenção está ainda em pausa, uma vez que não tem gerado consenso entre juízes.

Em abril, uma juíza validou a detenção do ativista, mas no mês passado um juiz federal de Nova Jérsia afirmou que o uso que o governo dos EUA está a fazer da lei de imigração para argumentar a detenção e deportação de Khalil é “provavelmente inconstitucional”, escrevia a CNN. Ainda assim, o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, afirma que pode deportar Mahmoud Khalil por considerar que este representa uma ameaça à política externa dos EUA.

Nos últimos meses, em cidades como Chicago têm sido organizados alguns protestos em defesa de Khalil, sendo exigida a libertação do palestiniano — e os seus advogados têm contestado a legalidade da detenção e acusado a administração Trump de reprimir a liberdade de expressão.

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Protesto em Chicago, nos EUA, em março de 2025

Na passada quarta-feira, a equipa jurídica do palestiniano apresentou dezenas de declarações e relatórios que descrevem os “danos irreparáveis” que Khalil (e outras pessoas pró-Palestina) estão a sofrer ao continuarem detidos, enquanto esperam que “a decisão de Marco Rubio seja anulada”.

Segundo os advogados de Mahmoud Khalil, o palestiniano está a sofrer “danos irreparáveis devido à sua detenção”. E acusam ainda o governo dos EUA de estar a prejudicar a reputação do jovem, “identificando-o, sem fundamento, como um risco para a política externa dos Estados Unidos, marcando-o a si e à sua família como alvos e prejudicando gravemente a sua oportunidade de vir a prosseguir uma carreira na diplomacia internacional e na defesa dos direitos humanos”, lê-se no Guardian.

Segundo o jornal britânico, no conjunto de documentos que os advogados de Mahmoud Khalil apresentaram, constavam ainda declarações da sua esposa e de estudantes e professores da Universidade de Columbia, assim como uma exposição escrita por um antigo funcionário do Departamento de Estado.

[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 3.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui e o segundo aqui.]