Al Gore recorda-a como uma funcionária pública com uma “carreira impactatante” e uma grande “defensora do clima”. Ainda muito jovem, e mesmo antes de se formar em Direito, foi a trabalhar para o então senador do Tennessee — que mais tarde chegaria à vice-presidência dos EUA — que Melissa Hortman se estreou nas andanças políticas, já nessa altura associada ao partido democrata e às causas ambientais. Mais de 30 anos depois, aos 55 anos, tudo indica que o seu assassinato, e do seu marido, tenha por base motivações políticas.
No carro do atirador, entretanto detido e com acusações que o podem levar à pena de morte, as autoridades norte-americanas encontraram “indicações” daquilo que pode ter levado Vance Boelter a realizar os ataques. Foi, por exemplo, encontrada uma lista que incluía nomes de ativistas pró-aborto em Minnesota e políticos democratas que tinham defendido esta causa publicamente, ou feito passar legislação para facilitar a interrupção voluntária da gravidez.
É o caso de Hortman, que, como destaca o New York Times, desempenhou um papel fundamental na aprovação de vários projetos de lei em 2023, quando os democratas detinham uma pequena maioria no Congresso norte-americano, incluindo legislação que expandiu o direito ao aborto. A congressista norte-americana lutou igualmente pela legalização da marijuana recreativa, exigiu que os empregadores oferecessem licença familiar e médica remunerada aos seus trabalhadores e defendeu os direitos laborais de pessoas com deficiência.
O voluntariado na comunidade e o cão Gilbert que também morreu baleado
Melissa Hortman nasceu em Haluptzok a 27 de maio de 1970 e cresceu em Spring Lake Park, no Minnesota, onde concluiu o ensino básico. Formou-se na Blaine High School e, mais tarde licenciou-se em Direito na Universidade de Boston. De acordo com a sua página de campanha política, ela e o marido, Mark, compraram a sua primeira casa no Windsor Terrace, em Brooklyn Park, a rua onde moravam até sábado e onde acabaram por ser assassinados por Vance Boelter.
Na mesma página, informa-se que Melissa e Mark tiveram dois filhos e é partilhada uma fotografia com os quatro elementos da família. Pelo que se sabe até ao momento, o casal estava sozinho em casa no momento do assassinato.
https://www.melissahortman.com/about
Em termos de carreira política, Melissa Hortman foi eleita para a Câmara dos Representantes de Minnesota em 2004. Desde então, segundo a sua apresentação, tem atuado principalmente nas áreas de transporte, financiamento da educação básica, ensino superior, energia e meio ambiente. Em 2013, trabalhou para promulgar leis de promoção da energia solar do Minnesota, bem como regulamentos para permitir a partilha de energia solar comunitária.
Para lá da vida profissional, a congressista assassinada era também uma voluntária de longa data na sua comunidade. Conciliava a prática jurídica e a vida política com o voluntariado numa escola local, com o ensino religioso na catequese da Igreja Católica Saint Timothy e como líder das escoteiras locais.
[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 5.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui, o segundo aqui, o terceiro aqui e o quarto aqui]
E não era só às causas relacionadas com pessoas que se dedicava. Melissa Hortman era voluntária e treinadora de cães na Helping Paws Foster Home, um refúgio de animais na cidade onde vivia. No Facebook, a associação revelou que teve conhecimento da “morte trágica e sem sentido” da congressista e recordou-a como uma treinadora exemplar, em conjunto com a restante família.
“A família Hortman criou e treinou Minnie, que agora é um cão de serviço de um veterano. Eles também ajudaram a criar e treinar Gilbert, um cão de serviço que acabou por mudar de carreira e tornou-se um membro querido da família”, escreveram responsáveis da associação no Facebook.
A Helping Paws, que partilhou uma fotografia de Melissa Hortman com o cão da família, Gilbert, disse, no sábado, não ter informação sobre o estado de saúde do animal, que estaria na moradia da família quando o tiroteio ocorreu.
Entretanto, de acordo com a People, sabe-se que Gilbert morreu depois de ter sido baleado. Emily Hill, uma amiga da família e esposa do deputado estadual de Minnesota Josiah Hill, disse à revista que o golden retriever de Hortman teve de ser eutanasiado devido aos ferimentos que sofreu no sábado.
“É simplesmente horrível”, disse Hill. “A Melissa adorava cães e trabalhava como voluntária em resgates de cães”, recordou.
Pragmática, boa negociadora e de estilo pouco combativo
Nos corredores políticos, os colegas democratas elogiam a ética de trabalho, a capacidade de negociação e o pragmatismo de Melissa Hortman. Jerry Gale, diretor da campanha de Hortman, descreveu a congressista como uma ativista incansável, apaixonada por recrutar colegas democratas para se candidatarem aos mais variados cargos da política norte-americana.
“Ela tinha uma visão de como queria que o Estado fosse e sabia que isso ia exigir muito trabalho”, disse Gale, citado pelo New York Times. Sobre o eventual receio de se tornar um alvo de extremistas, o antigo diretor de campanha recordou que essa preocupação pairou na cabeça de Melissa perante o atual cenário polarizado nos EUA.
“Penso que isso lhe passou pela cabeça, por vezes, na campanha”, admitiu, mas ressalvou que o seu estilo, que “não era combativo”, bem como a sua experiência de negociadora de acordos com os republicanos, não levavam a crer que se tornasse num alvo direto. Era até conhecida pelos seus discursos e declarações “curtas, diretas e civilizadas”, que a deixavam muitas vezes fora dos holofotes mediáticos.
As reações à morte de Hortman, aos 55 anos, sucedem-se. Destaca-se a de Al Gore, com quem a democrata iniciou a sua carreira política. “Indignado. Horrorizado. Chocado. Desapontado. De coração partido”, é assim que o antigo vice-presidente norte-americano se descreveu na rede social X, assim que teve conhecimento da morte da antiga colega.
“É difícil encontrar apenas uma palavra para expressar os meus sentimentos sobre o assassinato da deputada do Melissa Hortman e do seu marido, Mark. Um dos primeiros papéis que Melissa assumiu na política foi trabalhar para mim no Senado dos EUA. Embora tenha estado lá pouco tempo, teve um impacto duradouro na nossa equipa”, recordou.
Outraged. Horrified. Shocked. Appalled. Heartbroken.
It’s hard to find just one word to express my feelings about the assassination of MN Rep. Melissa Hortman and her husband, Mark. One of the first roles Melissa ever took in politics was working for me in the U.S. Senate.…
— Al Gore (@algore) June 14, 2025
E acrescentou: “Não há absolutamente nenhuma desculpa para a violência política e todos na vida pública devem condenar esta horrível tragédia. As minhas orações vão para os seus filhos e para todos os que a amavam”.
Steve Simon, secretário de Estado de Minnesota, descreveu Melissa Hortman como um “ser humano brilhante e luminoso”. Também no X recordou a antiga colega de Direito como uma das “mais extraordinárias funcionária pública” que alguma vez conheceu.
Rep. Melissa Hortman was a bright shining light of a human being. She was my good friend. We went to law school together and entered the legislature at the same time. She was one of the most extraordinary public servants I’ve ever known. Her assassination is a loss not just for…
— Steve Simon (@MNSteveSimon) June 14, 2025
“O seu assassinato é uma perda não só para a sua família, mas para todo o Minnesota”, garantiu ainda.