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Flagelado há mais de uma semana por ataques diários de Israel — a que se veio juntar o ataque norte-americano da última noite —, o Irão tem enfrentado as ameaças sozinho. Os seus principais aliados observam o conflito à distância e parecem não querer envolver-se na guerra em curso no Médio Oriente. Este domingo, Rússia e China condenaram a operação Midnight Hammer (à semelhança do que já tinham feito em relação aos ataques israelitas), enquanto a Coreia do Norte se mantém em silêncio em relação à intervenção dos EUA no conflito. Nenhum destes países anunciou ainda ajuda militar a Teerão ou uma intervenção no terreno em defesa do aliado.
Dos proxies aliados do Irão também não é esperada uma intervenção no conflito capaz de “virar o jogo” a favor do regime dos ayatollahs. O maior e mais bem equipado de todos os grupos aliados do Irão na região, o Hezbollah (a milícia que atua no sul do Líbano) já se veio colocar de fora do conflito. O Hamas — debilitado por dois anos de ataques de Israel sobre o grupo — declarou apenas “solidariedade” e disse ter “plena confiança” na capacidade do Irão para se defender. Apenas os houthis do Iémen prometeram sair em defesa do Irão, atacando os navios norte-americanos que naveguem no Mar Vermelho.
A China, um dos maiores aliados do Irão, reagiu à operação Midnight Hammer [Martelo da Meia-Noite, em português], condenando o que diz ser a violação flagrante da Carta da ONU por parte dos Estados Unidos. “A China condena totalmente os ataques dos Estados Unidos contra o Irão e o bombardeamento de instalações nuclear sob a vigilância da Agência Internacional de Energia Atómica”, disse o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros Chinês. Para Pequim, as ações dos Estados Unidos “violaram seriamente os objetivos e princípios da Carta das Nações Unidas e do Direito Internacional” e “exacerbaram ainda mais as tensões no Médio Oriente”.
Seguindo a habitual postura de não intervenção, a China limita-se, assim, a defender o diálogo e um cessar-fogo. “A China apela a todas as partes, a Israel em particular, para chegar a um cessar-fogo o mais cedo possível”, indicou o porta-voz, que também pediu que se “garanta a segurança dos civis e se inicie o diálogo e negociações”. “A China está pronta para trabalhar com a comunidade internacional para restaurar a paz e estabilidade no Médio Oriente”, acrescentou.
Rússia condena violação da Carta da ONU e Medvedev diz que vários países estão prontos para entregar ogivas nucleares ao Irão
Críticas à violação da Carta da ONU chegaram também da Rússia, país que ocupa ilegalmente parte da vizinha Ucrânia há já mais de três anos. O Ministério dos Negócios Estrangeiros emitiu um comunicado em que critica o que diz ser a “decisão irresponsável” dos EUA de atacarem o Irão. “Subjugar o território de um Estado soberano a ataques de mísseis e bombas, quaisquer que sejam os argumentos, viola flagrantemente o Direito Internacional, a Carta das Nações Unidas e as resoluções das Nações Unidas do Conselho de Segurança”, lê-se no comunicado da diplomacia de Moscovo.
Tal como a China, a Rússia apela ao “fim da agressão” e ao redobrar dos esforços para “criar as condições para o regresso ao caminho político e diplomático”. Pouco mais de 10 horas depois do ataque norte-americano, o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi, anunciava que se vai encontrar com o Presidente da Rússia, Vladimir Putin, esta segunda-feira. “Vou para Moscovo esta tarde e vou ter uma reunião com o Presidente Putin amanhã de manhã”, afirmou Araghchi, acrescentando que a “Rússia é amiga do Irão”.
Já o vice-presidente do Conselho de Segurança russo, Dmitry Medvedev, conhecido pela linguagem agressiva em relação ao Ocidente, deixou críticas a Donald Trump (“o Presidente da paz que iniciou uma nova guerra”) afirmou que vários aliados estão preparados para fornecer ogivas nucleares a Teerão. “Vários países estão prontos para fornecer diretamente ao Irão suas próprias ogivas nucleares“, escreveu o ex-Presidente russo na rede social X.
2. The enrichment of nuclear material — and, now we can say it outright, the future production of nuclear weapons — will continue.
3. A number of countries are ready to directly supply Iran with their own nuclear warheads.— Dmitry Medvedev (@MedvedevRussiaE) June 22, 2025
De outro tradicional aliado do Irão — a Coreia do Norte — não veio ainda nenhuma reação ao ataque norte-americano a três infraestruturas nucleares iranianas. Há três dias, Pyongyang tinha-se insurgido contra a ofensiva israelita, classificando Israel como “uma entidade semelhante a um cancro para paz no Médio Oriente”. Um porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros norte-coreano referia-se aos ataques de Telavive como “um ato horrível de agressão que viola a soberania e a integridade territorial de um estado soberano e um crime imperdoável contra a humanidade”.
Hamas cauteloso, Hezbollah coloca-se de fora e só houthis prometem agir
Já dos grupos armados aliados do Irão no Médio Oriente (e apoiados e financiados por Teerão), as manifestações de apoio têm sido tímidas. O Hezbollah libanês já afastou a hipótese de intervir no conflito em defesa do Irão. À revista Newsweek, um porta-voz do grupo afirmou que o Hezbollah não tem planos para retaliar contra Israel e os Estados Unido, uma vez que o Irão tem capacidade de se defender. “O Irão é um país forte e capaz de se defender, a lógica dita que pode enfrentar a América e Israel”.
O Hamas, o grupo terrorista palestiniano que opera em Gaza, alinhou pelo mesmo tom, condenando a agressão, mas sublinhando a capacidade de auto-defesa do Irão. Apenas os houthis do Iémen prometeram ação, sugerindo que poderão começar a atacar os navios dos EUA que passem no Mar Vermelho, uma estratégia frequentemente usada pelos houthis e que já levou Israel e EUA a atacarem o Iémen nos últimos meses. “Afirmamos o compromisso da República do Iémen com a declaração das forças armadas de que estão prontas para atingir navios e navios de guerra dos EUA no Mar Vermelho”, disse o governo rebelde do Iémen, controlado pelos houthis.
No entanto, não é clara que capacidade militar operacional ainda resta ao grupo para perturbar a circulação marítima na região, depois dos ataques dos últimos meses levados a cabo pelos EUA e Israel.